São Paulo - Após quase dois anos de mau desempenho nas bolsas, as ações da Petrobras voltaram a se valorizar no início de 2012 — o ganho acumulado foi de 15% até 27 de janeiro, data do fechamento desta edição. Por trás da alta estavam as expectativas dos investidores geradas pela troca de comando da empresa.

Maria das Graças Foster, de 58 anos, diretora da área de gás e energia, assumirá o lugar de José Sérgio Gabrielli. A saída de Gabrielli, presidente da maior companhia brasileira há seis anos, era esperada desde a posse da presidente Dilma Rousseff e está relacionada aos percalços que ele vinha enfrentando para tocar os investimentos previstos e ampliar a produção, estagnada há três anos.

Custos em alta e retorno abaixo dos oferecidos pelos concorrentes são apenas parte da história. Como símbolo maior do capitalismo de Estado à brasileira, a Petrobras tem sido palco de uma crescente ingerência do governo — uma postura que afugenta investidores mais sensíveis.

Manter os preços do óleo diesel 20% abaixo da média praticada no mercado internacional, para ficar apenas em um exemplo, pode até ter ajudado o governo no controle da inflação, mas não contribuiu em nada para o poder de atração das ações da empresa no mercado.

Somente em 2011, os papéis da Petrobras perderam mais de 30% de seu valor, fazendo com que a companhia caísse da terceira para a quinta posição no ranking das maiores petrolíferas do mundo.

É essa Petrobras — grandiosa, sim, mas com imensos desafios a superar — que Graça Foster, como é mais conhecida, deve assumir nas próximas semanas. Sua tarefa como executiva é comparável ao tamanho da promessa do pré-sal brasileiro.

Em tese, será sob sua gestão que a estatal terá de se preparar para extrair grandes quantidades de petróleo depositado a 7 quilômetros de profundidade em alto-mar. Para isso, Graça Foster terá em mãos um orçamento de 128 bilhões de dólares a ser consumido até 2015 — mais da metade do investimento total da empresa previsto para o período.

Não há projeto similar no mundo. Os otimistas aplaudem a ascensão da primeira mulher ao comando da estatal como uma solução administrativa. “O forte dela é gestão, e é no campo operacional que deve entrar de cabeça”, diz o consultor Luis Costamillan, ex-presidente da petroleira britânica BG no Brasil.

Quem aposta que Graça Foster conseguirá levar a Petrobras a um novo salto usa basicamente dois argumentos. O primeiro: pesa a seu favor o perfil de técnica e gestora tida como competente e com profundo conhecimento da empresa. Ela entrou como estagiária de engenharia em 1978 e passou por diversas áreas.

Assumiu a diretoria de gás e energia em 2007 e virou o resultado da divisão. O prejuízo de 1,4 bilhão de reais daquele ano deu lugar a um lucro de 2,6 bilhões de janeiro a setembro de 2011. O segundo: sua conhecida proximidade com a presidente Dilma Rousseff.

As duas se conhecem desde que Dilma foi secretária de Energia do Rio Grande do Sul, há 13 anos, e Graça Foster era gerente na Petrobras. Como ministra-chefe da Casa Civil no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma a nomeou sucessivamente para a presidência da Petroquisa e da BR Distribuidora.

Há pelo menos três anos, Graça é cotada para o lugar de Gabrielli. O canal direto com a presidente da República, segundo os analistas, poderá ser decisivo para resolver algumas das maiores pendengas da estatal — questões delicadas, como o controle de preços de combustíveis e o índice de conteúdo nacional obrigatório nas compras da Petrobras.

Ninguém acha que Graça possa derrubar esses dois mantras do governo. “Mas ela terá mais condições de argumentar e ser ouvida por Dilma para conseguir alguma flexibilidade”, diz o economista Cláudio Frischtak, presidente da consultoria Inter B, do Rio de Janeiro. 

A expectativa também é que Graça Foster centralize mais as decisões que seu antecessor. Nos últimos anos, a Petrobras, com porte cada vez mais gigantesco — hoje tem mais de 80 000 funcionários —, tendeu para a fragmentação em feudos.

“As diretorias são praticamente autônomas, seguindo as indicações partidárias”, diz Jean-Paul Prates, diretor do Centro de Estratégias de Recursos Naturais de Energia. “É como se o navio tivesse vários timoneiros. Graça tem tudo para ser uma comandante-chefe.”

Ela terá também de lidar com a insaciável sanha dos políticos. Um exemplo recente: nos últimos dias, paralelamente à notícia de sua promoção, correu a informação de que José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras e da BR Distribuidora e ex-presidente do PT, deverá voltar para a empresa, num novo cargo de diretoria corporativa a ser criado.

A própria Graça é filiada ao PT, mas seus admiradores dizem que ela será capaz de colocar a Petrobras e a geração de resultados pela empresa à frente de interesses políticos. Essa característica seria expressa em jornadas de trabalho que se estendem das 7 e meia da manhã às 10 horas da noite e na maneira rígida como cobra os subordinados.

Do lado de fora, uma das maiores dificuldades que Graça Foster vai enfrentar é fazer a cadeia de fornecimento de equipamentos deixar de ser um problema para os investimentos da companhia. O governo Lula criou patamares mínimos de conteúdo local para desenvolver a indústria nacional.

O plano era lindo. A realidade nem tanto. Carente de mão de obra qualificada e de tecnologia apropriada, boa parte das empresas que formam a cadeia de fornecimento da Petrobras não consegue atender à demanda. Em 2011, 13 companhias exploradoras de petróleo foram multadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) por não cumprir o percentual de nacionalização. Apenas a Petrobras levou 29 milhões de reais de multas.

“É importante desenvolver a indústria nacional, mas também não se pode atrasar a expansão da exploração porque aqui não há empresas em condições de fornecer”, diz David Zylbersztajn, ex-presidente da ANP. O problema foi vexaminosamente exposto pelo petroleiro João Cândido, o primeiro construído no estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco.

Entregue em maio de 2010, três meses depois o navio voltou ao estaleiro para o reparo de soldas malfeitas. Até hoje está em conserto. “É impossível criar tecnologia para o setor de petróleo da noite para o dia no Brasil”, afirma Eveline Gerck, sócia da AP, fundo americano especializado em empresas de energia.

“Hoje, para atender à nacionalização, alguns componentes têm sido trazidos de fora. O Brasil não tem sequer ligas de aço resistente a águas profundas.” Quando os fornecedores nacionais conseguem entregar, muitas vezes o custo é alto.

No ano passado, na licitação de 21 sondas de perfuração, os preços oferecidos pelos consórcios vencedores para o afretamento ficaram de 30% a 40% mais altos devido à imposição de produzir os navios no Brasil. A Petrobras não aceitou e o processo foi travado.

“A Petrobras está pagando mais caro para desenvolver uma política de governo”, diz Roberto Azevedo, sócio do banco Modal, gestor de um fundo que investe em fornecedoras da cadeia de óleo e gás. É por essa política nacionalista que estrangeiros como o fundo americano BlackRock, maior investidor privado da Petrobras, continuam céticos.

Desde a tumultuada capitalização de 2010 a Petrobras passou a ser vista como uma companhia que muitas vezes investe com critérios que só atendem às necessidades de seu controlador, o governo brasileiro.

“Os desafios continuam os mesmos: convencer os acionistas minoritários de que a empresa é focada em retorno”, diz William Landers, diretor de gestão do BlackRock. “A nova presidente não vai mudar essa percepção imediatamente.”

Com reportagem de Daniel Barros, ­Fabiane Stefano e Márcio Kroehn

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