O novo boom de startups

Eles investiram na Amazon, no Facebook, no eBay… e agora estão de olho no Brasil. Vem aí uma nova e promissora onda de capital e empreendedorismo tecnológico digital no país

O ano era 2004, e quase ninguém da família de Marcos Passos, então um garoto de 15 anos de idade da pequena São Francisco de Itabapoana, no interior do Rio de Janeiro, entendia direito o que ele tanto fazia, todos os dias, horas a fio em frente ao computador. A mãe achava que o filho perdia tempo demais com joguinhos. A tia temia que o sobrinho fosse um hacker perigoso. Até que, certo dia, um envelope chegou à casa dos Passos, endereçado ao jovem Marcos. Dentro dele havia um cheque de 2 000 dólares do Google. “Estão vendo? Eu não fico sem fazer nada o dia inteiro!”, disse o garoto à família. Dois anos antes, aos 13 anos, ele havia começado o que seria seu primeiro empreendimento: um site sobre desenhos animados japoneses. No auge, a página teve 35 colaboradores, esteve entre os 50 sites mais acessados do país e era rentabilizada mensalmente com anúncios patrocinados. Em 2007, já na universidade – e um tanto entediado com os desenhos japoneses -, Passos decidiu inovar outra vez. A ideia do novo negócio veio durante uma viagem. “Esqueci meu livro em casa e percebi que a única alternativa para continuar lendo era comprar outro”, diz. Foi quando ele começou a desenvolver um serviço de publicação de livros digitais. O empreendimento, uma mistura de editora com biblioteca, logo chamou a atenção de investidores. No ano passado, Passos recebeu um aporte do grupo de investidores Floripa Angels, e se mudou para a capital catarinense, de onde comanda a Bookess.

Recomeço

Aos 21 anos, Passos é o símbolo de uma nova onda para o empreendedorismo digital no país. As startups tecnológicas brasileiras não atravessavam um momento tão agitado desde os idos tempos da bolha da internet, no final da década passada. O Brasil entrou no radar dos maiores fundos de capital de risco do mundo, os mesmos que ajudaram a transformar ideias como Amazon, Yahoo!, Google e Twitter em nomes conhecidos e admirados mundialmente. Ainda é difícil contar essa história em números, seja de companhias emergentes ou de investimentos realizados, pois muitos negócios são pequenos e outros operam em silêncio antes de apresentar-se ao mercado. Mas os indícios estão por toda parte. Em agosto, Matt Cohler, conselheiro especial do Facebook e sócio do fundo Benchmark, que tem investimentos em mais de 150 companhias, entre elas o eBay, esteve no Brasil para conhecer empresas em estágio embrionário. O Bessemer Partners, um dos primeiros fundos de capital de risco dos Estados Unidos, com um portfólio de investimentos de mais de 2 bilhões de dólares, está monitorando a atividade de startups brasileiras há alguns meses, com visitas frequentes de seus representantes ao país. Mas os interessados não vêm apenas da América do Norte. Em agosto e setembro, o Brasil recebeu visitas de expedições de fundos da Inglaterra e da Holanda, além de alguns investidores chineses. De acordo com os empreendedores que mantiveram contato com eles, os asiáticos falam de cifras bem mais altas que os americanos.


“Todos os investidores com quem conversamos estão muito interessados no Brasil”, diz André Luiz Monteiro, um dos fundadores do Compra3, um site que oferece descontos progressivos quanto maior for o número de compradores. “A sensação é que eles veem no país a chance de repetir as histórias de crescimento explosivo que o mercado americano viu 15 anos atrás.” Em agosto, Monteiro e seu sócio Bruno Medeiros fizeram um périplo pelos Estados Unidos. Estiveram com representantes de alguns dos maiores investidores de risco do país e devem anunciar uma nova rodada de capitalização até o final do ano (a companhia já recebeu aportes que somam cerca de 2 milhões de reais). Assim como o Bookess, do jovem Marcos Passos, o Compra3 teve apoio dos investidores conhecidos como “anjos”, aqueles que investem numa startup nos seus primeiros momentos de vida. Essa é uma característica dessa nova onda: há mais dinheiro para companhias muito jovens. Ainda é pouco em comparação com os mercados desenvolvidos (estima-se que só em Nova York haja cerca de 6 000 anjos), mas é uma mudança fundamental.

