Os bilionários da carne

A incrível história dos empreendedores brasileiros que ajudaram o país a conquistar a liderança mundial no mercado de carne

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EXAME
Vinte anos atrás, o empresário goiano José Batista Júnior ganhava a vida carregando enormes peças de carne nas costas e fazendo entregas em açougues de Brasília. Mais velho dos seis filhos de um açougueiro que vendia carne aos operários que construíram a capital, nunca freqüentou uma universidade. O único idioma que domina é o português, carregado com o sotaque típico do Centro-Oeste. Aos 44 anos, Júnior — como é mais conhecido — é um exemplo extraordinário da pujança de um dos ainda poucos setores nos quais o Brasil assumiu a liderança mundial. Um setor que desconhece crises e cresce a taxas chinesas. Sua empresa, a Friboi, é a quinta maior indústria de carne do mundo em volume de produção, só perdendo para multinacionais americanas, entre as quais se destacam a Tyson Foods e a Cargill. Há pelo menos uma década, o conglomerado de Júnior festeja anualmente a compra de um novo frigorífico.

O filho do homem que vendia por dia a carne de apenas cinco bois, hoje abate 10 000 diariamente nas dez unidades espalhadas pelo país. Numa conta matemática que despreza os intervalos para almoço e jantar, troca de turnos, feriados e dias santos, isso dá um animal a cada 8 segundos. Sozinha, a Friboi é responsável por 19% de toda a carne exportada pelo Brasil — atual líder mundial desse mercado. No ano passado, suas vendas chegaram a 2,3 bilhões de reais — faturamento superior ao alcançado por companhias como a Lojas Americanas, a Natura e a subsidiária brasileira do McDonald’s. “Eu sempre soube aonde queria chegar”, diz Júnior. “Ser o maior do meu estado, da região, do país. E, por que não, do mundo.”

Maior do mundo
A participação brasileira no comércio mundial de carne bovina na última década (em milhares de toneladas)
1996(1)
138,6
1998
192,9
2000
320,9
2002
590,8
2003(2)
800,5
(1)O Brasil representava 7% do mercado global de carne
(2)O Brasil representa 20% do mercado global de carne

Os impérios construídos por José Batista Júnior e por outros empresários do setor — todos empreendedores na acepção da palavra, vindos de origem humilde — são resultado de um rápido e impressionante movimento de modernização da indústria brasileira de carne bovina. Em apenas sete anos, a participação do país no comércio mundial do produto saltou de modestos 7% para incríveis 20%. Em 2003, o aumento nas vendas internacionais dos 22 maiores frigoríficos ajudou o Brasil a ultrapassar a Austrália e os Estados Unidos na lista dos maiores exportadores. A carne brasileira chega hoje a 104 países. Faz parte da dieta de famílias chilenas e japonesas. Está presente nas mesas de redes hoteleiras, como o Hilton de Dubai, nos Emirados Árabes, no McDonald’s das Filipinas, nas gôndolas das principais redes de supermercados da União Européia. Abastece as tropas americanas no Iraque e é vendida a judeus ortodoxos em Israel.

Para analistas mais conservadores, este momento extraordinário tem alguns desafios à frente. Um dos maiores é a reação esperada dos competidores globais que se recuperam de alguns contratempos. As empresas americanas vêm perdendo mercado após o registro do primeiro caso da doença da vaca louca nos Estados Unidos, em dezembro de 2003. A pecuária da Austrália, por sua vez, pena em virtude de uma forte seca que afe ta a qualidade de seu rebanho. Assim que as duas tradicionais potências do setor sacudirem a poeira, dizem os conservadores, os brasileiros tendem a perder algum espaço. Para os otimistas, porém, a liderança brasileira terá vida longa. As exportações de carne bovina renderam no ano passado 1,5 bilhão de dólares. Pelas estimativas da consultoria FNP, especializada em agronegócio, fecharão 2004 com uma receita de 2,1 bilhões de dólares e alcançarão 4,5 bilhões em 2012.

Na avaliação de José Vicente Ferraz, diretor da FNP, o Brasil vive um momento especial e duradouro nos negócios ligados à carne. Em primeiro lugar tem extensões continentais. Enquanto a área agrícola brasileira consome 40 milhões de hectares, as pastagens ocupam uma área cinco vezes maior. Além disso, possui o maior rebanho comercial do mundo — cerca de 185 milhões de cabeças. Também alimenta os animais com capim, uma dieta natural e saudável, considerada ideal em tempos de vaca louca. O trunfo maior, porém, é justamente o nível de profissionalização atingido nos últimos anos pelos empresários do setor. “É verdade que a desgraça alheia virou boa sorte para o Brasil”, diz Ferraz. “Mas essas oportunidades de nada teriam adiantado se as empresas locais não estivessem preparadas para atender aos pedidos e às exigências do mercado internacional.”

