Durante o Carnaval, o centroavante Túlio, do Corinthians, fez em Salvador um passeio de escuna pela Baía de Todos os Santos. Nas águas, Túlio fez várias vezes a mesma pergunta para o homem que comandava a festa: "Chefe, quer que eu faça alguma coisa?" A resposta era sempre a mesma: "Não, não quero nada. Só quero que você se divirta e aproveite bem o Carnaval". O chefe ao qual Túlio se referia não era o presidente do Corinthians, Alberto Dualib. Nem o treinador do time de futebol da equipe, Nelsinho Batista. O chefe era o banqueiro Ezequiel Nasser, dono do Excel-Econômico, o banco que está patrocinando o Corinthians. Era um chefe absolutamente improvável até pouquíssimo tempo atrás. Ezequiel Nasser e futebol eram uma combinação tão extravagante como charuto e favela. Ele era um homem recluso, remoto, um banqueiro de clientela diminuta mas poderosa. E eis que de repente ele sai da sombra e sobe para a arquibancada com um time que representa o oposto do mundo em que Ezequiel Nasser viveu até aqui. A opção pelo Corinthians revela muito da estratégia de Nasser em seu esforço para transformar a idéia de um grande banco num grande banco de verdade. Fica claro que Nasser quer ser grande no varejo: de outra forma, o patrocínio do Corinthians seria apenas uma estultice. E fica claro também que Nasser quer ser forte em São Paulo, onde o antigo Econômico tinha uma presença pálida. O Excel-Econômico já investiu até agora 20 milhões de reais em jogadores para o Corinthians. Gastará mais 12 milhões para ter o seu nome na camisa da equipe nos próximos dois anos. "Não estou investindo no Corinthians apenas porque sou corintiano roxo", disse Ezequiel Nasser a EXAME. "Isso me dá muito mais prazer, mas não estou fazendo isso por amor ao clube, e sim porque é um bom negócio." Crescer nas camadas mais simples da população faz sentido para um banco? Eis uma questão complexa. "Com a estabilidade, a renda das faixas de menor poder aquisitivo deve continuar a crescer", diz Maurizio Mauro, da empresa de consultoria Booz-Allen & Hamilton. "Pode estar surgindo aí um novo mercado para os bancos." Pode mesmo? Um dos credos vigentes entre muitos banqueiros é exatamente o que diz que atender a clientes da base da pirâmide dá prejuízo. "Tenho dúvidas de que os resultados do Excel serão positivos", diz um banqueiro. "É só olhar o que aconteceu com quem tentou. A popularização sem a capilaridade de agências é temerária. É preciso muita bala para erguer uma base adequada." E Nasser, o que diz disso? "A classe média alta tem cerca de 1 milhão e meio de pessoas. E os restantes 149 milhões da população brasileira, como é que ficam?", pergunta. Em três anos, ele garante que seu banco estará entre os cinco maiores do país. Se o ataque aos "149 milhões" de que fala o banqueiro é alvo de controvérsias, a opção por São Paulo é uma unanimidade. O velho Econômico concentrava a sua atuação no Nordeste, particularmente na Bahia, sua terra natal. Acontece que a Bahia representa 5% do PIB e o Nordeste, 14%. São Paulo detém cerca de 30% do PIB. Isso não significa que o Excel-Econômico quer ser um banco restrito a São Paulo. O Excel-Econômico está na ofensiva também em Minas Gerais, onde vai patrocinar o América. E não quer descuidar de sua base nordestina: o banco renovou o contrato de patrocínio do Vitória. E colocou a camisa rubro-negra do Vitória-Excel, nome oficial do time baiano a partir de agora, em Bebeto, ao preço de 3,8 milhões de reais. No caminho que traçou para seu banco, Nasser vai ter que se haver com potências como Bradesco e Itaú, que a cada segundo parecem ainda mais fortes do que já eram. Tal embate já seria dificílimo no melhor dos mundos. Imagine então num cenário particularmente desfavorável para os bancos. A participação dos bancos no PIB caiu de 15,6% em 1992 para 7% em 1995. O cemitério financeiro está lotado. De um total de 260 bancos existentes no país em 1993, cerca de 70 fecharam ou foram liquidados pelo Banco Central. As chamadas receitas inflacionárias, que os bancos ganhavam com a aplicação do dinheiro que dormia em conta corrente sem remuneração, ficaram para trás. Chegaram a representar 40% do faturamento dos grandes bancos. Hoje não passam de 0,5%. Quem quiser ganhar dinheiro nesse ambiente vai ter que