Os bilionários de Londongrado

Disputas, negócios e extravagâncias dos 700 magnatas russos que elegeram a capital inglesa como seu refúgio predileto

Nos últimos anos, Londres transformou-se no refúgio predileto dos empresários russos que enriqueceram fazendo negócios em sua terra natal após a derrocada do comunismo. Estabelecidos na capital inglesa, eles agora gastam na cidade rios de libras esterlinas em produtos, serviços e investimentos.

Encontram-se por todos os lados sinais de como essa enxurrada de dinheiro do Leste Europeu vem mudando a face do principal centro financeiro da Europa. No mercado imobiliário, um terço das mansões londrinas é vendido hoje a milionários russos. Lojas de luxo, como a Harvey Nichols, contam com vendedores fluentes no idioma de Dostoiévski e Tolstoi para atender a nova clientela.

O mercado gastronômico também está aproveitando a onda. A Caviar House, por exemplo, um dos restaurantes mais caros de Londres, passou por uma ampla reforma para atender fregueses que chegam a gastar até 46 000 dólares numa única refeição. Na bolsa de valores, as oito empresas russas listadas representam uma das maiores participações estrangeiras no pregão.

Dessas, cinco abriram capital há menos de um ano e meio. Graças a esse fenômeno, a cidade já foi apelidada de “Londongrado”, um trocadilho com os nomes Londres e o sufixo russo usado para designar “cidade”.

Estima-se que morem atualmente na capital inglesa 700 grandes empresários vindos do Leste Europeu, com patrimônios que variam de 10 milhões a 18 bilhões de dólares (veja quadro). Além da curta distância — Londres fica a menos de 4 horas de vôo de Moscou –, outro fator os tem atraído para a cidade.

Uma brecha na legislação tributária britânica permite que os residentes no país não paguem impostos sobre seu patrimônio no exterior. Com isso, muitos russos vendem ativos em sua terra natal e usam o dinheiro para comprar imóveis na Inglaterra sem pagar impostos ao governo. Como muitas das fortunas surgiram de forma bastante controversa, Londongrado funciona como uma espécie de paraíso fiscal para esses magnatas, permitindo-lhes lavar o dinheiro e mantê-lo a salvo das autoridades russas, que lutam para reaver parte desse capital.

Uma das figuras na mira é Boris Berezovski, condenado na Rússia em 1999 a dez anos de prisão por fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Berezovski conseguiu escapar da prisão em Moscou obtendo asilo político em Londres. Em sua defesa, alegou que as acusações eram fruto de perseguição política.


Seu antigo império de mídia foi construído a partir da aquisição de jornais e emissoras de TV privatizadas após a queda da União Soviética. Berezovski começou a ter problemas com os negócios quando decidiu romper relações com o presidente Vladimir Putin, que reestatizou à sua revelia uma das jóias do império, a emissora ORT, a maior do país. Ao mudar-se para Londres, ele não só escapou das grades como conseguiu salvar o restante de seu patrimônio.

Rapidamente vendeu suas empresas na Rússia, comprou duas mansões na capital inglesa e aplicou seu dinheiro em diversos países. Existem fortes evidências de que parte desses investimentos esteja por trás da empresa MSI, que atua no futebol brasileiro administrando os negócios do Corinthians, um dos maiores clubes do país.

No início de maio, Berezovski esteve no Brasil, participou de reuniões em que discutiu a possibilidade de um inves timento na Varig e, antes de voltar para a Europa, foi detido pela Polícia Federal por 8 horas para prestar depoimento num processo movido pelo Ministério Público sobre lavagem de dinheiro no futebol brasileiro.

Além da origem da fortuna ligada às privatizações feitas após a derrocada da União Soviética, os magnatas de Londongrado têm em comum um fascínio por tudo o que seja extravagante e suntuoso. Recentemente, num local não revelado, uma dezena de empresários russos chegou a gastar quase 1 milhão de dólares num jantar de negócios — com direito a show particular da cantora Liza Minelli.

Abramovich, por sua vez, possui três dos 20 maiores iates do mundo. Em 2004, ele e um conterrâneo protagonizaram uma disputa memorável no mercado imobiliário londrino. Seu adversário na ocasião era Leonard Blavatnik, empresário do petróleo com patrimônio estimado em 8,7 bilhões de dólares.

O objeto da disputa era uma mansão em Kensington Park. Inflado pelas ofertas dos russos, o preço da propriedade chegou à estratosfera. A casa acabou vendida a Blavatnik por 72 milhões de dólares, a mais cara transação já realizada no mercado imobiliário residencial de Londres. Seu preço inicial era de aproximadamente 50 milhões de dólares.

“Esses russos estão cheios de dinheiro para gastar, não perguntam o preço e compram tudo o que vêem pela frente”, afirma Liam Bailey, chefe de pesquisa residencial da Knight Frank, uma consultoria de imóveis de alto luxo em Londres.Berezovski não foi o único magnata a se refugiar em Londres para evitar confrontos com o presidente Putin.


O empresário Roman Abramovich exilou-se voluntariamente em 2003 na capital inglesa, comprou o time de futebol Chelsea e mora na cidade com sua mulher, a ex-aeromoça Irina, e os cinco filhos do casal. Até hoje Abramovich se mantém fiel à sua política de evitar a todo custo um confronto com o Kremlin.

Tanto que, no ano passado, aceitou o avanço do governo sobre sua empresa, a Sibneft, quinta maior produtora de petróleo do país. A companhia foi reestatizada e, em troca, Abramovich embolsou 13 bilhões de dólares. Um de seus principais amigos no mundo dos negócios é Oleg Deripaska, seu ex-sócio na gigante de alumínio Rusal, a terceira maior empresa do mundo no setor.

Abramovich vendeu em 2003 sua participação na empresa por 2 bilhões de dólares ao parceiro e o convenceu das delícias da vida em Londongrado. Deripaska adquiriu um flat no bairro de Mayfair, um dos mais sofisticados da cidade, freqüentou a prestigiosa universidade London School of Economics, mas não se mudou para Londres definitivamente. A exemplo de vários outros milionários russos, vive hoje na ponte aérea Moscou­Londres.

Diante de tamanha opulência, o governo britânico chegou a ensaiar um ataque à comunidade de Londongrado. O ministro das Finanças, Gordon Brown, tentou apertar a legislação tributária do país com o intuito de acabar com as brechas que têm feito a alegria dos oligarcas. Diante da força econômica do grupo, voltou atrás.

Outra demonstração do poder desses exilados voluntários ocorreu durante o Fórum Econômico Russo, que reuniu em abril na cidade de Londres mais de 2 000 empresários. Uma das estrelas do evento foi Anatoly Chubais, que tem patrimônio estimado em 1 bilhão de dólares e é o principal executivo do Sistema Unificado de Energia, o monopólio estatal de energia da Rússia.

No Fórum, o prefeito da capital inglesa, Ken Livingstone, exaltou em seu discurso a geração de empregos proporcionada pelos negócios desses empresários na cidade. Entre cozinheiros, faxineiros, contadores, advogados, consultores, agentes de investimento e intérpretes, o governo britânico estima que sejam criados 25 000 novos postos de trabalho por ano na metrópole graças ao dinheiro dos magnatas do Leste Europeu. São números desse tipo que fazem os ingleses torcerem para Londongrado continuar sendo o refúgio predileto dos milionários russos.