Poucos assuntos ganharam Mais atenção dos políticos americanos no período posterior à crise financeira do que o dos bônus pagos aos altos executivos das grandes corporações. O presidente Barack Obama engrossou o coro dos críticos.

Afirmou, na época, que os generosos pacotes de remuneração haviam sido um incentivo aos executivos para que assumissem posições exageradamente perigosas. O risco era do mercado. Em anos bons, diziam os críticos, os profissionais bonificáveis ficavam com contracheques incrivelmente altos.

Em anos ruins, não ganhavam, mas também não perdiam — mesmo que o mundo estivesse desmoronando ao redor. Juntas, as 25 maiores instituições de Wall Street, a meca americana das finanças, viram os lucros sair de 80 bilhões de dólares em 2006 para um prejuízo de 10 bilhões de dólares em 2008. Durante esse período, a remuneração nessas mesmas 25 empresas permaneceu inalterada.

Sob o fogo cruzado da opinião pública, a palavra bônus virou quase palavrão, sinônimo de ganância desenfrea­da, algo a ser combatido. Mas, apesar de todo o choro e ranger de dentes dos últimos dois anos, a remuneração variável ficou fora da lista de vítimas fatais da crise.

Segundo a mais recente pesquisa da consultoria Equilar, com presidentes de 200 das maiores empresas abertas dos Estados Unidos, os bônus pagos em ações e opções, a principal parte dos pacotes de remuneração, aumentaram 32% no ano passado em comparação com 2009.

Os bônus pagos em dinheiro, a menor parcela, subiram mais — 51%. Por trás do aumento da remuneração variável após três anos de estagnação está a extraordinária recuperação do lucro médio das empresas.

De 2009 para 2010, os ganhos cresceram 95%. “A alta registrada nas remunerações reflete um período mais saudável no ambiente de negócios, apesar do desemprego elevado e dos riscos que ainda rondam a recuperação americana”, diz Aaron Boyd, pesquisador-chefe da consultoria Equilar, da Califórnia.

O capitalismo ainda não conseguiu inventar maneira melhor do que os bônus de premiar os que entregam os melhores resultados. Para muitos especialistas, o problema nunca esteve nos bônus, mas nas distorções que levaram esse sistema a alimentar a crise. A solução, portanto, seria eliminar essas distorções.

O setor financeiro nos Estados Unidos aumentou significativamente a remuneração de longo prazo — incentivos, ações e opções de ações pagos ao longo de vários anos e sujeitos ao desempenho das empresas na bolsa de valores. Segundo a consultoria Johnson Associates, de Nova York, esse tipo de remuneração passou de cerca de um terço do total em 2009 para 50% no ano passado.

Philippe Dauman, presidente do conglomerado de comunicação Viacom e primeiro da lista dos principais executivos mais bem remunerados da Equilar, não foi exceção. Dos 84,5 milhões de dólares que ele recebeu no ano passado, 83% foram pagos na forma de ações e opções resgatáveis ao longo de vários anos.

Larry Ellison, cofundador e presidente da empresa de tecnologia Oracle e terceiro da lista, recebeu 70 milhões de dólares, sendo 88% em opções de ações. “A remuneração de longo prazo já era algo presente em várias companhias americanas há muitos anos. Depois da crise, essa prática foi disseminada numa velocidade maior”, diz Christopher Armstrong, professor de contabilidade da escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia.

As mudanças são um sinal de que os grandes conglomerados americanos estão mais cuidadosos, mas ainda assim persistem muitos temores. Não há dúvida de que as iniciativas registradas nos últimos dois anos aumentam a transparência das políticas de remuneração.

O problema é que existem poucos obstáculos legais para evitar que as companhias voltem a estabelecer políticas abusivas, como atrelar ganhos excessivos a resultados de curto prazo. Sem contar que muitas empresas simplesmente não aderiram às mudanças.

“O grande teste será o próximo período de bonança da economia, quando os acionistas estarão ganhando e muitos deles poderão baixar a guarda diante de práticas corporativas duvidosas”, diz Nejat Seyhu, professor de administração de empresas e finanças na escola de negócios Stephen M. Ross, da Universidade de Michigan.

No ano passado, Obama sancionou a Lei Dodd-Frank, considerada a mais profunda reforma do sistema financeiro desde a crise de 1929. No quesito remuneração, no entanto, a nova lei não dissipou todas as dúvidas.

No papel, as novas regras parecem impecáveis. Segundo a Dodd-Frank, pelo menos uma vez a cada três anos as companhias listadas são obrigadas a submeter sua política de salários a uma votação dos acionistas. O inferno, dizem os críticos, está nos detalhes.

Não existe consenso sobre qual o número mínimo de votos favoráveis um pacote de remuneração deve receber dos acionistas. Ainda não há sequer um dispositivo que obrigue as companhias a acatar um eventual veto dos investidores.

Para o bem da economia americana, o país deve encontrar — e logo — uma forma eficiente de zelar pelo funcionamento do sistema de remuneração dos executivos. Nos Estados Unidos, as empresas perdem vantagens fiscais quando pagam salários fixos acima de 1 milhão de dólares.

Esse é um dos motivos que explicam por que a maioria delas restringe esse valor como teto e cria pacotes de bônus. Desde 2000, a remuneração variável responde por cerca de 75% do total pago aos presidentes de empresas. “O desastre registrado no setor financeiro nesta década mostrou que havia excessos.

Mas gestores sem disposição para trabalhar duro e correr riscos não são a solução”, diz Marcelo Ferrari, diretor de negócios da consultoria americana Mercer no Brasil. A questão-chave que hoje se debate nos Estados Unidos é a melhor maneira de conciliar os interesses dos acionistas com as políticas de remuneração. O grande nó ainda não foi desfeito.

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