Há quase uma década, o então todo-poderoso secretário do Tesouro americano, Larry Summers, comparou a economia mundial a um avião que voava com apenas uma turbina. Estava se referindo aos Estados Unidos. O mundo dependia da potência econômica americana para manter-se em velocidade de cruzeiro. Naquela época, a expansão da economia dos Estados Unidos representava quase metade do crescimento global. Ao primeiro sinal de falha na turbina, portanto, os passageiros eram obrigados a colocar as mãos na cabeça e rezar para sair vivos do pouso forçado. Pois o ano de 2008 é um marco na história econômica - o ano em que a turbina de Summers falhou e, apesar do solavanco, o avião segue seu caminho com relativa calmaria. A razão para isso é a China. Pela primeira vez na história moderna, a China será indiscutivelmente o maior motor da economia mundial. De acordo com as projeções mais recentes, sua fatia na expansão global no ano será de 23%, o equivalente ao desempenho de Estados Unidos e Europa somados. No ano passado, China e Estados Unidos deram à expansão mundial contribuição semelhante. Em 2008, não há dúvidas - este é o ano da China.

O que torna esse fenômeno ainda mais relevante é a previsão de que não será um espasmo. Após três décadas seguidas de crescimento na faixa dos 10% ao ano, a economia chinesa é hoje grande o bastante para segurar a economia mundial no caso de uma freada americana. De acordo com uma estimativa do Banco Mundial, seguirá assim no futuro próximo. Um crescimento chinês de aproximadamente 10% equivalerá a uma expansão de 2% na economia americana. Como essas taxas são condizentes com o atual estágio de desenvolvimento dos dois países, o Banco Mundial prevê que China e Estados Unidos serão, a partir de agora, os dois motores do mundo, com potências semelhantes. As implicações disso são diversas. Em 2003, o inglês Jim O';Neill, economista-chefe do banco de investimento americano Goldman Sachs, previu que em 2041 a China ultrapassaria os Estados Unidos como maior economia do planeta. Muitos fizeram troça da previsão. Afinal, nos anos 80 o Japão era o candidato mais forte a superar a hegemonia americana, mas entrou em decadência, e os Estados Unidos seguiram na liderança. Mas os dados recentes fizeram com que O';Neill redobrasse a aposta na China. Segundo ele, a ultrapassagem pode acontecer em 2023, quase 20 anos mais cedo que a estimativa original. "Eles estão crescendo muito mais que o previsto", disse a EXAME O';Neill, criador da sigla Bric, que designa as quatro maiores economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China).

Apesar de ter chamado tanta atenção nas últimas décadas, a China continua sendo mal compreendida pelo resto do mundo. Nos anos 80, os analistas ocidentais olhavam para a abertura da economia chinesa como se aquele fosse um movimento com implicações modestas e de dimensões regionais. Logo se viu que era o mundo que estava mudando. Mas as incompreensões persistem. O senso comum reza que a força por trás da China está em sua capacidade de produzir barato e exportar bugigangas que serão vendidas em lojas de 1,99 mundo afora. Se fosse assim, o país sofreria uma hecatombe com a desaceleração da economia americana, já que seu maior cliente pararia de comprar, as exportações despencariam e a máquina chinesa quebraria. Trata-se de uma avaliação grotescamente equivocada. Não se pode ignorar a mudança provocada cada vez que um gigante com 1,3 bilhão de pessoas se mexe. A economia chinesa é acelerada por uma taxa de investimentos altíssima, superior a 40% do produto interno bruto, e pelo crescente poder de compra das famílias. De acordo com uma análise recente do banco suíço UBS, a economia chinesa teria crescido invejáveis 9,5% no ano passado mesmo se não tivesse exportado um só contêiner. "Essa suposta dependência das exportações é um grande mito", diz Jon Anderson, economista-chefe do UBS na Ásia. Em 2001, na última crise americana, a taxa de expansão das exportações chinesas caiu 35%, mas o crescimento do PIB sofreu impacto inferior a 1 ponto percentual - e os primeiros dados de 2008 indicam que algo semelhante está acontecendo. Apesar da desaceleração das exportações, o PIB chinês deve crescer 9,6% no ano.

