As imagens que ilustram estas páginas são muito mais do que fotografias de alguns dos edifícios de escritórios mais bonitos do país. Elas são uma prova de que, ao contrário do que preconizaram muitos gurus, o mundo dos negócios continua precisando de espaço físico para existir. Isso pode parecer uma obviedade nos dias de hoje, mas houve um tempo, não tão distante assim, em que se imaginou que a invenção do fax, do laptop, do celular, da internet e do correio eletrônico tornaria um dia os escritórios de tijolo e cimento totalmente dispensáveis. É cada vez mais barato o acesso a tecnologias que permitem que boa parte das tarefas acolhidas em prédios como estes seja desenvolvida por funcionários plugados em casa, no carro, no cliente, no aeroporto. No entanto, os prédios, com perdão do trocadilho infame, continuam firmes e em alta.

Bem, não qualquer prédio. Os que compõem esta reportagem não estão entre os mais desejados pelas empresas brasileiras por coincidência. Sedes de empresas como BankBoston, Vivo, Microsoft e MasterCard, entre outras, eles têm em comum algumas características raras: área útil acima de 800 metros quadrados por andar, geradores, temperatura controlável por área, sofisticados sistemas de segurança e de telecomunicações, heliponto, elevadores inteligentes e flexibilidade para mudar completamente o layout interno da noite para o dia. Dos cinco aqui reunidos, três têm espaços para alugar. "Entre as grandes empresas que nos procuram não há uma que não deseje se transferir para um desses prédios", diz Cairo Zacharias, gerente comercial de imóveis corporativos da Bolsa de Escritórios de São Paulo. "Elas sempre perguntam se há andares vagos e quanto custam."

Perguntar não custa nada, mas quase sempre os executivos desistem quando são apresentados ao valor do aluguel. Escritórios nesses superprédios estão fora do alcance do orçamento da maioria das empresas. Para começar a negociar o aluguel de um andar com 1 000 metros quadrados num edifício como o Plaza Iguatemi, localizado na região da Faria Lima, uma das mais nobres de São Paulo, deve-se estar disposto a ouvir propostas que podem chegar à casa dos 90 000 reais mensais, incluindo despesas com condomínio e taxas -- mais do que o dobro do pedido por um bom escritório do mesmo tamanho localizado na avenida Paulista. (Se o assunto for aquisição, pode-se pensar em algo em torno de 10 milhões de reais.) No Faria Lima Financial Center e na Torre Norte, os outros condomínios, o aluguel também está no patamar mais alto do mercado. "É o que o Brasil tem de mais bonito, elegante e moderno em escritórios", diz Fábio Nogueira, diretor da Brazilian Capital, empresa especializada em gestão de investimentos imobiliários.

Escritórios de alto padrão não são caros apenas por causa da boa localização e pelo fato de possuir uma infra-estrutura de arrasar. Pelo menos em São Paulo, onde estão instaladas as maiores empresas do país, a oferta de imóveis comerciais de qualidade é grande. A capital paulista tem 8 milhões de metros quadrados de escritórios. É o segundo maior estoque de imóveis do gênero da América Latina, só perdendo para a Cidade do México. Desses, podem ser classificados no padrão mais alto da categoria cerca de 1,8 milhão -- 21% a mais do que em 1999, quando a onda dos prédios inteligentes começou. "Nos últimos cinco anos foi entregue em São Paulo uma área de imóveis comerciais de alto padrão maior que todos os es critórios de Brasília", diz Anne Oliveira, gerente de pesquisa da consultoria imobiliária americana Jones Lang LaSalle. O que faz então que eles sejam tão caros? "Status", diz Anne. "Empresas são como pessoas. Elas gostam de boa vizinhança." Assim, é natural que o Seculum, o próximo edifício comercial desse padrão a ser inaugurado em São Paulo, esteja nas cercanias do Plaza Iguatemi e do Faria Lima Financial Center.

Edifícios corporativos que entram para os livros de arquitetura, como o Empire State, em Nova York, ou as Petronas Towers, em Kuala Lumpur, capital da Malásia, não oferecem apenas beleza arquitetônica e conveniência. Eles são uma forma concreta de afirmação econômica e técnica de um país ou povo -- não à toa o Empire State foi erguido durante o boom econômico dos anos 20 e as Petronas foram construídas nos anos 90, em pleno apogeu econômico dos Tigres Asiáticos. É assim desde que os egípcios ergueram pirâmides tendo como tecnologia pouco mais que escravos famintos e imensos blocos de pedra.