Estrangeiros

Michael Nicklas, um americano que viveu intensamente a época da bolha, escolheu o Brasil para investir. “Todo mundo já conhece a China e a Índia”, diz Nicklas. “Além disso, o Brasil é muito mais próximo culturalmente da Europa e dos Estados Unidos. As inovações brasileiras têm muito mais chances de ganhar esses mercados.” Nicklas mora em Connecticut, a 1 hora de Nova York, e tem um apartamento no Rio de Janeiro. Seu fundo socialsmart Ventures conta apenas com recursos próprios e já tem participação em cinco startups brasileiras, entre elas o site Startupi, cuja missão é noticiar o cada vez mais dinâmico mundo das startups nacionais. Além do bom momento da economia, Nicklas menciona a chegada da internet às classes C e D como um dos atrativos para os estrangeiros. A conhecida obsessão dos brasileiros pelas redes sociais (o país tem uma das maiores taxas do mundo de uso desse tipo de serviço) também ajuda. A mistura de redes sociais com todo tipo de negócio, do comércio eletrônico às buscas, faz do país um laboratório ideal para testar novidades. “Os brasileiros adoram novidades e têm desenvolvedores de muito talento.” A frase é de Niklas Zennström, um dos empreendedores digitais mais bem-sucedidos do mundo. Zennström criou nada menos que o serviço de telefonia pela internet Skype, que conta com mais de meio bilhão de contas registradas e é usado mensalmente por 124 milhões de pessoas. O fundo de Zennström, o Atomico Ventures, abriu um escritório no país e deve tornar-se sócio de startups brasileiras nos próximos meses.


Mais empreendedores

Candidatos não vão faltar. O ritmo de criação de empresas emergentes está se acelerando. Embora não existam estatísticas confiáveis a respeito, todos os gestores de fundos ouvidos por EXAME apontam um aumento no interesse por recursos. Em 2008, o BNDES lançou o Criatec, um fundo específico destinado a empresas emergentes do setor de tecnologia. De lá para cá, o fundo recebeu 1 153 propostas de projetos. “No começo o interesse era menor, não passava de 20 propostas por mês”, diz Roberto Binder, gestor nacional do Criatec. “Hoje recebemos cerca de 40 projetos todo mês.” Criar uma empresa de base tecnológica está muito mais simples. Ninguém precisa se preocupar em montar sua própria (e caríssima) central de dados. Tudo pode ser alugado, pela internet, de acordo com a necessidade. O negócio cresceu? O número de servidores pode ser aumentado em questão de minutos, com um clique. A empresa Boo-box, que desenvolveu um sistema para integrar publicidade e redes sociais, só se tornou viável graças a essa facilidade técnica, diz Marcos Tanaka, seu fundador. “Hoje os custos técnicos são menos de um décimo do que eram alguns anos atrás.”

Bolar um modelo de negócios e lançar mais um site na web, porém, não é suficiente. Na opinião de Marcos Regueira, do fundo FIR Capital, os novos empresários estão cada vez mais bem preparados. Mas ainda falta, na opinião de muitos observadores, um ambiente de troca de experiências, de polinização cruzada entre as startups. “A troca de experiências entre empreendedores é uma das explicações do sucesso do Vale do Silício”, diz Bedy Yang, fundadora do Brazil Innovators, grupo criado com a missão de aproximar empresas emergentes do Brasil e dos Estados Unidos. No final de outubro, ela vai levar um grupo de dez representantes de startups para a Califórnia. Na volta ao Brasil, o objetivo é criar esse ecossistema nacionalmente. “A presença dos fundos estrangeiros no Brasil não é importante apenas pelo capital que eles estão dispostos a despejar no país”, diz Bedy. “Eles trazem consigo a experiência e a cultura empreendedora que vivenciam em seus países há tantos anos.” Muitos capitalistas de risco do Vale do Silício são ex-empreendedores, e o mesmo perfil começa a aparecer no Brasil. Jorge Steffens e Paulo Caputo foram fundadores da empresa de sistemas de gestão corporativa Datasul, vendida para a concorrente Totvs, em 2008, por 700 milhões de reais. Ambos se uniram a um fundo mineiro chamado DLM Invista. Na mira estão investimentos de 5 milhões a 100 milhões de reais. “Com a nossa experiência e conhecimento do mercado adquirido à frente da Datasul esperamos ajudar outros empreendedores”, diz Caputo.