Há apenas uma década, toda essa exuberância no setor de carne seria impensável. Até o Plano Real, o pecuarista brasileiro lucrava negociando terras e protegia seu patrimônio contra a inflação comprando gado e criando o rebanho ao léu. O animal era conhecido como “black do interior”, numa comparação nada lisonjeira com o mercado negro de dólar. O nível de informalidade nos frigoríficos nacionais era altíssimo. Multinacionais como a inglesa Anglo e a americana Swift deixaram o Brasil por não suportar a concorrência provocada pelos abates clandestinos e pela sonegação. “A abertura para o mercado internacional mudou a cultura do setor”, diz Amaryllis Romano, consultora de agronegócio da Tendências Consultoria Integrada. “Nesse cenário, só sobrevivem os grandes e os profissionais.”

Os avanços conseguidos até aqui foram feitos à custa de grandes investimentos na produção, em tecnologia e aumento de escala. O rebanho brasileiro — 65% constituídos pela raça nelore — nunca foi visto no mercado internacional como um primor de qualidade. Até meados da década de 90, a pecuária do país usava métodos do século 18. O gado levava mais de cinco anos para ser abatido. Durante esse tempo, permanecia solto no pasto, ganhava músculos e oferecia uma carne considerada dura. Graças a novas técnicas de criação e alimentação do rebanho, aos cuidados sanitários e à seleção genética, a qualidade do produto brasileiro vem melhorando. “Houve uma revolução no setor”, diz Miguel da Rocha Cavalcanti, da consultoria BeefPoint, espe cializada em agronegócio. “Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido pelo produtor brasileiro.”

Hoje, nos melhores restaurantes do mundo, a carne mais apreciada pelos paladares refinados é a do gado da raça angus, criado na Europa e nos Estados Unidos. Após séculos de cruzamentos seletivos, o angus passou a oferecer uma carne macia e suculenta. Atualmente, os melhores criadores brasileiros buscam seguir o exemplo da Austrália, que, graças à tecnologia e à padronização dos rebanhos, transformou sua carne de zebu num produto de primeira linha. O grande desafio dos produtores nacionais é entrar no maior e mais disputado mercado do mundo — os Estados Unidos, onde o consumo de carne, em números absolutos, é três vezes maior do que o brasileiro. Para isso será preciso vencer as barreiras impostas pela política de comércio exterior americana, comandada pelo secretário Robert Zoellick, que impõe restrições sanitárias ao produto brasileiro sob a alegação de existência de febre aftosa no norte do país.

As cinco maiores companhias exportadoras do setor — Bertin, Friboi, Independência, Minerva e Marfrig, donas de 65% dos embarques brasileiros — estão se preparando para isso. A estratégia é excelência na gestão e agressividade comercial. A Friboi, por exemplo, tem dez diretores profissionais. A área de exportação foi estruturada pelo irlandês Jeremy O’Callaghan, que havia passado pelos frigoríficos Mouran e Bordon. Agora está com o inglês James Kruden, um ex-funcionário da britânica Anglo. É ele quem faz as vezes de tradutor de Júnior durante as rodadas de negociações com clientes internacionais. “Os estrangeiros se entendem”, diz Júnior. “Confiam um no outro, em mim e na minha empresa.” No ano passado, a Friboi deu mais um passo no processo de profissionalização. Incorporou a seus quadros um consultor financeiro, Emílio Garofalo Filho, ex- diretor de normas do Banco Central e um dos maiores especialistas do Brasil em câmbio. “O sobe-e-desce do dólar estava prejudicando nossos resultados”, diz Júnior. “Precisávamos de alguém que nos ajudasse com isso.” Por sugestão de Garofalo, o Friboi contratou 20 profissionais do mercado financeiro, instalou mesas de operações e passou a fazer hedge com contratos futuros de câmbio e de boi gordo na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). “A Friboi é um paradigma”, diz Félix Schouchana, diretor de mercados agrícolas da BM&F. “Incentivou outras empresas a entrar na bolsa e fez os contratos em aberto de boi gordo triplicar.”

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Com o incremento das operações, a cidade de Andradina, no interior de São Paulo, onde está a sede do grupo, ficou pequena para a empresa. As áreas administrativa e financeira serão transferidas em julho para a capital. Cerca de 300 funcionários vão ocupar dois prédios reformados da antiga Swift, nas proximidades da Marginal Tietê. Um grupo de 40 famílias de funcionários acompanha os acionistas na mudança. Júnior vai se instalar em Alphaville, condomínio fechado de alto padrão na região metropolitana, mas manterá a casa e o rancho no interior.