As Petronas Towers não são famosas apenas por seus quase 452 metros que as tornam o edifício mais alto do mundo. Projetadas pelo arquiteto argento-americano César Pelli, as torres, de formato circular, têm 88 andares cada uma e estão ligadas por um corredor a 170 metros do chão, no 42o andar. Mais que uma passarela, a ponte foi pensada por Pelli para significar algo como um "portão visionário" para o século 21. Da mesma forma, o prédio da Vivo foi pensado pelo arquiteto brasileiro Edo Rocha para fazer alusão a uma série de imagens que têm a ver com telefonia. A torre externa, uma das bases de transmissão de sinal para os aparelhos de telefonia celular da operadora, é uma espécie de escultura tecnológica. "Seu formato é uma referência a elétrons que orbitam o núcleo do átomo", diz Rocha. Símbolos de status, sinônimo de riqueza, os edifícios corporativos fazem muito mais do que servir de abrigo para escritórios onde se desenrola o cotidiano das empresas. Eles são a síntese arquitetônica da pujança econômica de uma empresa, de uma cidade, de um país.


O ecológico
Lagos com carpas em meio a 12 000 metros quadrados de jardins rodeiam a sede do BankBoston, na avenida Luís Carlos Berrini, zona sul de São Paulo. Depois de atravessar a área verde, os 3 500 funcionários que trabalham em 30 andares deparam com o saguão de entrada com 5 metros de altura ( à esquerda). Dentro do edifício, a sensação de estar ao ar livre permanece graças às grandes brechas para entrada de luz natural. Por apresentar características como essas, o prédio do Bank- Boston foi o primeiro no Brasil a ser construído dentro do conceito ecológico de "green-building". Projetada em Chicago, pelo escritório SOM-Skidmore, Owings & Merrill, e adaptada pelo escritório paulista Júlio Neves, a nova sede do banco representou um investimento de cerca de 150 milhões de dólares e ficou pronta em 2002, três anos após o início das obras.


O financeiro
Concebido em 2003 para reunir os escritórios das principais empresas financeiras no Brasil, o Faria Lima Financial Center, localizado numa das melhores regiões de São Paulo, tem entre seus ocupantes instituições globais, como ING Bank e Credit Suisse, e Itaú BBA, o maior banco de atacado do país. Com 60 000 metros quadrados de área construída, o edifício de 17 andares possui um lobby com paredes e piso de mármore. Os usuários têm à disposição 15 elevadores inteligentes e mais de 800 vagas de garagem. No térreo, há um auditório para 180 pessoas.


O pioneiro
Parte de um complexo que integra dois edifícios de escritórios, um shopping e o hotel Hilton, a Torre Norte inaugurada em 1999 é o prédio mais antigo entre os mais modernos do país.Trata-se de um ponto de referência para quem passa de carro pela marginal Pinheiros, em São Paulo. São 39 andares a maioria ocupada por escritórios de grandes empresas, como HP, Microsoft, Monsanto e Nokia. Suas 1 400 janelas de vidro azul-acinzentado foram projetadas para filtrar os raios solares e barrar os ruídos externos.A partir do 25o andar, a fachada inclinada é feita praticamente só de vidro, permitindo uma espetacular visão panorâmica da cidade. No 26o andar está a sede da MasterCard, cujo interior aparece na foto à esquerda. O desenho arquitetônico em diagonal obrigou o condomínio a criar balancins especiais para limpeza da fachada, uma vez que os modelos existentes foram concebidos para o uso em prédios completamente verticais.


O tecnológico
Ao entrar na sede da Vivo, na região do Morumbi, em São Paulo, a primeira coisa que se vê é uma imensa escultura ( acima). É impossível não olhar para as formas de aço espiralado de mais de 2 toneladas penduradas num vão de 26 metros de altura. Em torno da obra de arte se distribuem os seis andares concebidos pelo arquiteto Edo Rocha. Todo o projeto é pautado pelo investimento em tecnologia. Na wireless room uma das salas de reunião disponíveis cortinas, ar-condicionado e luz são ajustados por um único controle remoto. Para entrar na central de processamento de dados, é preciso submeter a íris à leitura de um aparelho de identificação, como nos filmes de ficção científica. A torre com o símbolo da Vivo, uma das bases de transmissão de sinal para os celulares da operadora, tem o efeito estético de uma escultura gigante.


O nobre
O edifício Plaza Iguatemi, fruto de um projeto em estilo neoclássico do arquiteto paulista Israel Rewin, possui um heliponto capaz de suportar até 10 toneladas o mais resistente em todo o país. A construção está num dos pontos mais nobres da capital paulista, bem em frente ao shopping Iguatemi. Um imenso lustre com mais de 80 lâmpadas pende dos 7 metros de altura do saguão de entrada. Ele está preso a um teto com pinturas de nuvens que tentam criar a impressão de céu aberto. A decoração é de Sig Bergamin.

Fotos de Cristiano Mascaro