2017 é o ano dos carros elétricos “populares” – não para o Brasil

As montadoras lançam carros movidos a bateria mais baratos e com mais autonomia. Ótima notícia — mas o Brasil continua fora desse mercado

Paris — A fábrica da General Motors em Lake Orion, a cerca de 56 quilômetros de Detroit, já foi um dos grandes símbolos da indústria automobilística do século 20. Produziu milhares de automóveis beberrões movidos a gasolina, aqueles equipados com motores V6 e V8, como o Chevrolet Malibu. Em outubro do ano passado, essa fábrica deu, com o perdão do trocadilho, um cavalo de pau. Iniciou a montagem do Chevrolet Bolt, carro elétrico que começou a ser vendido no mercado americano em dezembro e que promete ser um marco para o setor. O Bolt, um hatchback com um pouco mais de 4 metros de comprimento, tem potencial para ser um destaque por dois motivos.

Possui autonomia de cerca de 400 quilômetros, mais que o dobro da alcançada pelos primeiros carros elétricos, e está sendo vendido, já com o subsídio do governo, por 30 000 dólares, valor 50% mais alto do que outros veículos de tamanho similar movidos a gasolina, mas competitivo para o segmento dos elétricos. Nesse mercado quem tem reinado até agora é o modelo S, da Tesla, um sedã luxuoso vendido por cerca de 70 000 dólares nos Estados Unidos.

Com mais autonomia e menor preço, o Bolt é candidato a ser o primeiro elétrico “popular” — tanto em termos de faixa de mercado quanto em sucesso de vendas. Pelos cálculos do analista Karl Brauer, da consultoria americana Cox Automotive, a GM poderá, na hipótese mais otimista, vender até 80 000 unidades do novo carro em 12 meses. Caso essa previsão se confirme, o Bolt baterá todos os recordes. Por ano, são comercializados cerca de 50 000 Tesla S.

O que deve complicar a vida do Bolt é o aumento da concorrência. De 2017 a 2020, praticamente todas as grandes montadoras vão lançar um modelo ou relançar uma versão existente com mais autonomia e na faixa dos 30 000 dólares. A própria Tesla, montadora do bilionário Elon Musk, promete para este ano a estreia de seu Modelo 3 a um custo de aproximadamente 35 000 dólares. Quase 400 000 pessoas já comunicaram à Tesla ter interesse na compra. Na Europa, onde o Bolt será lançado em 2018 com o nome Ampera-e, também há novidades.

A Nissan, dona de cerca de 20% do mercado de carros elétricos vendidos nos Estados Unidos e na Europa, prepara o novo Leaf, com um pacote de baterias capaz de rodar 400 quilômetros a cada recarga, mais que o dobro da autonomia atual. O carro também será equipado com um sistema de sensores e câmera que permitirá a direção autônoma entre 30 e 100 quilômetros por hora. A Renault, parceira da Nissan, terá uma versão de seu hatch Zoe, apresentado no último Salão do Automóvel de Paris, com capacidade para rodar os mesmos 400 quilômetros.

A alemã Daimler, dona das marcas Mercedes-Benz e Smart, já lançou dois modelos movidos a bateria — a minivan Classe B e um Smart elétrico —, mas prepara outras novidades. Recentemente, a Mercedes-Benz mostrou o protótipo da EQ, um utilitário esportivo elétrico. Até 2025, dez modelos da família EQ deverão começar a ser vendidos. “Nos próximos dez anos, automóveis, ônibus e caminhões passarão por mais mudanças do que no último século”, diz o alemão Dieter Zetsche, presidente mundial da Daimler. Retardatárias como a Volkswagen prometem também entrar na briga. Um ex-presidente da montadora alemã chegou a dizer que os únicos veículos elétricos com futuro eram os carrinhos de golfe.

Em conversa com EXAME, Matthias Müller, o atual presidente, garantiu que essa visão foi totalmente revista. Cerca de 30 carros elétricos das marcas do grupo serão lançados nos próximos oito anos. No ano passado, a Volks mostrou o protótipo de um deles, o I.D., compacto elétrico do tamanho do Fusca e do Golf. O plano é colocá-lo nas ruas até 2020. “Quando a versão de série do I.D. chegar às concessionárias, custará o equivalente a um carro compacto a diesel”, diz Müller. Hoje, um Golf top de linha a diesel custa o equivalente a cerca de 30 000 dólares na maior parte da Europa.

Esse casamento entre preços mais baixos e autonomia cada vez maior é reflexo do que acontece no setor de baterias de íons de lítio. Como ocorreu anos atrás no segmento de smart-phones, a competição aumentou muito. Hoje, as coreanas LG Chem e Samsung, a japonesa Panasonic, a chinesa BYD e a francesa Bolloré brigam ferozmente pelo mercado, investem em pesquisa e desenvolvimento e produzem baterias cada vez mais potentes. Segundo as contas do Departamento de Energia dos Estados Unidos, a densidade das baterias que equipam os automóveis mais que dobrou desde 2008. Nesse mesmo período, os preços despencaram (veja quadro ao lado).

Isso é importante porque a bateria é responsável por cerca de um terço do custo final de um elétrico “popular”. Uma estimativa divulgada pela GM aponta que o preço das baterias poderá cair quase 50% nos próximos seis anos. A fábrica da LG Chem, em Holland, no estado de Michigan, opera em três turnos, 24 horas por dia, sete dias por semana, para dar conta da demanda. A Tesla investiu 5 bilhões de dólares na construção de uma nova fábrica de baterias.

Qual é o limite?

