São Paulo - Ao chegar ao Brasil, em 26 de outubro de 2010, o empresário alemão Malte Horeyseck, de 30 anos, trazia na memória apenas um punhado de lembranças da época em que havia passado férias em cidades como Rio de Janeiro e Salvador, três anos antes. Horeyseck sabia muito pouco sobre o país e menos ainda sobre suas empresas.

Para ele, Capodarte, Dumond ou Azaleia não passavam de palavras quase impronunciá­veis — que teve de aprender na marra para criar do zero a loja online de calçados Dafiti.

Logo que chegaram a São Paulo, ele e os três sócios — o também alemão Malte Huffmann, o francês Thibaud Lecuyer e o brasileiro Philipp Povel (que há 20 anos morava na Alemanha) — alugaram um escritório de 20 metros quadrados na zona sul da cidade, onde ficaram por dois meses disparando telefonemas para os maiores fabricantes nacionais de sapatos.

Em um ano, eles não apenas dominaram o português como também construíram um negócio que cresce a uma velocidade espantosa. A Dafiti não divulga seus dados, mas, segundo informações do mercado, deve fechar 2011 com quase 700 funcionários e um faturamento de 400 milhões de reais.

Com mais de 3,6 milhões de visitantes únicos em novembro e 25 000 produtos à venda, a Dafiti já é a maior varejista online de moda e acessórios do país. “Tivemos de rever todos os nossos planos de investimento”, diz Horeyseck.

Como toda empresa que parte do nada, a Dafiti nasceu da improvisação. Horeyseck, Huffmann, Lecuyer e Povel sabiam o que queriam do negócio, mas não tinham um nome para ele. “Queríamos algo que pudesse ser usado em qualquer lugar do mundo, sem problemas de direito autoral”, diz Povel, responsável pelas finanças e pela área de tecnologia do site.

Eles decidiram, então, pedir sugestões a amigos e funcionários. As ideias deveriam ser enviadas ao e-mail do primeiro esta­giário do site, Daniel Fitipaldi. Como o e-mail do rapaz era “danifiti” — e nenhuma outra sugestão passava pelo crivo dos advogados —, o quarteto decidiu ficar com Dafiti, variação do endereço eletrônico do estagiário.

A operação começou a ganhar corpo em maio, com o lançamento oficial do site. Com mais de 500 banners espalhados pela internet, a empresa passou a ser assediada por fabricantes — a lista de espera hoje é de 500 lojistas. Em pouco mais de seis meses, a Dafiti já contava com mais de 140 marcas de calçados no catálogo e decidiu antecipar em um ano a entrada no segmento de roupas, prevista para 2012.

“Naquele momento, sentimos que era hora de investir em publicidade offline”, diz Huffmann, o sócio responsável pelo marketing. O primeiro anúncio da Dafiti, veiculado na TV aberta, fez com que o número de visitantes do site dobrasse, atingindo em torno de 3,6 milhões de acessos mensais, segundo dados da consultoria ComScore.

A ação também ajudou a ampliar o número de fãs da empresa no Facebook. Hoje, são mais de 250 000. (A Netshoes, líder brasileira do varejo eletrônico de calçados, com faturamento previsto de 600 milhões de reais neste ano, tem 180 000 seguidores na rede social.) Crescimento acelerado e popularidade não são, necessariamente, tradução de bons resultados financeiros.

A Dafiti não terá lucro em 2011. Quando fala sobre isso, Horeyseck usa um argumento popular entre os empreendedores da internet: “Nossa preocupação agora é crescimento, e não lucro”.

Capital estrangeiro

Tudo fica mais fácil quando se tem um sócio poderoso. E Horeyseck, Huffmann, Lecuyer e Povel têm um. Com investimentos em cerca de 30 empresas de internet, entre elas o site de compras coletivas Groupon, o fundo alemão Rocket Internet é o grande financiador da Dafiti.

Conhecidos mundialmente por replicar na Europa modelos bem-sucedidos de comércio eletrônico, os irmãos Oliver, Alexander e Marc Samwer, donos do Rocket, inspiraram-se na loja online americana de calçados Zappos para lançar a Zalando em 2008 — em dois anos, a empresa tornou-se líder no mercado europeu.

Em 2010, os Sam­wer compraram o site MyBrands, fundado por Povel e Huffmann, que vendia roupas de grife com desconto. De todas as sete empresas de internet que o fundo trouxe para o Brasil nos últimos meses — versões de sites já existentes lá fora e que vendem de artigos infantis a produtos para decoração —, a Dafiti é a que recebeu mais atenção.

O investimento inicial por parte dos Samwer, que, segundo fontes próximas à companhia, são donos de 70% da empresa (o restante está dividido entre os quatro sócios), foi de aproximadamente 50 milhões de reais — um caminhão de dinheiro se comparado ao montante geralmente injetado em startups na internet, na casa dos 2 milhões de reais.

“O mercado brasileiro oferece um enorme potencial de crescimento”, diz Lecuyer, diretor de operações da Dafiti. “Cerca de 20% de nossos clientes estão comprando pela primeira vez na web.” 

Por causa desse crescimento, a Dafiti deve se mudar em janeiro para uma nova sede, a terceira em pouco mais de um ano de operação. Encontrar um novo escritório enquanto lidam com a operação é apenas uma das novas atribuições dos sócios da Dafiti.

Desde junho, eles têm feito parte do trabalho antes sob responsabilidade do brasileiro André Beisert, quinto fundador da operação, responsável pelas áreas de RH, compras e marketing. Beisert teria deixado a empresa por não concordar com a estratégia adotada por seus sócios.

Da porta para fora, há o acirramento da concorrência. A Netshoes, maior canal de vendas online de artigos esportivos para Nike e Adidas, vem reforçando o número de produtos exclusivos oferecidos em seu site, que hoje chega a 200. A estratégia é uma tentativa de se distanciar da Dafi­ti — enquanto a Net­shoes vende 4 500 itens da Nike, a nova­ta tem no portfólio apenas 275 produtos.

No caso da Adidas, a vantagem da Netshoes é ainda maior. Até agora, a fabricante alemã está fora da Dafiti. “Esse tipo de reação era esperado”, diz o executivo de uma empresa do setor. “A Netshoes precisou de dez anos para se consolidar e não deixaria o caminho livre para quem está chegando agora."

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