Nunca foi tão importante entender as mudanças do mundo

EXAME e VEJA realizam a série de três encontros A Revolução do Novo

São Paulo – Se 20 anos atrás alguém dissesse que o telefone celular teria mais capacidade de computação do que a primeira espaçonave que levou o homem à Lua, e que as pessoas olhariam para sua tela, em média, 150 vezes por dia, dificilmente seria levado a sério. Hoje, os celulares tornaram-se onipresentes no cotidiano e caminham para ser uma extensão do corpo humano. Essa é apenas uma das diversas inovações disruptivas dos últimos anos.

O mundo se transformou de forma tão acelerada que começou a abalar as certezas cultivadas ao longo do século passado. Foi-se o tempo do emprego estável, da economia próspera e do descaso com o meio ambiente. Fórmulas consagradas para ser bem-sucedido perderam a credibilidade. Entraram em cena preocupações dignas de filmes de ficção científica: os robôs substituirão a força de trabalho humana? A internet será a ligação de tudo em nossa vida? Criaremos relações virtuais e artificiais com nossos semelhantes?

Questões sobre o futuro como essas foram abordadas no fórum A Revolução do Novo — uma iniciativa das revistas EXAME e VEJA, da Abril, em parceria com a fabricante de bebidas Coca-Cola —, realizado em São Paulo no dia 17 de janeiro. O evento, dedicado a uma reflexão sobre as mudanças que estão afetando as pessoas — como indivíduos, cidadãos e consumidores —, inaugurou uma série de três encontros. Ao longo dos próximos meses, mais duas rodadas virão, sobre as transformações nas empresas e nos países. O primeiro encontro contou com a participação de cerca de 150 convidados, incluindo empresários, presidentes de empresas, personalidades e estudiosos de diversas áreas.

Num tempo em que a incerteza é crescente, uma das primeiras constatações é que as mudanças já não ocorrem mais de geração para geração e há pouco tempo para digeri-las: as novas tendências mal surgem e logo se tornam obsoletas. Com as fundações da sociedade em xeque, o tempo é menos de respostas e mais de perguntas. Afinal, como as pessoas se comportarão no futuro? O que será aceitável moralmente para consumidores e empresas? “Nada sabemos sobre o que virá, mas temos condições de questionar as perguntas do presente. As pessoas mais bem preparadas estão em melhor posição para fazer novas perguntas”, diz o historiador e escritor Leandro Karnal, que proferiu a palestra de abertura do fórum.

Além de Karnal, apresentaram-se o economista e filósofo Eduardo Giannetti; o diretor de parcerias para a América Latina do Facebook, Luis Olivalves; o diretor de marketing global da Coca-Cola, Marcos de Quinto; e o diretor para desenvolvimento de negócios do Google, Julio Zaguini.

Houve ainda duas entrevistas: uma com o alemão Andreas Pohlmann, especialista em medidas antifraude e ex-chefe de controle interno da fabricante de equipamentos elétricos Siemens, e outra com Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu, organização civil dedicada ao consumo consciente. No intervalo dos blocos, os convidados discutiram em sua mesa os assuntos abordados, focando a relevância de pensar as consequências de tantas transformações nas relações sociais, na política e na economia.

A revolução mais evidente é a tecnológica. Sua interferência na vida das pessoas é automática, e não há como resistir a esses avanços. A sociedade, de certa maneira, é refém dessas rupturas. Não à toa, esse foi o modelo que impulsionou o desenvolvimento humano e econômico nos últimos séculos, desde a prensa de Johannes Gutenberg, que permitiu maior circulação de ideais, até a internet das coisas, que promete revolucionar a relação das pessoas com os produtos nos próximos anos.

A predominância da tecnologia no cotidiano trouxe novos padrões de comportamento. Na comunicação, novas formas de interação tendem a se ampliar. Segundo Luis Olivalves, do Facebook, um terço dos 2 bilhões de mensagens trocadas diariamente na plataforma é composto de imagens que tomaram o lugar das palavras: são os emojis, símbolos utilizados para expressar sentimentos e ações.

Gostando ou não, essa nova forma de linguagem é uma realidade. Em 2015, o Dicionário Oxford, o mais prestigioso da língua inglesa, escolheu, ironicamente, “emoji” como a palavra do ano. Enquanto os emojis tomam conta das mensagens, os vídeos são a nova fronteira das interações digitais. “O vídeo é hoje o formato de comunicação preferencial. É imersivo e ajuda a vivenciar uma situação”, diz Olivalves. Nos próximos anos, essa experiência ganhará ainda mais força por meio da realidade aumentada.

Se permitiram mais interação, as redes sociais também acirraram os ânimos de muitos usuários. No Facebook, a política brasileira e suas reviravoltas ocuparam a segunda posição entre os assuntos mais debatidos em 2016 — o primeiro foi a surpreendente eleição de Donald Trump. Uma das principais consequências negativas desse novo comportamento digital foi a profusão de notícias caluniosas, que foram apontadas como um dos componentes que ajudaram a impulsionar a vitória de Trump. Isso ganha especial importância na medida em que, segundo uma pesquisa do Instituto Reuters, 51% das pessoas no mundo usam as redes sociais para se informar.

No Brasil, a proporção chega a 72%. Novamente, a escolha da palavra do ano do Dicionário Oxford ajuda a entender a importância da questão: em 2016, a selecionada foi “pós-verdade”. O termo diz respeito a um fenômeno amplamente observável nas redes sociais, no qual as pessoas acreditam em informações só por estarem em linha com suas crenças pessoais. “As redes sociais aproximam quem é parecido e afastam quem é diferente. A reação é cada vez mais violenta”, afirma o empresário Romero Rodrigues, fundador do site Buscapé e sócio do fundo de capital de risco americano Redpoint.

