São Paulo - As aeronaves não tripuladas, também chamadas de drones, podem ter o formato de um beija-flor ou capacidade suficiente para carregar centenas de quilos de bombas e mísseis. Em comum, são os protagonistas nos principais fronts da guerra dos americanos contra o terror.

Os drones fizeram as imagens da casa onde o terrorista Osama bin Laden vivia no Paquistão. O presidente americano Barack Obama até pensou em usá-los para bombardear o esconderijo, mas acabou preferindo a ação de forças especiais para ter provas da morte de Bin Laden e acesso a seus documentos.

Em dezenas de outras ocasiões, Obama deu o sinal verde para o ataque de drones contra figurões da Al-Qaeda em vários pontos do Oriente Médio, no Paquistão e no Afeganistão.

Esse sucesso nos campos de batalha tem chamado a atenção de um número crescente de empresas interessadas no uso civil dos drones.

“Os aviões já são usados para diferentes aplicações, que vão desde a pulverização de plantações no Japão até o mapeamento de cardumes de atum nos Estados Unidos”, diz o cientista político americano Peter W. Singer, autor do livro Wired for War (“Conectado para a guerra”, numa tradução livre).

No Brasil, esse movimento também é nítido. Há dois anos, a Polícia Federal usa 15 drones israelenses para o controle de regiões de fronteira. No ano passado, a Petrobras começou a operar um drone para monitorar as obras de um gasoduto no interior de São Paulo.

Um dirigível de 20 metros de comprimento controla uma área de 120 quilômetros quadrados. O consórcio responsável pela construção da usina hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, gerencia o desmatamento na floresta usando um aparelho controlado remotamente. 

De certa forma, os veículos aéreos não tripulados estão começando a seguir o caminho trilhado por outras tecnologias criadas para projetos militares, como a internet e o GPS, hoje presentes na vida de milhões de pessoas.

No começo do ano, o governo americano deu permissão para que polícias e bombeiros usem aparelhos como o Qube, um quadricóptero que cabe no porta-malas de um carro.

Fabricado pela AeroViroment, uma das principais empresas americanas de drones, o aparelho voa a uma altura de 60 metros e carrega câmeras capazes de gravar imagens em alta resolução em casos de incêndios ou perseguição de suspeitos.

Novas rotas

Uma das limitações para o uso civil nos Estados Unidos é a exigência de licenças especiais para voar em grandes altitudes. Isso, no entanto, deve mudar nos próximos três anos. Em fevereiro, o presidente Obama anunciou um investimento de 63 bilhões de dólares para a modernização do sistema aéreo americano.

O projeto prevê que até 2015 os Estados Unidos terão rotas criadas para aeronaves pilotadas remotamente. No Brasil, ainda não há legislação para regulamentar o uso de drones, mas essa limitação também deve ser momentânea.

No começo de junho, a Agência Nacional de Aviação Civil encerrou o período de consulta pública para elaborar um projeto com regras para esse novo segmento da aviação civil.

A Embraer, terceira maior fabricante de jatos civis no mundo, abriu no ano passado a Harpia Sistemas, empresa dedicada à produção de veículos aéreos não tripulados. A Harpia quer explorar setores como o de mineração. Para isso, pretende contar com aparelhos munidos de sensores que consigam identificar quais tipos de mineral existem no solo.

A Flight Technologies, de São José dos Campos, é uma das referências no país em desenvolvimento de veículos aéreos não tripulados. Seus pequenos aviões fazem reconhecimento em operações militares e, mais recentemente, estão sendo usados para monitorar florestas plantadas.

“Num futuro não muito distante, esses aparelhos serão acessíveis a um grande número de empresas, que não precisarão comprá-los. Em breve, teremos companhias especializadas em oferecer serviços aéreos com drones”, diz Nei Brasil, presidente da Flight Technologies.

Nos Estados Unidos, a tecnologia dos não tripulados já inspira a fabricação de brinquedos. O AR.Drone, fabricado pela Parrot, vendeu 1 milhão de unidades no ano passado. O quadricóptero de 300 dólares tem uma câmera que grava imagens a uma altura de até 6 metros e é controlado pelo iPhone. 

Apesar de todo o entusiasmo, os drones não estão livres de polêmica. Na área civil, a ressalva ao uso indiscriminado é a ameaça que representa à privacidade. No setor militar, a discussão é de cunho ético. Por eliminar o risco da perda de um piloto, os drones têm sido apontados por muitos como os culpados pela banalização de ataques militares.

Os mesmos aviões controlados a quilômetros de distância que eliminaram terroristas da Al-Qae­da também já mataram civis em ataques mal calculados. Segundo dados divulgados pelo Teal Group, consultoria americana na área de defesa, o mercado global de drones, hoje estimado em 6,6 bilhões de dólares, deverá movimentar cerca de 11,4 bilhões em 2022.

É cedo para prever quando veremos um Boeing com 500 passageiros fazer um voo inaugural sem piloto a bordo. Mas basta olhar para um desses drones militares mais avançados para saber que isso não é mais cena de filme de ficção científica.

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