Em 1990, o carioca José Rizzo Hahn Filho seguiu para os Estados Unidos para cursar engenharia mecânica na Iowa State University. Lá, três anos depois, conheceu o zambiano Hietendra Patel, que fazia doutorado em engenharia de materiais. Ficaram amigos. E, de amigos, decidiram se tornar sócios. A idéia de Rizzo e Patel era criar um negócio que utilizasse uma nova tecnologia -- a visão artificial, usada na inspeção de processos industriais e no controle de qualidade de produtos e componentes. Até então, eles tinham apenas uma certeza: a nova empresa ficaria em Santa Catarina -- lugar onde conseguiriam dinheiro e qualidade de vida.

Tudo poderia não ter passado de sonho de universitário. Mas, três anos depois, Rizzo e Patel se reencontraram. Na época, Rizzo trabalhava na Embraco, fabricante de compressores de Joinville, Santa Catarina. Patel era engenheiro da Motorola, no estado americano de Illinois. "Percebemos que, se não realizássemos nosso projeto logo, seria cada vez mais difícil tirá-lo do papel", diz Rizzo, hoje com 35 anos. "O tempo passa, a carreira decola, as responsabilidades aumentam e fica mais difícil arriscar." O mercado potencial para o produto que queriam lançar continuava praticamente inexplorado. A maioria das empresas brasileiras ainda faz controle de qualidade por amostragem, utilizando o falível olho humano. "Se não aproveitássemos para introduzir os sistemas de visão, nos martirizaríamos pelo resto da vida."

Há seis anos a Pollux nasceu. Joinville foi o lugar escolhido para a sede. Sua proposta era oferecer uma solução tecnológica que evitasse que produtos com defeito de fabricação fossem parar na casa do consumidor. Hoje, com 80 funcionários e faturamento anual de 6 milhões de reais, a Pollux acumula prêmios por inovação tecnológica, qualidade e produtividade. No ano passado, Rizzo, o presidente, foi escolhido pela Ernst & Young como empreendedor do ano na categoria de empresas emergentes.

O crescimento da Pollux tem chamado a atenção de investidores interessados em empresas emergentes. O banco Fator e a GP Investimentos hoje são acionistas minoritários. A empresa já possui unidades em São Paulo, Florianópolis, no Rio de Janeiro e na Cidade do México. O segredo do sucesso? Os sócios cumpriram a promessa feita aos clientes. Seus sistemas de visão possibilitam a inspeção automática de 100% dos produtos em linhas de fabricação e embalagens, detectando e descartando aqueles com defeito.

Como em quase todos os novos negócios, o começo foi difícil. Até novembro de 1996, Rizzo e Patel tinham apenas um plano de negócio. Patel, que continua morando nos Estados Unidos, juntou suas economias ao dinheiro da venda de um carro de Rizzo, 30 000 reais ao todo, para iniciar a Pollux. Outras cinco pessoas associaram-se, pagando sua parte com trabalho. "Não tínhamos capital nem clientes e estávamos aprendendo sobre a tecnologia", diz Rizzo. "Precisávamos de empresas que acreditassem na Pollux."

Elas apareceram apenas em 1997. O primeiro grande projeto foi desenvolvido para o laboratório farmacêutico SmithKline Beecham. Em seguida, outras empresas do setor se interessaram pelo produto e pelos custos oferecidos pela Pollux. Cada projeto tem sua particularidade. Mas, dependendo do índice de nacionalização do sistema de visão produzido, os preços podem ser até 40% inferiores aos das soluções importadas. "Os sistemas de visão garantem muito mais eficiência e segurança à produção de medicamentos", diz Marco Pacileo, diretor industrial do laboratório Boehringer Ingelheim, um dos clientes da Pollux. "Antes, perdíamos muito tempo com retrabalho e havia muito desperdício."

Quando apareceram os primeiros clientes, a Pollux ocupava duas salas num prédio comercial de Joinville e tinha sete funcionários. Em 1998, a empresa se candidatou a uma vaga na MIDIville, incubadora de base tecnológica que estava sendo instalada em Joinville. Na época, Patel, que acabara de concluir um MBA em finanças em Chicago, começou a preparar a empresa para a abertura do capital a investidores. O primeiro aporte ocorreu em agosto de 2000: 1,8 milhão de reais, colocados pelo banco Fator. "A Pollux possui um tremendo potencial de crescimento", diz Ana Lúcia Petraglia, gerente de private equity do Fator. "Tem um produto inovador, que está sendo descoberto pelo mercado." O dinheiro do Fator foi usado justamente para abrir mais espaço nesse mercado e conquistar novos clientes. Foram criados os setores de recursos humanos e finanças. A Pollux fez uma parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina e montou uma divisão de pesquisa em Florianópolis para atrair os melhores alunos de engenharia mecânica e elétrica. Por meio de uma bolsa, a empresa mantém de oito a 12 estudantes por semestre trabalhando no desenvolvimento de softwares e componentes eletrônicos que serão aproveitados em seus produtos.

O aporte de capital também financiou a abertura da Pollux México, em dezembro de 2000. Rizzo percebeu que as mesmas empresas farmacêuticas instaladas no Brasil estavam no México, usando os mesmos processos e equipamentos. "Aproveitamos uma oportunidade e nos aproximamos do mercado americano", diz. A Pollux México tem 15 pessoas e faturou quase 2 milhões de reais no ano passado. Em 2001, os sócios da Pollux decidiram entrar em novos segmentos de mercado: automotivo, eletroeletrônico e de alimentos e bebidas. Equipes especiais estão sendo montadas para se especializar em cada área de atuação.

O crescimento está sendo possível graças ao capital de risco. Há um ano, um fundo de tecnologia da GP Investimentos, de Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira, entrou como sócio na Pollux. "Nosso aporte se justifica pelo histórico de realizações da companhia, seu pioneirismo e sua liderança num setor de grande potencial", diz Marco Perlman, responsável pelo fundo GP Tecnologia.

Segundo estimativa da Automated Imaging Association, a associação que congrega as empresas de visão artificial em todo o mundo, esse é um mercado que movimenta 6,2 bilhões de dólares ao ano e está em plena expansão. A AIA prevê que ele ultrapasse os 10 bilhões de dólares em 2003. A Pollux pretende reforçar sua presença no exterior aproveitando esse mercado potencial e a carência de fornecedores. Ainda são relativamente poucas as empresas trabalhando com essa tecnologia, especialmente na América Latina. Neste ano, as exportações da Pollux devem chegar a 4 milhões de reais. Em breve, a empresa deve deixar o MIDIville e se instalar numa sede própria. "Estamos ficando com cara de empresa grande", diz Rizzo.


RAIO X
CRIAÇÃO
1996, pelos engenheiros José Rizzo Hahn Filho e Hietendra Patel
CAPITAL INICIAL
30 000 reais
PRODUTO
Sistemas industriais de visão equipamentos automáticos que utilizam câmaras de vídeo para capturar imagens rapidamente processadas de produtos ou componentes, fornecendo informações para o controle de processos e a separação de produtos com defeito
FATURAMENTO
6 milhões de reais
OPERAÇÕES
Joinville e Florianópolis (SC), São Paulo, Rio de Janeiro e Cidade do México
CLIENTES
Aventis, Novartis, Pfizer, Boehringer Ingelheim, Bunge, Danone, Philips, Procter&Gamble, L Oréal, Bosch, Volkswagen e Johnson Controls
FUNCIONÁRIOS
80
SÓCIOS CAPITALISTAS
Banco Fator e GP Investimentos