São Paulo - Atribui-se ao ex-presidente americano Ronald Reagan uma das melhores metáforas sobre o poder destrutivo da inflação: tão violenta quanto um bandido armado e tão mortal quanto um homem ferido. Faz todo o sentido. O aumento generalizado dos preços é um dos fenômenos econômicos mais perversos.

Alguns capítulos bastante dramáticos  da história tiveram como pano de fundo o enfraquecimento da moeda. A ascensão do nazismo na Alemanha, nos anos 30, e da ditadura militar no Chile, nos anos 70, são dois exemplos. O Brasil já sentiu na pele os efeitos perversos da inflação — o caos econômico dos anos 80 e parte dos 90 tinha a instabilidade monetária em sua origem.

A volta à normalidade, garantida pelo Plano Real, evidenciou a importância de manter os preços sob controle — sempre. Por isso, não surpreende que os maiores protestos de rua no país desde as Diretas Já estejam ocorrendo agora, exatamente num momento de insegurança com a inflação.

“Por trás do levante contra o rea­juste de 20 centavos na tarifa de ônibus está a percepção de que, aos poucos, a renda do brasileiro está sendo corroída”, diz Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.

É uma percepção real. Em março, a alta dos preços chegou a furar o teto de 6,5% da meta fixada pelo Banco Central. Mas, na prática, os danos ao bolso do cidadão são ainda maiores. A inflação de serviços, que envolvem gastos com salão de beleza, escola e restaurante, se aproxima de 8,5%. E a de alimentos bate nos 13,5%.

Os salários não acompanham. A consultoria MB Associados calcula que a disparada dos preços de alimentos fez com que o poder de compra do salário mínimo recuasse para níveis de 2006. O trabalhador que recebe o mínimo pode comprar 2,2 cestas básicas, ante quase três em fevereiro de 2012.

O estudo analisou três capitais: Recife, Fortaleza e Salvador. A conclusão é clara: a inflação fez o Brasil andar para trás quase uma década. “Estamos ficando mais pobres”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB. 

Sem biscoito

A alta dos preços dos alimentos afeta brasileiros de todas as classes sociais. Tome como exemplo duas famílias paulistanas, uma abastada, outra remediada. Na casa da secretária Danila Fraga de Almeida, no Campo Limpo, bairro de classe média baixa de São Paulo, a inflação acabou com boa parte do lazer de fim de semana. “Já não tem mais almoço no shopping no domingo”, diz Danila, que mora com o marido, cobrador de ônibus, e o filho, de 5 anos.

As idas ao salão de beleza, que até dois anos atrás eram mensais, agora são trimestrais — e Danila parcela a conta, de 140 reais, no cartão de crédito. As despesas no mercado continuam as mesmas, cerca de 600 reais por mês. Mas, para isso, a família teve de cortar os supérfluos, como biscoito e pizza.

Perto do Campo Limpo está o bairro do Morumbi, da elite paulistana. É lá que mora a professora universitária Carla Barros com o marido, empresário, e os dois filhos adolescentes. A família gasta no supermercado em torno de 4 000 reais por mês, 500 a mais que há um ano. Até agora foi possível manter o padrão de consumo de alimentos.

“Mas acendemos o sinal amarelo”, diz Carla. “Se os aumentos continuarem, vamos ter de apelar para marcas mais baratas.” O que já foi afetado são as idas para a casa de praia em Ubatuba, no litoral paulista. Antes semanais, estão mais raras.

As empresas, claro, também sofrem os efeitos. A rede de supermercados Walmart viu as vendas de eletrodomésticos e produtos de informática cair pouco mais de 10% em 2013. Já nos alimentos, não houve queda da venda. “Para continuar consumindo alimentos, que são essenciais, a população está cortando gastos e outros setores são afetados”, diz José Rafael Vasquez, vice-presidente de atacado do Walmart.

Para muitas empresas, o impacto se dá no resultado final do negócio. O grupo Cometa, revendedor de motos Honda em estados do Centro-Oeste e do Norte, se vê espremido entre a subida dos custos e a incapacidade de repassá-los aos clientes.

A alta, acumulada em 10% de janeiro a maio, sobre outros 10% no decorrer de 2012, vem de todos os lados: dos veículos que saem da fábrica mais caros, dos reajustes salariais e dos gastos de custeio com produtos de limpeza, conta de telefone etc. Com medo de afastar os compradores, a empresa reajustou os preços em apenas 2% em um ano e meio.

A diferença foi absorvida. Com isso, desde o ano passado, o lucro está 34% menor. O que chama a atenção é que as margens caem a despeito do aumento da receita, que foi de 250 milhões de reais em 2012 e deverá crescer 7% neste ano. “O cenário nos leva a rever investimentos na abertura de lojas”, diz Cristinei Melo, presidente do grupo Cometa. 

Esse desânimo é o pior dos mundos para o país. É por isso que, na visão de economistas ouvidos por EXAME, é falso o dilema que opõe combate à inflação e crescimento. É verdade que, no curto prazo, medidas como a elevação dos juros afetam o PIB. No médio e no longo prazo, porém, o efeito é outro.

“A inflação baixa promove confiança, que favorece os investimentos, e, por fim, o crescimento econômico”, afirma Alberto Ramos, diretor do Grupo de Pesquisas Econômicas para a América Latina do banco Goldman Sachs. De acordo com Ramos, os altos níveis de inflação ajudam a explicar a perda de competitividade e o baixo crescimento em 2011 e 2012.

O cenário para o segundo semestre está longe de ser um mar de rosas. Dois fatores vão pressionar a inflação: o preço dos alimentos, que deve continuar subindo, e a valorização do dólar, que no fim de junho já estava na casa dos 2,20 reais.

Do lado do PIB, crescem os prognósticos de que o país colha mais um ano de crescimento baixo, talvez inferior a 2%. Mas não há dilema. O inimigo a ser combatido é a inflação. Se isso for feito, quem tem a ganhar é a população que hoje grita nas ruas.

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