As porteiras do mercado internacional se abriram para os produtores brasileiros ao longo da década de 90. O ponto de partida foi o surto da doença da vaca louca, que tirou a Europa do mapa dos exportadores e aumentou a demanda por carne importada — de preferência de um gado que não fosse alimentado à base de ração animal. Foi a brecha que empresas como o frigorífico Independência, da família Russo, esperavam que se abrisse. Criado em 1977 como uma fábrica de charque em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, o Independência hoje exporta 80% de tudo o que produz. Para atender o mercado israelense, que exige o cumprimento de um ritual religioso na hora do abate, mantém 20 rabinos registrados como funcionários numa unidade de Mato Grosso do Sul. Graças a medidas desse tipo, os Russo são hoje responsáveis por 13% de toda a carne importada por Israel. O próximo alvo do Independência é o mercado chinês, onde o consumo de carne bovina cresce 6% ao ano. Embora os chineses comam menos de 5 quilos de carne por ano no conceito per capita, os valores absolutos impressionam sempre. Com um mercado de mais de 1,3 bilhão de pessoas, a China aparece como uma espetacular fronteira de negócios para os empresários brasileiros da carne.

Recentemente, Miguel Russo, filho do fundador e diretor do Independência, percorreu o interior da China para fazer contatos com possíveis compradores. Trata-se também do próximo destino do empresário paulista Marcos Molina, dono do Marfrig, o quinto maior exportador de carne do Brasil. Aos 34 anos, Molina é visto hoje como a grande sensação do setor. Filho e neto de açougueiros, iniciou-se no negócio como distribuidor de carnes importadas, abastecendo restaurantes sofisticados como o Fasano e os hotéis da rede francesa Accor. Há quatro anos, Molina comprou seu primeiro frigorífico em Bataguassu, em Mato Grosso do Sul, e começou a exportar para a União Européia. Recentemente, criou um sistema de pagamento pelos bois baseado na qualidade do animal. Quanto mais o gado se aproximar da perfeição, mais caro ele será. Hoje sua carne é vendida em 31 países, entre eles Rússia, Inglaterra e Irã. No ano passado, o Marfrig faturou 1,1 bilhão de reais — 35% graças às exportações.

A matemática do abate
Os números relativos ao Friboi, o maior frigorífico do Brasil
O frigorífico abate por dia 10 000 cabeças
Isso dá 1 boi a cada 8 segundos
Cada boi rende 136 quilos de carne de primeira
Isso dá 500 bifes
Ao final de um dia produzem-se 5 milhões de bifes de primeira
Por ano, isso dá 1,8 bilhão de bifes

No mercado internacional, porém, ninguém fatura tanto quanto o grupo dos irmãos Bertin, de Lins, no interior de São Paulo. “Ele é o cartão-postal das exportações brasileiras de carne”, diz Marcus Vinícius Pratini de Moraes, ex-ministro da Agricultura e presidente do conselho da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne. O grupo foi fundado em 1977, por Henrique Bertin, segundo filho de João Bertin, um pequeno pecuarista. Em 1981, aos 35 anos, Henrique morreria tragicamente num acidente aéreo. A partir de então, o negócio passou a ser gerenciado por seus cinco irmãos — Reinaldo, Natalino, João, Fernando e Silmar, conhecido como Mazinho. Juntos, eles implantaram um modelo de produção único no país. O lema do Bertin é aproveitar o máximo possível o que cada boi pode oferecer. “Os acionistas não querem vender matéria-prima barata”, diz Marco Bicchieri, um dos gerentes da área de exportação do Bertin. “Tentam industrializar tudo e oferecer produtos com alto valor agregado.”

A estratégia aumenta o faturamento e a rentabilidade do grupo. O Bertin tem metade do tamanho do Friboi. Abate 5 000 cabeças de gado por dia, mas fatura quase tanto quanto a empresa de José Batista Júnior. São 2,2 bilhões de reais — 65% deles resultado das exportações. Em Lins, o Bertin fabrica 12 tipos de produtos à base de carne, como cortes nobres embalados a vácuo, hambúrgueres e extrato de carne. Uma de suas especialidades é o corned beef (tipo de carne enlatada conhecida como quitute). O Brasil fabrica 80% dos corned beefs consumidos no mundo — e o Bertin responde por metade disso. No ano passado, o grupo processou 103 milhões de latas do produto, com 50 marcas diferentes, vendidas para 25 países. É na forma de corned beef que os brasileiros abastecem as tropas americanas no Iraque.