Essa resistência é uma ótima notícia para o mundo, em geral, e para o Brasil, em particular. Para o mundo, a nova turbina chinesa é uma alternativa de expansão num momento de fraqueza americana. Em 2001, o PIB mundial cresceu somente 2%. Hoje, mesmo com a economia americana crescendo apenas 0,5%, a projeção do Fundo Monetário Internacional é de uma saudável expansão global de quase 4% - graças, em boa medida, à demanda chinesa. Claro, esse cenário pode piorar caso a crise dos Estados Unidos seja ainda pior que o previsto. Mas a China atenuará seu resultado global. Para o Brasil, essa força é ainda mais positiva. Estamos no grupo de países diretamente beneficiados pelo aspecto mais definidor da nova fase da ascensão chinesa: a sede por matérias-primas, que deu origem ao chamado superciclo das commodities, um período mais longo que o usual de alta nos preços. Nos últimos seis anos, o volume de exportações brasileiras de soja e de minério de ferro cresceu 27% e 82%. E o preço das duas commodities aumentou 75% e 187%, respectivamente. Esse impacto pode ser medido pelo desempenho da maior empresa privada brasileira, a Vale. Em 2000, quando a China respondia por apenas 15% da demanda mundial por minério de ferro, a empresa brasileira teve lucro de 2,1 bilhões de reais e seu valor de mercado era de 17 bilhões de reais. Em 2007, quando a demanda chinesa passou para 49% do total, a Vale obteve um lucro dez vezes maior e seu valor de mercado subiu para 275 bilhões de reais. No ano passado, o superávit comercial da Vale foi de espantosos 7,5 bilhões de dólares, o equivalente a quase 20% do total brasileiro - ou seja, impulsionada pela China, a Vale ajudou a manter o câmbio valorizado e a inflação sob controle. "A China é nossa cara-metade", diz o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central. "Poucos países foram tão beneficiados quanto o Brasil por seu crescimento."

Os economistas acumularam ao longo dos séculos uma incrível capacidade de errar previsões. Nos anos 80, a revista britânica The Economist pediu a um grupo de economistas que fizesse suas previsões sobre o panorama mundial dali a uma década. Pediu a mesma coisa a um time de lixeiros. Os lixeiros acertaram mais. Como resumiu certa vez o prêmio Nobel de Economia Paul Samuelson, os economistas previram com exatidão nove das últimas cinco recessões. As projeções de supremacia chinesa não são mais que isso. A dificuldade de prever o que acontecerá com a China tem uma razão básica: nunca se viu nada parecido. Para encontrar um paralelo, os historiadores voltam aos anos que se seguiram à Guerra Civil americana, no fim do século 19. Naquela época, a ascensão dos Estados Unidos causou ondas de destruição nas então potências européias e, como aconteceu com a China até recentemente, gerou uma onda deflacionária global.

Para repetir a trajetória americana, porém, a China terá de enfrentar uma série de obstáculos. Alguns, como a inflação, são imediatos. O índice de preços ao consumidor chinês cresceu 8,5% nos últimos 12 meses. O preço dos alimentos subiu em média 22% no período. A experiência chinesa com inflação é problemática. Os dois mais famosos picos inflacionários do país ocorreram na década de 40 e em 1988. O primeiro coincidiu com a queda do governo de Chiang Kai-shek. O segundo ocorreu um ano antes dos protestos da praça da Paz Celestial, momento em que o atual regime esteve em risco. "Assim, compreende-se que o maior medo dos comunistas na área econômica seja a inflação como fator desestabilizador da sociedade", escreveu Alan Greenspan em seu livro A Era da Turbulência. Para combater a inflação, porém, o governo está adotando apenas medidas homeopáticas, como o congelamento de alguns preços, evitando dessa forma o caminho mais recomendado pelos analistas: uma valorização maior do yuan. Para os chineses, uma valorização excessiva da moeda poderia enfraquecer a economia, como aconteceu com o Japão na década de 80. O risco é não matar o dragão da inflação no nascedouro. Para tornar o desafio ainda mais complexo, entrou em vigor no início deste ano a nova lei trabalhista, que dificulta demissões. Segundo o banco BNP Paribas, a nova lei representa um aumento de até 25% nos custos de mão-de-obra, o que incentiva repasses para os preços. "O problema é que está acontecendo tudo ao mesmo tempo", diz Chen Xingdong, economista-chefe do Paribas na China. "A nova lei trabalhista não deveria ter entrado em vigor durante a crise inflacionária."

