São Paulo - A história da internet é pródiga em casos de sucesso estrondoso que logo caem no esquecimento — alguém aí se lembra do Second Life, aquele site que tinha a pretensão de se tornar um mundo paralelo?

O Pinterest, uma rede social que permite fixar fotos e vídeos em murais virtuais, viu o número de usuários mensais sair de 170 000, em fevereiro de 2011, para 13,2 milhões, em dezembro, o ritmo de crescimento mais rápido de todos os tempos nos Estados Unidos. No Brasil, a audiência aumentou 409% nos primeiros dois meses deste ano.

O que tem atraído tanta gente é a possibilidade de organizar e compartilhar imagens. Podem ser vídeos de momentos de lazer ou fotos de uma roupa que está em liquidação na loja virtual de uma grife. Diante de tanto sucesso, muitos se perguntam: estamos vendo os primeiros momentos de algo perene — e, por que não, transformador? Ou trata-se de um second Second Life?

 Pelo menos por enquanto, a maior parte dos analistas acredita que o Pinterest tem boa chance de ficar de fora da lata do lixo da internet. O site é uma porta de entrada das lojas virtuais nos Estados Unidos. De cada 100 acessos a sites de varejo no país, quase quatro já têm como origem links fixados dentro de murais do Pinterest.

Nesse quesito, o site se iguala ao Twitter. Mais incrível ainda: é maior do que Google+, Linked­In e YouTube, juntos. Esses dados levaram analistas do Mashable, respeitado site de tecnologia americano, a apontar o Pinterest como um dos próximos marcos na história do comércio eletrônico.

O nascimento do Pinterest não envolve acusações de traição e disputas judiciais, como o do Facebook, de Mark Zucker­berg, mas sua trajetória tem potencial para um filme — com um típico enredo de superação. Criado em 2009, o site agonizou por quase dois anos. Nos primeiros nove meses de vida, reunia menos de 10 000 perfis.

Sobreviveu graças à persistência e à teimosia de Ben Silbermann, um ex-funcionário do Google que chegou a ser aconselhado por amigos a abandonar a ideia. Convicto do potencial do site, Silbermann o manteve funcionando de sua casa. Dois amigos da época em que estudou na Universidade Yale, Evan Sharp e Paul Sciarra, o ajudaram a manter o sonho vivo. 

Para tentar escapar da insignificância, os três sócios pediam pessoalmente aos poucos usuários sugestões para melhorar o produto. “Devo ter entrado em contato com os 5 000 primeiros usuá­rios”, disse Silbermann durante uma participação recente no SXSW, um dos mais badalados eventos de tecnologia dos Estados Unidos. “Deixava meu celular na página inicial para que as pessoas me ligassem.”

A agonia durou até que as mulheres salvaram o Pinterest. No início de 2011, sites de moda e beleza, como o Polyvore, que tem um público feminino fiel, viram no Pinterest uma ótima ferramenta para compartilhar conteúdo. Era só montar um look bonito e “alfinetá-lo” no mural.

“As mulheres tendem a gostar de sites com apelo mais visual e a estar mais atentas às tendências da moda”, diz Grant McCracken, antropólogo e ex-professor do MIT. Logo a rede começou a aparecer nos principais blogs de tecnologia e entrou na lista dos 50 melhores da revista Time no ano passado.

Nos últimos 12 meses, o Pinterest deixou de ser invisível para se tornar o exemplo mais vistoso do que muitos já estão chamando de uma nova tendência. 

Elad Gil, renomado investidor-anjo do Vale do Silício, afirmou recentemente que o Pinterest tem os três requisitos necessários para ser uma das referências da próxima geração dos grandes sites.

Em primeiro lugar, possui ferramentas que tornam mais fácil a tarefa de compartilhar conteúdo. Em segundo, tem apelo estético. Por fim, permite a rápida catalogação de informações do dia a dia. “A maioria dos usuários não quer fazer muito esforço para produzir seu conteúdo”, escreveu Gil em seu blog em fevereiro.

É só o começo?

Mas talvez seja o caso de manter certa prudência em relação aos prognósticos. O Pinterest ainda é pequeno para os padrões do Vale do Silício. Silbermann e seus sócios dividem um escritório em Palo Alto, na Califórnia, com 20 funcionários. No início de março, a empresa anunciou uma versão para o iPad, tablet da Apple, o que deve ampliar seu público. 

Embora pareça ter um enorme potencial, o Pinterest ainda está numa liga inferior à dos fenômenos da internet. Segundo dados do Double Click Ad Planner, um dos serviços do Google que medem a audiência online, o Pinterest teve em fevereiro 31 milhões de visitantes únicos. Foram 170 milhões no Twitter e 900 milhões no Facebook.

Silbermann sabe que está no começo, mas, em termos de obsessão em transformar audiência em dinheiro, parece um veterano. Em meados de março, ele reforçou seu time de executivos com Tim Kendall, ex-diretor de monetização do Facebook. Kendall é visto como um dos principais responsáveis por transformar a estrondosa audiência do Facebook em lucro de 1 bilhão de dólares no ano passado.

Antes do “sim” para o Pinterest, Kendall havia negado propostas para trabalhar no Twitter e na empresa de jogos online Zynga, um dos maiores destaques do segmento nos últimos anos. Por não ter feito parte dos primeiros anos do Facebook, Kendall não é personagem do filme A Rede Social. Agora ele tem a chance de fazer história e chegar a Hollywood junto com os três sócios do Pinterest. Antes, terá de evitar o destino do Second Life.

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