batalhar. Vai ter que captar dinheiro do público e emprestá-lo para terceiros e oferecer produtos e serviços com qualidade e eficiência. "O cenário agora é outro. Quem não se adaptar corre o risco de desaparecer do mapa", diz o consultor Maurizio Mauro. A tarefa é dura? É. Mas Ezequiel Nasser tem credenciais poderosas. Ele é formado numa das escolas mais antigas e brilhantes de banqueiros do mundo: a dos Safra. Sua mãe, Evelyn, é irmã dos banqueiros Edmond, Joseph e Moise Safra. Edmond é um dos principais negociadores de ouro do mundo e dono do Republic National Bank of New York, um dos vinte maiores bancos dos Estados Unidos. Joseph e Moise são donos do banco Safra no Brasil. Nasser trabalhou quase 20 anos com os tios. Primeiro, no Republic, entre 1967 e 1973, logo depois de concluir o curso de administração de empresas no Babson Collegge, em Boston. (Posteriormente ele se especializou em finanças em Harvard.) Em seguida, no Safra, onde ficou até 1990. A família Nasser, assim como os Safra, tem a sua origem numa velha comunidade judaica estabelecida em Alepo, na Síria. Era uma região por onde passava um próspero comércio para o Oriente. Foi em Alepo que o avô de Ezequiel Nasser por parte de mãe, Jacob, se introduziu no mundo das finanças. Jacob foi trabalhar com o tio, Ezra, no banco Safra Frères, financiando caravanas de camelos e negociando com ouro. No início da I Guerra Mundial, a família de financistas mudou-se para Beirute, no Líbano. Lá fundou o Banque de Crédit Nacionale, em 1920. Em seguida, passou pela Itália e, no início dos anos 50, aportou no Brasil. Evelyn e seu marido, Rhamo Nasser, vieram junto com o primogênito, Ezequiel, então com dois anos. O avô de Ezequiel Nasser ensinou a arte de ser banqueiro aos filhos, Joseph, Moise e Edmond Safra. Estes a passaram ao sobrinho Ezequiel. No Safra e no Republic, ele mostrou-se um bom aluno. Tornou-se uma espécie de braço direito dos tios. No Republic, participou do núcleo inicial que fundou o banco, no final dos anos 60. Lá, pôde ter a sua primeira grande experiência profissional na área de varejo bancário. Para tentar atrair clientes para um banco então desconhecido nos Estados Unidos, o Republic realizou uma enorme promoção que mexeu com o mercado de varejo bancário americano. Quem depositasse mais que 20 000 dólares no banco levaria uma televisão em cores da Sony para casa na hora. A promoção fez tanto sucesso que o Republic chegou a ser um dos maiores distribuidores de TVs Sony dos Estados Unidos. No Safra, Ezequiel Nasser era o comandante da área comercial. Visitava a clientela, principalmente empresas, e foi talvez o maior responsável pela expansão da rede de agências do Safra, para cerca de 60 unidades. O sobrinho dos Safra, no entanto, queria mais. Queria abrir seu próprio negócio. Juntou-se então a seu pai, Rhamo Nasser, e a seu irmão Jacques e abriu o Excel. O pequeno Excel prosperou rapidamente. Dos quase 150 bancos criados após a liberalização do mercado bancário no Brasil no final dos anos 80, o Excel foi um dos mais bem-sucedidos. O patrimônio do banco passou de 7,5 milhões de dólares iniciais, em 1990, para 230 milhões, antes da incorporação do Econômico. O novo Excel-Econômico que surgiu daí tem hoje um patrimônio de 530 milhões de reais. Tornou-se o 12O maior banco do país por patrimônio. Vem logo depois do Safra na lista. "O Ezequiel tinha aspirações de ser o primeiro homem do Safra", diz um ex-executivo do Excel. "Ele se acha tão bom quanto o Edmond e melhor que o Joseph e o Moise." O Excel foi um banco com atuação agressiva desde a sua fundação. Quando ninguém queria emprestar dinheiro às empresas, na era da superinflação, Nasser saiu oferecendo crédito na praça. Depois, quando o crédito ao consumidor se reduzira a quase zero, contratou toda a equipe de 264 pessoas da Mesbla Financeira, a maior do mercado na época. O Excel foi também um dos primeiros bancos de médio porte a captar dinheiro lá fora a juros baixos para repassar às empresas aqui dentro. A área externa sempre foi um de seus pontos fortes. Nasser desenvolveu boas conexões lá fora quando morou em Nova York. Para fortalecer-se ainda mais nessa área, ele contratou o ex-diretor de câmbio do Banco Central Gilberto Nobre. Nobre, vice-presidente do Excel, acabou