Para agilizar os embarques, foi instalado um terminal de contêineres na entrada da sede do Bertin. A carne processada é acomodada em gigantescas caixas de metal que seguem para o porto de Santos, onde o grupo é o quinto maior movimentador de cargas. Dali, 500 toneladas de alimentos por dia, em média, seguem para 70 países nos cinco continentes. Cortes especiais de carne, estampando a marca própria do Bertin, estão hoje nas prateleiras das maiores redes de supermercados da União Européia, como a portuguesa Sonae, a filandesa Kesko, a alemã Metro e a italiana GF.

O grupo também fornece e processa produtos para as indústrias de higiene e limpeza, comercializa couro, fabrica sapatos de segurança, latas de alumínio e brinquedos para animais de estimação. Em Lins, os Bertin são onipresentes. Empregam 8 000 pessoas, 15% da força de trabalho da cidade. São donos, também, do principal hotel da região, equipado com piscinas de águas termais. A diversificação reflete em parte o temperamento dos acionistas, acostumados a lidar com atividades paralelas. João, por exemplo, é visto como um exímio negociador de terras. Há cerca de dois meses, comprou uma das fazendas da família Marinho, das Organizações Globo. A propriedade tem cerca de 40000 hectares. No negócio — fechado por 34 milhões de reais — também entraram um rebanho de 24 000 cabeças de gado e um jatinho. Reinaldo, outro dos irmãos Bertin, gosta de trabalhar com o lado nobre da pecuária, a criação do chamado gado de elite, que reúne os animais mais perfeitos. É presença quase certa nos principais leilões do país, como o Elo da Raça, promovido pelo empresário mineiro Jonas Barcellos Corrêa Filho.

O Elo da Raça acontece todos os anos na Fazenda Mata Velha, localizada em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Em Mata Velha, Barcellos — dono da Brasif, empresa que administra free shops dos aeroportos — recebe embaixadores, políticos e empresários interessados em conhecer o lado mais glamouroso da pecuária brasileira. Hoje, o Elo da Raça está para esse setor como a Fashion Week está para o mundo da moda. Neste ano, o evento recebeu 3 000 convidados. O espetáculo inclui gelo-seco, jogo de luzes, champanhe e uísque. Na saída dos leilões, as senhoras foram presenteadas com 800 vidros do perfume Attraction, da marca francesa Lancôme.

As estrelas são as vacas da raça nelore. Olímpica, um dos animais de elite de Barcellos, é a vaca mais cara já vendida no Brasil. Há dois anos, o empresário João Carlos Di Genio, dono da rede de ensino Objetivo e da Universidade Paulista, arrematou metade do animal por 1,6 milhão de reais. O Brasil já tem cerca de 7 000 criadores de gado de elite e, segundo levantamento realizado pela DBO, publicação especializada em agronegócio, movimenta meio bilhão de reais por ano em leilões. Nesse mercado, a dose de sêmen de um touro premiado pode valer 1 000 reais, e um embrião, 200 000 reais. Os pecuaristas tradicionais, como o mineiro Orestes Prata Tibery Júnior, ainda são os maiores investidores. Bisneto de criadores, ele batizou e registrou de próprio punho seus 6 000 animais. O negócio, porém, tem atraído empresários e executivos de outros setores, como o banqueiro de investimentos Carlos Rodenburg, do Opportunity; o advogado carioca Arnoldo Wald; Pedro Grendene, sócio de uma das maiores indústrias de calçados do país; e o armador Frank Wlasek, presidente da Metalnave.

A genética de touros e vacas de elite é usada para fecundar o rebanho de corte e promover o aprimoramento da espécie — um passo importante para um país que deseja manter a supremacia no mercado mundial da carne. O pecuarista sul-mato-grossense José Carlos Bumlai, amigo do presidente Lula e um dos maiores criadores do país, com mais de 100 000 cabeças, acredita que o Brasil pode fazer do zebu uma referência se observar os bons exemplos. Bumlai quer trazer para o Brasil o sistema criado pela Aus-Meat, uma certificadora australiana. O modelo estabeleceu critérios de produção e abate a partir de 1987. De lá para cá, a Austrália aprimorou seu rebanho, formado por um tipo de zebu, o brahman, conseguiu aumentar o preço da carne exportada e se transformou em grande fornecedora de mercados como Estados Unidos e Japão. Com a profissionalização do setor e o surgimento do Brasil como potência da pecuária mundial, as grandes multinacionais da carne — no passado afugentadas — devem em breve retornar ao país. A aquisição ou associação com os grandes frigoríficos nacionais seria, na opinião dos consultores, a alternativa mais rápida e segura de fazer isso. Júnior, do Friboi, não descarta a possibilidade de um dia tornar-se sócio de uma das gigantes mundiais da carne. “Se paga bem, que mal tem?”, pergunta ele.