Os maiores desafios da China, porém, estão no médio prazo - e são mais complexos, pois envolvem a necessidade de mudar a essência do modelo de desenvolvimento chinês das últimas décadas. A principal característica desse modelo foi a busca do crescimento a qualquer custo, o que tornou a China um dos maiores esbanjadores de energia do mundo e deu origem a uma crise ambiental sem precedentes. O risco de apagão é considerado real, especialmente nas províncias que concentram a indústria, como Guangdong. Para amenizar esses problemas, a China está tentando incentivar os chineses a consumir mais. A idéia é substituir o crescimento baseado em investimento por aquele baseado em consumo. A parcela do PIB chinês que vem do consumo das famílias ainda é pequena para os padrões mundiais, e aumentá-la seria uma forma de crescer sem poluir ou gastar tanta energia. Com uma economia mais equilibrada, a China diminuiria os riscos à frente. Mas os primeiros sinais indicam que não está fácil. O socialismo à chinesa não garante direitos básicos, como saúde, educação e aposentadoria à população - que, em resposta, guarda dinheiro para o futuro. A taxa de poupança chinesa supera 50% do PIB, altíssima mesmo para os padrões orientais. Para fazer o povo gastar mais, o governo vai ter de criar uma rede de proteção social, e essa tarefa ainda está em seus estágios iniciais.

Finalmente, convém observar com atenção a forma como a China vai se inserir no contexto mundial. Potências em ascensão costumam criar atritos com os líderes de seu tempo. No caso da China, um terreno fértil para problemas é a demanda por recursos naturais, que a coloca em rota de colisão com os interesses de outros países. A Olimpíada de Pequim tem como principal missão justamente mostrar ao mundo uma face mais amigável da China. Mais de 4 milhões de pequineses fizeram aulas de inglês para receber os visitantes, e o milenar hábito de cuspir na rua foi proibido. Como a Coréia do Sul em 1988, a China quer usar a Olimpíada para mostrar o tamanho de sua evolução nos últimos 30 anos. Mas o mundo decidirá o que quer ver. Se é a pujança econômica ou o país que prende dissidentes, censura jornais e internet e suja o planeta em níveis sem precedentes. Os primeiros sinais mostram que, caso a Olimpíada não seja a maravilha pretendida pelos chineses, o potencial para confusão é grande. Os estudantes são ensinados desde cedo a ver as potências ocidentais como as culpadas por um "século de humilhação" que começou na Primeira Guerra do Ópio e terminou na Revolução de 1949. As reações à ameaça francesa de boicotar a cerimônia de abertura dos Jogos - represália à repressão de protestos no Tibete - mostram que esse traço de xenofobia está lá, sempre prestes a aflorar: os chineses logo organizaram um raivoso boicote ao Carrefour e ameaçaram escolas francesas. Isso reavivou velhos temores de que uma superpotência chinesa será menos amigável do que fazem parecer as crianças falando "Hello" aos estrangeiros nas ruas de Pequim. A instalação da nova turbina na economia mundial é uma excelente notícia. Resta aos senhores passageiros torcer para que a China esteja à altura da função.