Hoje os carros classificados como elétricos representam 0,1% da frota mundial. Isso inclui dois tipos de veículo. Os que são somente movidos a bateria e os que são elétricos mas contam com um motor a combustão para emergência. Pelas contas da Opep, grupo que reúne alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo, os carros elétricos terão uma participação irrisória em 2040 — 1% da frota mundial. A atual movimentação das montadoras e de seus fornecedores, no entanto, está fazendo com que consultorias façam previsões bem mais otimistas. De acordo com o centro de pesquisa Bloomberg Intelligence, 35% dos carros produzidos em 2040 deverão ser elétricos.

Fazendo uma analogia com o que aconteceu com outras tecnologias, como o refrigerador e o televisor, a análise prevê que as vendas de carros elétricos seguirão um movimento conhecido como “s”: no começo, a demanda é baixa porque o produto é caro, mas, com o avanço tecnológico, ele se torna melhor e mais barato, e isso faz as vendas subir rapidamente até bater no topo e começar a andar de lado. Nos últimos anos, a produção de carros elétricos tem aumentado rapidamente.

Há cinco anos, apenas 0,4% do mercado americano era formado por veículos movidos a bateria. Hoje é o dobro, mas ainda não há sinal de nada parecido com a subida de um “s”. Por isso o entusiasmo com a estreia dos “populares”, como o Bolt. “Até 2020, os motores a combustão ainda serão dominantes na indústria automobilística, mas os carros elétricos serão cada vez mais competitivos quando o assunto for preço”, diz o português Carlos Tavares, presidente mundial da montadora PSA, que controla as marcas Peugeot, Citroën e DS.

A pergunta sobre quando o Brasil deve entrar de vez na rota dos carros elétricos continua sem uma resposta firme. Em entrevista a EXAME, publicada em outubro, Carlos Zarlenga, presidente da GM no Brasil, disse estar tentado a lançar o Bolt no mercado local, mas não tinha uma data ou preço para anunciar. De lá para cá, nada mudou. Nos últimos quatro anos, a Nissan trouxe algumas unidades do Leaf para rodar em São Paulo e no Rio de Janeiro como táxi, mas ficou nisso.

Com exceção da BMW e da Porsche, nenhuma outra montadora vende carros elétricos no Brasil ou tem uma data certa para começar. Um dos motivos alegados é a falta de apoio. “Ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, nos países da Europa, na China e no Japão, não há incentivos governamentais para a venda de elétricos no Brasil”, diz Carlos Ghosn, presidente mundial da Renault Nissan. A falta de subsídios para carros não poluentes explica por que um Tesla S trazido por um importador independente, a Elektra, custa 650 000 reais na versão de entrada — 2,6 vezes mais do que o valor cobrado nos Estados Unidos. Rodar pelas ruas e estradas brasileiras sem emitir CO2 ainda é algo para muito, muito poucos.

Comentários

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  1. Rodrigo Portela

    Mais uma vez esse País assolado pela corrupção, vai perder o trem de alta velocidade da História. Graças a montadoras antiquadas e ao governo conivente com esse desrespeito ao consumidor brasileiro.

  2. Exus de Quimbanda, de acordo com a crença religiosa, são espíritos de variados níveis de luz que incorporam nos médiuns de Umbanda , Omolokô , Catimbó , Batuque , Xambá e Macumba de mestiço Exu na Quimbanda é visto de
    uma forma diferente de poucos segmentos da Umbanda mais voltadas para Kardecismo , onde varias vezes exus não são cultuados. http://www.onlinewelten.com/link.php?url=HTTP://www.templodequimbanda.com.br/consulta-com-o-templo-de-quimbanda/

  3. Esse grupo tem como princípio a investigação científica nos crimes
    praticados por Magos na cidade de São Paulo. http://Jump.2Ch.net/?www.templodequimbanda.com.br%2Fconsulta-com-o-templo-de-quimbanda%2F/

  4. Laura de Mello e Souza afirma que a feitiçaria abarca
    práticas mágicas e também rituais em praticamente todas e cada uma
    das sociedades”. http://enewsletter.c-span.org/t.aspx?S=1&ID=429&NL=3&N=158&SI=52237&URL=http%3A%2F%2Fwww.templodequimbanda.com.br%2Ftrabalhos-e-intervencoes-espirituais%2F

  5. Além de sintetizar copiosas correntes em busca de
    coesão e também coerência, ela promove a colaboração dos templos e também a idéia de um patrimônio religioso comum. http://rss.niche.workopolis.com/feed/feed2js.php?src=http%3A%2F%2Fwww.templodequimbanda.com.br%2Fcomo-funcionam-os-trabalhos-de-amarracao%2F

  6. Carlos Motta

    Caro Fernando, o Brasil tem um projeto de veículo compacto urbano elétrico de custo ultra-baixo, nosso target é viabilizar o ATTO-3 a US$10k. Temos dez anos de pesquisas, projetos e esperamos cansativamente o apoio e o fim dos desincentivos do governo brasileiro e entendemos que 2017 realmente é o nosso ano, com o sistema auto-sustentável de compartilhamento de veículos elétricos recarregados com energia fotovoltaica. Faremos uma conferência com todos os atores do projeto, possivelmente em abril, na qual vamos lançar nosso produto com ou sem apoio do governo, pois pensamos em como fazê-lo desde 2008, quando frustaram-se as negociações quando o Lula apoiou as montadoras nesse quesito. Embora pense que agora MDIC, BNDES etc venham conosco neste grande empreendimento!

  7. de 70 para 30 mil dolares em 3 anos… Viva a concorrencia.