sendo o principal negociador da compra do Econômico com o Banco Central. Na hierarquia do Excel-Econômico, só está abaixo de Ezequiel Nasser. Nos primórdios do Excel, a imagem do banqueiro Ezequiel Nasser esteve vinculada ao noticiário policial em algumas oportunidades. Instauraram-se contra ele dois processos: um na esfera da Polícia Federal e outro na do Banco Central. Em ambos os casos ele era acusado de realizar operações ilegais de câmbio. O processo do BC foi arquivado. Até o seu presidente, Gustavo Loyola, saiu em sua defesa. "É tudo fofoca de jornal", afirmou Loyola. O da Polícia Federal continua a correr, mas até agora nada ficou provado contra ele. A menção desses processos é uma das coisas capazes de tirar Ezequiel Nasser do sério. "Não posso controlar tudo o que meus clientes fazem", afirma. Muita gente desconfia de que os tios estão por trás de Nasser no Excel-Econômico. Não existem evidências que comprovem essa ligação. Os indícios sugerem exatamente o contrário. Ezequiel Nasser abriu o seu Excel, hoje reforçado pela parte boa do Econômico, contra a vontade dos tios. Os Safra teriam considerado a saída de Nasser uma espécie de traição. Até pelo cargo que ocupava, Ezequiel Nasser conhecia muito bem alguns dos principais clientes do Safra. Quando abriu o seu negócio, foi bater na porta deles. Nasser respeitou, contudo, o acordo que firmara de não contratar executivos do Safra. Os Safra, comenta-se, desaprovam a exposição do sobrinho na mídia. Desde sempre os Safra cultivam uma distância intransponível da imprensa. E são tão preocupados com a segurança que chegam a contratar agentes do Mossad, o serviço secreto israelense, para protegê-los. E então, como estão as relações com os tios? "Socialmente nos relacionamos bem, mas não falamos de negócios", afirma Nasser. A associação de Ezequiel Nasser com o banqueiro Edgar de Picciotto, dono da Union Bancaire Privée, UBP, de Genebra, é outro complicador na relação do sobrinho com os tios. Picciotto detém uma participação de 14% no Excel-Econômico e deverá comandar a área de gestão de recursos do banco. Ele enraiveceu os Safra quando comprou o Trade Development Bank, TDB, em 1989. O TDB fora de Edmond Safra e estava nas mãos da American Express. Edmond teve pendências com a Amex na Justiça americana durante anos. Acabou ganhando a causa, mas nunca perdoou Picciotto por ele ter - na sua visão - se aproveitado da situação para comprar seu antigo banco. Ezequiel Nasser não chega a ser tão rico quanto os irmãos Safra, que aparecem em todas as listas dos bilionários elaboradas pelas revistas americanas. Mas dinheiro não é exatamente seu problema. Sua família, aí incluídos ele próprio, seus pais e seu irmão, detinha uma fortuna calculada em cerca de 50 milhões de dólares antes mesmo da formação do Excel, em 1990. Como muitas famílias de imigrantes, os Nasser e os Safra fizeram muitos negócios juntos quando desembarcaram no Brasil. Uns eram sócios nos empreendimentos dos outros. Os Nasser tinham uma pequena participação no banco Safra e em outras empresas do grupo, entre elas a Filobel, tecelagem de São Paulo. Com a saída de Ezequiel do banco dos tios, os Nasser se desfizeram de tudo que tinham em sociedade com os Safra. Só quem manteve sua participação no banco dos tios, de cerca de 1%, foi sua mãe. Depois da fundação do Excel, o patrimônio da família cresceu ainda mais. Em apenas cinco anos, o banco acumulou um lucro depois dos impostos de 160 milhões de dólares. Mesmo que os Nasser tivessem reinvestido quase tudo e se apropriado de apenas 10% do lucro líquido, teriam engrossado sua fortuna em 16 milhões de dólares. "O Ezequiel nunca está contente com o que tem", afirma um ex-funcionário que participou da fundação do Excel. "Ele quer sempre mais." Até a compra do Excel-Econômico, Nasser seguia a cartilha dos tios no que se refere a suas aparições públicas. Ele era um sujeito recluso, que raramente aparecia. Quando os holofotes o pegaram, foi em circunstâncias francamente adversas: seqüestraram-no em 1994. O seqüestro o manteve em cativeiro por dois meses e meio e obrigou a sua família a pagar um resgate de 3 milhões de dólares para libertá-lo. Agora ele está de novo sob os holofotes - em condições bem mais confortáveis. É possível vê-lo