O risco da bolha do aço

Graças à China, a siderurgia vive dias de glória no Brasil. A dúvida é como ela reagirá ao fim da euforia

Nos últimos dois anos, o avassalador crescimento da economia da China tornou o país o maior consumidor mundial de aço. Tamanha demanda fez as cotações do metal quase dobrar, chegando a 516 dólares a tonelada em 2004. O impacto na indústria foi imediato.

O lucro das cinco maiores siderúrgicas instaladas no Brasil — Gerdau, CSN, Usiminas, Cosipa e CST — atingiu 4 bilhões de dólares no ano passado, 55% mais que no ano anterior. De acordo com analistas do setor, porém, os resultados não deverão ser tão favoráveis a partir de agora.

“A cotação internacional do aço tende a cair”, diz Marcelo Aguiar, analista da Merrill Lynch. Ele prevê que, até o final de 2006, os preços diminuam 30%. As razões da queda também vêm da China. Os chineses fabricam 25% do aço mundial — e mesmo isso não tem bastado para suprir o crescimento da economia local.

Por isso as siderúrgicas chinesas estão investindo para aumentar sua capacidade e, afirmam especialistas, o país tende a se tornar auto-suficiente em alguns anos. Fecha-se, assim, o cenário futuro — oferta maior e dúvidas quanto ao desempenho de alguns dos maiores grupos siderúrgicos do mundo.

Chama a atenção, portanto, que as 11 siderúrgicas instaladas no Brasil estejam se preparando para uma onda de investimentos sem precedentes — 21 bilhões de dólares nos próximos cinco anos. É um caminhão de dinheiro, comparado aos 13 bilhões de dólares despejados na última década.

Os investimentos atuais deverão dobrar a capacidade de produção brasileira para 60 milhões de toneladas por ano até 2010. Até que ponto há um desencontro entre o momento escolhido para a indústria brasileira investir e a perspectiva de queda nos preços na demanda mundial?

Será que, diante dessas projeções, entrar numa onda de investimento justamente agora não poderia ajudar a apressar o estouro de uma bolha do aço lá na frente? Será que não estaríamos assistindo a algo parecido com a euforia da indústria automobilística nos anos 90, quando as montadoras dedicaram 20 bilhões de dólares a expansões no Brasil e as previsões de aumento da demanda nunca se realizaram?


“A sustentabilidade dos investimentos se dará pela competitividade da siderurgia brasileira no mercado internacional”, diz Jorge Gerdau Johannpeter, presidente da Gerdau, a maior siderúrgica brasileira. A empresa planeja investir 2,4 bilhões de dólares até 2007 para ampliar a capacidade de 7,6 milhões de toneladas por ano para 11,9 milhões. “Vamos acompanhar com calma a evolução da demanda”, diz Luiz André Rico Vicente, presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia. “Alguns dos investimentos previstos podem ficar só no papel.”

Para alguns analistas, esse seria o melhor momento não para fazer investimentos — e sim para se desfazer de ativos. Os papéis das siderúrgicas brasileiras dispararam nos últimos três anos. O valor de mercado da CSN, por exemplo, cresceu de 3,2 bilhões de reais, em junho de 2002, para 10,4 bilhões de reais no início deste mês.

Recentemente, Benjamin Steinbruch, controlador da CSN, teria sido aconselhado por colaboradores próximos a aproveitar o bom momento para vender a empresa. “Seria o melhor negócio para ele”, diz uma das pessoas que teriam lhe sugerido fazer isso. A seus subordinados, Steinbruch não deixou transparecer sinais de que esteja tentando vender a CSN — mas há quem ache que ele não descarta a possibilidade caso receba uma boa oferta. Procurado pela reportagem de EXAME, Steinbruch não se manifestou sobre o assunto. 

Muitos analistas acham que permanecer com a CSN — mesmo que a demanda chinesa diminua e os preços despenquem — está longe de ser um mau negócio para Steinbruch. Segundo eles, as empresas brasileiras estão de certa forma blindadas contra alguns males que afetam a indústria em outras partes do mundo.