Talento, disposição e boas ideias são essenciais para investidores de risco. O que ainda falta no Brasil são opções de saída. Fundos de risco costumam ficar entre cinco e sete anos como sócios de uma empresa e depois vendem sua participação, de preferência com um bom lucro. Na época da bolha, a saída desejada era a bolsa. Hoje, a melhor oportunidade é a venda, seja para fundos de private equity, que buscam negócios de prazos mais longos, ou então para uma outra empresa. Uma das histórias exemplares de saída bem-sucedida até hoje no país é a do BuscaPé. Fundada pouco antes do estouro da bolha, em 1999, a empresa suportou as adversidades da crise e cresceu junto com a internet e o comércio eletrônico brasileiros. Logo em 2000, recebeu o primeiro investimento do fundo brasileiro e-Platform, e em seguida dos bancos Merrill Lynch e Unibanco. Em 2005, os grupos venderam suas participações para o fundo de venture capital americano Great Hill. O ciclo se fechou em 2009, com a venda de 91% da companhia para o grupo de mídia sul-africano Naspers por 342 milhões de dólares. A trajetória do BuscaPé, porém, ainda é uma exceção.

Dispostos

Ainda assim, a percepção geral é de um salto de patamar. “Conseguir apoio antes era muito difícil”, diz Gustavo Caetano, presidente e fundador da Sambatech, empresa de armazenagem e distribuição de conteúdos digitais, como vídeos e arquivos de áudio. “Hoje somos procurados todos os meses pelos fundos estrangeiros.” Em 2009, a Sambatech recebeu investimento de 5 milhões de reais da FIR Capital, fundo de venture capital brasileiro. O objetivo é fechar uma segunda rodada até o fim deste ano. O tamanho dos negócios fechados também indica que os estrangeiros não estão apenas medindo a temperatura da água: alguns estão mergulhando de cabeça.

Em 2008, os alemães Klaus Hommels e Oliver Jung, do fundo Group Buying Global, fizeram o primeiro aporte em uma empresa brasileira: 29 milhões de reais no clube de compras online BrandsClub. Em maio passado, foram outros 17 milhões de reais investidos no site de compras coletivas ClickOn, hoje com uma base de 700 000 usuários. Hommels, que tem entre seus investimentos uma participação no Facebook, começou a diversificar seus negócios há dois anos. Além do Brasil, colocou dinheiro em companhias na Índia, Rússia, Turquia e Austrália. “Os investidores estão procurando alternativas aos locais onde tradicionalmente investiram e o apetite pelo risco está maior”, diz Marcelo Macedo, CEO da ClickOn.


Daniel Turini, fundador da empresa de consulta e análise de risco Crivo, viveu a – ou melhor, sobreviveu à – euforia do começo da década. Em 2001, ele e seus dois sócios bateram à porta de 25 fundos para conseguir colocar em prática seu plano de negócios. Apenas seis deles responderam aos contatos, e nenhum decidiu dar à Crivo o 1 milhão de reais de que a startup precisava.

O jeito foi sobreviver com recursos próprios. Um dos fundadores vendeu o carro, o outro, um terreno que tinha ganhado de herança, o outro usou na empresa o dinheiro guardado para comprar um apartamento. Com esses recursos, sobreviveram quatro anos, até que conseguiram tornar a empresa saudável. Hoje, o cenário mudou. O faturamento da Crivo, de 300 000 reais em 2004, deve ser de 35 milhões de reais neste ano. A empresa hoje é procurada pelos mesmos fundos que a rejeitaram no passado. Em princípio, Turini diz que não está em busca de mais sócios, mas isso pode mudar com os planos de exportar o software e triplicar a companhia até 2013. Se for o caso, interesse e capital não vão faltar.