em cima de um trio elétrico no Carnaval, em fotografias com artistas ou num passeio em alto-mar com astros de futebol. Nos fins de semana, pode ser encontrado no estádio vendo o Corinthians, ao lado do presidente do clube, Alberto Dualib. Ele diz que se tornou uma espécie de refém do banco e que sua vontade seria a de manter-se na sombra. "Não comprei o Econômico para ser escravo do trabalho", diz Nasser. "Vai chegar um ponto em que os executivos do banco vão ter que dividir comigo a participação em todos os eventos." Mas Nasser transmite a seus interlocutores uma indisfarçável sensação de satisfação íntima com a sua súbita fama. "Ele está gostando da brincadeira", afirma um executivo do banco. "Eu nunca tinha passado o Carnaval em Salvador. É uma festa realmente fantástica", diz Nasser. Nos dias de folga, ele se locomove num jipe Cherokee. No dia-a-dia, anda num Omega azul-marinho. Na sua frente, costuma ir um carro com dois seguranças. Atrás, vão sempre mais dois carros, com no mínimo outros quatro seguranças. Nasser leva uma vida social intensa. Freqüenta jantares, assiste a concertos de música sempre que tem oportunidade e gosta de ir ao cinema (sempre acompanhado dos seguranças). O último filme a que assistiu foi O Paciente Inglês, do diretor Anthony Minghella. Casado, três filhos adolescentes (dois rapazes e uma menina), Ezequiel Nasser, 52 anos, procura cultivar no seio da família as tradições de sua origem judaica. Em sua casa só se serve comida kosher, de produção supervisionada por rabinos. No restaurante do banco, o maître Alves (ex-Rodeio e ex-The Place) supervisiona pessoalmente a confecção de pratos kosher. Às sextas-feiras, dia do shabatt, ele não abre mão de jantar com a família. A mulher de Nasser, Joelle, faz os arranjos de flores nas noites de shabatt. Ela é dona de uma empresa de arranjos e decorações florais e uma das responsáveis pela decoração do banco. Nos últimos tempos, o jantar do shabatt tem tido um desfalque. A mãe de Nasser está internada há vários meses no Hospital Albert Einstein, de São Paulo, com câncer generalizado. Ela alterna momentos de lucidez com outros em que perde a consciência. Ezequiel Nasser a visita diariamente no hospital. Seu pai mantém um quarto alugado para si próprio ali para poder ficar perto da mulher. Nasser viaja muito a trabalho para o exterior, mas ao menos uma vez por ano reserva um período para esquiar com a família em Aspen, nos Estados Unidos, ou simplesmente passear com todos em Nova York, onde tem um apartamento. Agora, pretende erguer uma base em Salvador. Está construindo um casarão na Praia do Forte. No banco, Ezequiel Nasser não é do tipo que passa reto pelos funcionários. Cumprimenta todo mundo que encontra, da copeira ao executivo mais graduado. Gosta de concentrar o poder em suas mãos. Ele comanda o banco instalado numa sala de 40 metros quadrados, no 19O e último andar da sede do Excel-Econômico. O edifício, na Rua Cincinato Braga, na região da Avenida Paulista, servia de base para as operações do velho Econômico em São Paulo. A sala de Nasser tem uma vista de 180 graus da região. De lá se pode ver até o Parque do Ibirapuera, a 5 quilômetros de distância. Sua mesa, de madeira laqueada em cinza, com recorte de camurça, divide o espaço com um conjunto de sofás reservados para as reuniões mais informais. Num canto da mesa, fica um bonequinho de borracha do mosqueteiro, o símbolo do Corinthians. Com seu indefectível charuto Montecristo número 1 na mão, Nasser recebeu EXAME refestelado em sua cadeira giratória junto à mesa. Ele nunca chega ao banco antes das 11 horas e só sai depois das 8 da noite. De manhã, costuma caminhar pelo Morumbi (sempre acompanhado dos seguranças, é bom lembrar) e jogar tênis na quadra de sua casa. No momento, por causa de um problema no joelho, ele está impedido de jogar. Nasser aproveita as manhãs também para realizar contatos pelo telefone. Faz ligações nacionais e internacionais para saber como está o mercado financeiro aqui e lá fora. Ezequiel Nasser é ambicioso, extremamente ambicioso. Seu pai, conselheiro e sócio, Rhamo Nasser, guarda até hoje uma carta enviada por Ezequiel quando este cursava a faculdade de administração de empresas nos Estados Unidos, nos anos 60. O pai sublinhou o trecho