Em sua primeira visita ao Brasil, no início de agosto, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, apresentou-se sem os tradicionais chinelões de borracha que calçou em quase todas as suas aparições públicas -- como costumava fazer pelos corredores de Harvard até pouco tempo atrás. Aos 25 anos, ele agora veste camiseta, calça jeans e... tênis. O garoto prodígio da internet aparecera pela primeira vez com o novo visual em programas da TV americana no começo deste ano -- e, então, algo aparentemente sem a menor importância virou notícia.

A aposentadoria dos desengonçados chinelões gerou intermináveis discussões em diversos blogs e, é claro, no próprio Facebook. A polêmica mostra a que ponto chega a curiosidade sobre Zuckerberg. Todos querem entender como o aluno tímido abandonou a faculdade de computação aos 19 anos para se tornar o mais jovem empreendedor bilionário da história, dono de uma companhia avaliada em mais de 6 bilhões de dólares.

O livro The Accidental Billionaires, lançado recentemente nos Estados Unidos e escrito por Ben Mezrich, vem ao encontro dessa inesgotável curiosidade em torno do garoto. Em poucas semanas, a obra se tornou a segunda mais vendida na categoria negócios, segundo o jornal The New York Times. O autor já se prepara para levá-la ao cinema -- e, quem sabe, repetir o resultado que obteve com a adaptação de seu best-seller Quebrando a Banca, que chegou às telas no ano passado com o ator Kevin Spacey.

 
Segundo Mezrich, foi para se encaixar nesse círculo que Zuckerberg teria criado o Facebook. A internet ligaria o mundo dos nerds -- do qual o empreendedor fazia parte -- ao mundo dos bacanas. Como Zuckerberg não deu entrevistas ao autor, o resultado é uma biografia não autorizada, carregada de histórias controversas. A principal fonte de informação foram ex-colegas de faculdade, como o carioca Eduardo Saverin, que também foi seu primeiro sócio capitalista.
 
Filho de imigrantes judeus, Saverin viveu no Rio de Janeiro até os 13 anos, quando sua família se mudou para Miami. Ele afirma, por exemplo, que desde a primeira vez em que viu seu futuro sócio, numa festa universitária, percebeu algo anárquico por trás de seus olhos azuis. "Ele parecia querer agarrar tudo à sua volta", diz Saverin.

Por vezes, Mezrich abusa de hipóteses para descrever personagens e cenas. O tom entre a ficção e a realidade é similar ao que ele usou em Quebrando a Banca, em que narra a aventura real de um grupo de alunos do MIT em cassinos em Las Vegas. Algumas passagens ganham um ar particularmente cinematográfico.

Uma delas conta a primeira criação de Zuckerberg, a rede social Harvard Facemash, em 2003. Depois de alguns drinques, ele decidiu espionar os servidores da universidade e baixar as fotos das garotas de todas as moradias estudantis. Bem, de quase todas. Algumas tinham sistemas bem protegidos. Para burlá-los, Zuckerberg teria invadido as residências no meio da noite.

Depois de roubar as fotos, criou um site em que os alunos podiam votar nos atributos da mulherada e estabelecer um ranking. Pela travessura, quase foi expulso de Harvard.

A experiência foi o ponto de partida para o Facebook. Por semanas a fio, Zuckerberg trabalhou no projeto de uma comunidade exclusiva, em que os usuários se conhecessem. Nessa época, no fim de 2003, redes como o Friendster e o MySpace já existiam, mas não faziam grande sucesso. Com o projeto pronto, pediu dinheiro a seu amigo Saverin para alugar servidores.

O carioca fez um aporte inicial de 1 000 dólares -- e depois de outros 17 000 -- e recebeu uma fatia de 30% da empresa. Logo que entrou no ar, o site conquistou milhares de usuários também em outras universidades, como Stanford e Yale.

Assim que percebeu o enorme potencial do Facebook, Zuckerberg abandonou Harvard para viver no Vale do Silício. Na época, seu cartão de visita trazia, além do próprio nome, a inscrição "I’m CEO – Bitch", que dispensa tradução. A partir daí começa uma sucessão de fatos polêmicos em sua trajetória. O maior deles foi a acusação dos irmãos Winklevoss, remadores que representaram os Estados Unidos na Olimpíada de Pequim.

Os Winklevoss alegam que, antes do início do Facebook, procuraram Zuckerberg para programar uma rede social batizada de ConnectU. O jovem nerd teria, então, roubado a ideia. O criador do Facebook negou a acusação, e anos depois chegou a um acordo com os Winklevoss nos tribunais (o valor jamais foi revelado).

Tempos depois, ele viria a se envolver em outras situações polêmicas, desta vez com os sócios. A primeira envolveu Saverin. Na Califórnia, Zuckerberg conheceu Sean Parker, empreendedor que já havia criado o Napster e o Plaxo e que acabaria por comprar uma fatia do Facebook.

Com hábitos de vida extravagantes, os dois costumavam frequentar festas com a presença de modelos da Victoria Secret’s e se deliciavam com churrascos de carne de coala em iates em alto-mar. Depois de conseguir aportes cada vez mais vultosos de outros investidores, eles conseguiram diluir a participação de Saverin e, com a ajuda de advogados, terminaram por afastá-lo totalmente da empresa. Meses depois, o próprio Parker seria a vítima do "amigo" e acabaria também expulso da companhia (para decepção dos leitores, o autor relata as duas passagens de forma bastante superficial).

Como é de se imaginar, dos irmãos Winklevoss ao brasileiro Saverin, todos se sentiram traídos pelo geek de cabelos cacheados e olhos azuis. Nada que abale o sono de Zuckerberg. "Para ele (o Facebook) havia sido uma produção de Mark Zuckerberg desde o início", diz Mezrich. "Todos os outros apenas tentavam se aproveitar."

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