Um deles é o aumento dos preços da principal matéria-prima, o minério de ferro. Desde março, a cotação do minério subiu 70%, acompanhando a valorização do produto final. Ao contrário das siderúrgicas instaladas na China, muitas empresas brasileiras têm produção própria de minério de ferro de alta qualidade. É o caso da CSN, que tem a Casa de Pedra, mina de ferro localizada em Minas Gerais, que supre sua demanda a preço de custo.

No caso das empresas brasileiras que precisam comprar o minério, como CST e Usiminas, a proximidade da Vale do Rio Doce, maior fornecedora mundial de minério de ferro, é uma grande vantagem competitiva. O frete do minério no Brasil custa de 5 a 10 dólares a tonelada.


Esse valor gira em torno de 25 dólares a tonelada no caso das empresas chinesas. Atrás dessas vantagens, quatro siderúrgicas estrangeiras anunciaram investimentos em novas usinas em sociedade com a Vale no país, no valor total de 8 bilhões de dólares até 2010. O projeto mais avançado é uma parceria com a coreana Posco para a instalação de uma usina siderúrgica no Ceará. O investimento estimado deverá ser de 2 bilhões de dólares para produzir 4 milhões de toneladas de aço por ano.

Os custos de produção no Brasil também estão entre os mais competitivos. Aqui, a forma de aço mais comercializada — o aço laminado a quente — custa 220 dólares a tonelada. Nos Estados Unidos, são 323 dólares e na Alemanha 346 dólares. “Mesmo no pior dos cenários, as empresas brasileiras serão as últimas a sucumbir”, afirma Wagner Bittencourt, superintendente da área de insumos básicos do BNDES.

Ele estuda o financiamento de projetos em siderurgia no valor de 17 bilhões de reais até 2011. De acordo com Bittencourt, as siderúrgicas européias e as americanas seriam as primeiras a sentir o impacto de um cenário negativo. Por isso, há duas décadas essas companhias não investem para ampliar a produção em seus países.

As mais capitalizadas têm buscado estabelecer bases em países com custos mais competitivos — como China, Rússia, Índia e Brasil. A européia Arcelor, por exemplo, está investindo nas empresas que controla no país — CST, Belgo Mineira, Acesita e a laminadora de aços planos Vega do Sul. Uma holding com todas elas deverá ser formalizada até julho.

A investida da Arcelor não significa que as companhias brasileiras estejam fadadas a ser compradas uma a uma por competidores estrangeiros. A maioria dos especialistas acredita que a posição competitiva do Brasil conjugada a uma queda nos preços mundiais do aço poderia até dar ânimo às incursões das empresas brasileiras nos Estados Unidos e na Europa.

Foi o que aconteceu recentemente. Em 2001, a CSN comprou os ativos da americana Heartland Steel, então concordatária. A Gerdau comprou usinas americanas e canadenses. “A siderurgia brasileira é muito mais compradora do que vendedora”, afirma José Carlos Martins, diretor da Vale do Rio Doce, que ajudou a formar as parcerias com as siderúrgicas estrangeiras dispostas a investir no Brasil.

Um empresário indiano, Lakshmi Mittal, indicou o caminho que pode um dia ser seguido pelas empresas brasileiras. Em outubro do ano passado, Mittal comprou a International Steel Group para formar a maior siderúrgica do mundo — a Mittal Steel. Seu ponto forte são, como no Brasil, os custos competitivos. 

No mundo ideal, a expansão teria se iniciado antes do aumento dos preços do aço, a partir de 1999. Como os projetos exigem maturação de dois a três anos, eles teriam saído do papel a tempo de aproveitar o máximo do ciclo de valorização. A maioria das empresas brasileiras, no entanto, estava atolada em dívidas.

Num setor fortemente dependente de bens de capital, como a siderurgia, períodos de alta e de baixa nos preços se alternam — e quase nunca os investimentos podem ser feitos no melhor momento. “Quando um se mexe, é porque todos já estão se mexendo juntos”, diz o consultor Giovanni Fiorentino, especialista no setor siderúrgico da Bain & Company. “Poucos podem apostar bilhões quando a demanda está fraca.”