que lhe pareceu mais significativo. Nele, Ezequiel escreve: "Sou muito ambicioso e quero muito ser bem-sucedido. Um dia quero seguir o meu caminho sozinho, tocar os meus próprios negócios". Palavras que o velho Rhamo gosta de repetir sempre que questionado sobre o filho. Ezequiel Nasser tem muitas coisas agora para provar. Uma delas é que sua estratégia de investir no Corinthians e em outros times de futebol é eficaz. O marketing esportivo tem os seus críticos. Muita gente acredita que a vinculação da imagem de uma empresa a um time traz resultados nem sempre convincentes. O Bradesco, por exemplo, lançou diversos cartões de crédito em associação com clubes de futebol, os chamados cartões de afinidade. Do total de 2,2 milhões de cartões que emitiu, apenas 49 000 são de times de futebol. (De qualquer forma, os corintianos foram os que mais demandaram cartões de afinidade com o emblema do clube: cerca de 40 000 torcedores, ou 80% do total de cartões de clubes emitidos pelo Bradesco.) No começo, até o diretor de marketing do Excel-Econômico, Ival Gama, foi contra a idéia de formar uma parceria com o Corinthians. Ele acha a estrutura do esporte complicada para firmar esse tipo de contrato. Só deu o seu apoio quando soube que o banco teria um interlocutor no Corinthians - o GAP (grupo de apoio ao presidente do clube). O GAP reúne nomes do mercado financeiro, entre eles o corretor Eduardo Rocha Azevedo, formador do grupo; Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central; e o economista Luís Paulo Rosenberg. Foi formado para assessorar administrativa e financeiramente o presidente do Corinthians. Ezequiel Nasser tem no GAP gente que fala a sua língua. Mas o que acontecerá, por exemplo, se o Corinthians fracassar com o nome do banco no peito? Qual será o efeito para a imagem do banco se Túlio não acertar? Que efeitos o patrocínio do Corinthians pode ter junto aos torcedores dos outros grandes times? Nasser prefere relativizar as incertezas. Aposta que a vinculação da imagem do banco ao Corinthians e a outros clubes não afasta os torcedores dos demais times. Ele apresenta a seu favor uma opinião que afirma ter ouvido do empresário Roberto Marinho, das Organizações Globo. "Esse negócio de que os torcedores dos outros times não vão trabalhar com o Excel por causa disso é bobagem", teria dito Marinho. "Isso vai levar o pessoal a acreditar que o banco é forte e atrair a adesão de torcedores de outros times." Gama, o diretor de marketing do banco, diz que nenhum consumidor deixa de comprar produtos da Parmalat, por exemplo, só porque a empresa patrocina o Palmeiras. "A pessoa compra porque a empresa tem uma marca excelente e oferece um super-produto", afirma. Ele diz também que não teme eventuais efeitos negativos que derrotas do Corinthians possam trazer para a imagem do banco. "O Corinthians, mesmo perdendo, sempre tem 20 milhões de torcedores no Brasil inteiro", afirma. Do ponto de vista da exposição do banco na mídia, os resultados até agora parecem excelentes. Segundo uma pesquisa que o banco encomendou, Túlio apareceu por três horas e vinte minutos na televisão (ou 200 minutos), em janeiro, usando o boné ou a camisa do Corinthians com o nome do Excel-Econômico. Um minuto de televisão em horário nobre na Globo custa cerca de 250 000 reais. Se ao menos 18 minutos das aparições de Túlio foram em horário nobre, o preço do seu passe, de 4,5 milhões de reais, já foi, por assim dizer, pago no primeiro mês. "Isso não tem preço", diz Nasser. Para ter chances de levar o Excel-Econômico ao ponto com o qual sonha - estar entre os cinco maiores em três anos -, Nasser precisará melhorar consideravelmente a imagem do seu banco no que diz respeito a segurança e credibilidade. Não que ele tenha problemas de liquidez. Ao contrário. O acordo com o Banco Central foi feito para viabilizar o Excel-Econômico, e não para deixá-lo à míngua. Mas as pessoas precisam saber disso. O slogan da campanha publicitária é um esforço para tentar convencer o público de que o Excel-Econômico terá uma sorte melhor que seu ancestral baiano: "Seu banco para sempre". Como Ezequiel Nasser vê a questão da credibilidade? Para ele, os balanços do Excel-Econômico e as análises feitas pelas empresas internacionais de classificação