Num mundo de transformação vertiginosa, é bom saber que alguns valores continuam imutáveis. Entre eles está a ética, tema desenvolvido por Eduardo Giannetti e pelo especialista em governança corporativa Andreas Pohlmann. Nesse aspecto, a evolução tecnológica está colaborando para tornar o mundo mais transparente. Com a aceleração da troca de informações, empresas e governos estão cada vez mais submetidos ao escrutínio público.

Essa vigilância abrangente pressiona por mudanças nas condutas dentro das empresas. “A única forma de as companhias serem bem-sucedidas e sustentáveis é conduzir negócios limpos”, diz Pohlmann. A receita parece simples: criar regras claras e adotar uma política de tolerância zero com desvios. Muitas vezes, porém, como ocorreu no caso da Siemens na Alemanha em 2007, isso só costuma vir após dolorosos escândalos, que corroem a reputação da empresa e geram multas vultosas.

Uma diferença importante é que, ao contrário da lógica das inovações tecnológicas, na qual o indivíduo fica à mercê da mudança, na ética ele é o protagonista. Para qualquer programa de conformidade funcionar, as lideranças corporativas precisam assumir uma cultura ética e direcionar com firmeza seus funcionários para isso. “A história da Siemens mostra bem isso. Numa empresa de 169 anos de existência, os desvios ocorreram quando a liderança falhou e foram corrigidos quando a cúpula deu o exemplo e trabalhou -fortemente a coe-rência interna”, diz Paulo Stark, presidente da subsidiária brasileira do grupo alemão.

Caminho árduo

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a um governo: instituições e cidadãos precisam contribuir permanentemente para combater a corrupção. Na visão de Giannetti, o caminho para uma sociedade mais civilizada é árduo. “A ação fiscalizadora do Estado ou de uma empresa isoladamente jamais faria com que as regras fossem acatadas”, afirma. A adesão aos princípios éticos só se dá por uma combinação entre a conscientização do custo-benefício coletivo do comportamento correto, a identificação individual com sentimentos morais e a submissão movida pela punição ao desvio. São mudanças que levam tempo. “Não há precedente de sociedade que tenha dormido corrupta e acordado virtuosa.”

No Brasil, o momento adverso atual pode servir para o país se tornar mais maduro institucionalmente e cultivar melhores perspectivas econômicas e sociais. “O escândalo de corrupção expôs as mazelas de uma herança patrimonialista que aqui perdura há séculos e pressupõe que a sociedade serve ao Estado, e não o contrário”, diz Giannetti. “A apuração do mensalão e a Operação Lava-Jato são oportunidades únicas para uma mudança de padrão no país.”

Para além da corrupção, a revolução ética mudou também o engajamento em diversos temas, desde preservação do meio ambiente até saúde. “Há uma nova geração de consumidores que têm muita preocupação com a responsabilidade socioambiental”, diz Paulo Silva, diretor de operações do varejista Walmart.com. “Os jovens querem produtos e serviços de empresas que tenham um papel na construção de um mundo cada vez mais sustentável.”

Além disso, em dezembro de 2015, quase 200 países assinaram o Acordo de Paris e deixaram uma clara mensagem de que o problema ambiental do planeta é muito mais urgente do que o público médio imaginava. “O desmoronamento de verdades antigas e a disseminação de informações levaram a uma enorme insegurança dos consumidores em relação às empresas”, afirma Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu. “Como consequência, os negócios estão vivendo uma inesperada era do risco. Nos países desenvolvidos, mesmo com juros baixos, há uma saturação do consumo.” As respostas estão vindo com o uso da tecnologia para criar, por exemplo, a economia compartilhada, e com a preferência por produtos e serviços que levem em conta o fato de que os recursos não são inesgotáveis.

Nas novas relações com os consumidores, um dos aspectos significativos é conhecer melhor suas escolhas. “Para antecipar as demandas, observar o que as pessoas estão fazendo é mais importante do que ouvir o que elas dizem”, afirma Marcos de Quinto, diretor de marketing da Coca-Cola.

Num mundo onde smartphones e outros aparelhos ligados à internet são mais presentes, é natural que as companhias busquem ampliar os serviços digitais para interagir com o público. Hoje, 56% das buscas no celular estão relacionadas ao local onde a pessoa se encontra, o que permite novas formas de consumo baseadas em tecnologias de localização e inteligência artificial. “O celular será parte do corpo humano e definirá o novo ciclo de consumo”, afirma Julio Zaguini, diretor do Google.

Com tantas variáveis, desvendar o futuro é tarefa para magos. Mas, preparar-se para os próximos passos de um mundo que não para de se transformar, é essencial. Diante das mudanças, uma coisa permanece como sempre foi: “O conhecimento em si mesmo é poder, segundo o filósofo inglês Francis Bacon no século 17. Isso não mudou”, afirma o historiador Karnal. Talvez o domínio do saber não permita adivinhar o amanhã, mas ajuda a formular — e questionar — as melhores perguntas.

Mundo afora, movimentos nacionalistas prometem recriar a glória de um tempo dourado no qual supostamente tudo era melhor. A armadilha é quase irresistível para quem saiu perdendo com a revolução tecnológica e a globalização, como a classe média dos Estados Unidos e a de países europeus, que viram sua renda estagnar ou cair na última década. Mas a nostalgia do passado não ajuda a resolver os problemas do presente — e menos ainda os do futuro. O novo exige que cada um busque o jeito de se reinventar.