de risco é que se incumbirão de conferir credibilidade ao banco. Nenhum desafio se iguala, no entanto, ao de bater-se com gigantes como o Bradesco e o Itaú. A estrutura do Excel-Econômico parece exagerada para o volume de clientes que o banco hoje tem. E ao mesmo tempo muito pequena para quem quer tornar-se um banco de massa em condições de disputar uma luta de corpo a corpo com os gigantes do mercado. A rede de agências do Excel-Econômico, de 230 pontos, é ínfima quando comparada à da concorrência. O Itaú tem 1 772 pontos de atendimento. O Bradesco, 2 546. O número de clientes do Excel também é baixo: 350 000. (O velho Econômico, com todas as suas ineficiências, chegou a ter 700 000.) O Bradesco tem 5,4 milhões. O Itaú, 3,9 milhões. Como, com essa estrutura, o Excel-Econômico conseguirá alcançar a sua meta de mais que dobrar em 1997 o número de correntistas e aumentar o contingente de poupadores dos atuais 435 000 para 600 000? Ezequiel Nasser afirma que o banco do futuro (e do presente) não precisa ter 1 000 pontos-de- venda para dar certo. Segundo ele, um sistema eficiente de telemarketing é o suficiente. O Excel-Econômico colocou seu telefone 0800 em todas as suas peças publicitárias e montou um sistema de telemarketing de última geração. O irmão e sócio de Ezequiel, Jacques Nasser, especialista em informática e telefonia, importou todos os equipamentos em três semanas e já os pôs para funcionar. O sistema permite a gravação automática de todas as ligações que o banco recebe. O cliente é contatado posteriormente pelos funcionários. Nos momentos de pico, o sistema chega a gravar 15 000 ligações em questão de minutos. "A forma moderna de fazer banco de varejo não é abrir agências enormes como se fazia antigamente. Hoje em dia, o maior volume de vendas de produtos de massa é feito por meio do telemarketing", diz Nasser. Em termos de automação, o Excel-Econômico está também distante da concorrência. No Bradesco, cerca de 60% de todas as transações já passam hoje pelo auto-atendimento. No Excel-Econômico, faltam máquinas para atender com qualidade a massa que Nasser quer transformar em clientes. O Excel-Econômico está investindo 50 milhões de dólares nos próximos dois anos em informática. (O Bradesco vem gastando 200 milhões ao ano, mas sua estrutura é bem maior.) Segundo Nasser, a velocidade de renovação no setor de informática é tão grande que quem está entrando no mercado agora leva vantagem. "Hoje, é possível comprar um sistema muito mais compacto, com capacidade para efetuar mais transações a uma velocidade mais rápida, por um preço bem menor do que o que se pagou há pouco tempo por um equipamento de qualidade inferior", afirma ele. Mas onde se tem manifestado mais claramente a agressividade do Excel-Econômico é na nova linha de produtos e serviços. Primeiro, o banco lançou o cheque especial de até 12 dias sem juros. Depois, saiu-se com o ExcelFun, um cartão magnético que permite aos usuários entrar em 140 cinemas de todo o país sem enfrentar filas. Recentemente, anunciou o lançamento de um plano de previdência privada cuja taxa de administração é igual a zero. Agora, o banco prepara o lançamento de talões de cheques e outros produtos bancários com emblemas dos times que patrocina. A agressividade e a esperteza de Ezequiel Nasser manifestam-se até nos detalhes operacionais do dia-a-dia. Numa pesquisa divulgada recentemente pelo Banco Central, o Excel-Econômico aparece como um dos bancos privados que cobram as menores tarifas da clientela. Tal resultado é fruto de uma estratégia bem planejada por Nasser. Há alguns meses ele começou a acompanhar de perto esse tipo de pesquisa para melhorar a colocação do Excel. Reduziu os preços de diversos serviços que pesam pouco na sua receita mas são sistematicamente incluídos nesses levantamentos, como o cartão magnético e a renovação de ficha cadastral. Simultaneamente, aumentou os preços de um ou outro serviço que tem grande impacto no faturamento e, muitas vezes, não é captado pelas pesquisas. Para usar uma imagem futebolística, Ezequiel Nasser está tendo um bom começo de partida. Mas vai ter que ser um esplêndido jogador o tempo todo para viabilizar o Excel-Econômico. E para mostrar que é igual ao tio Edmond e melhor que os tios Joseph e Moise.