São Paulo - Um dos bens mais preciosos que uma nação pode ter é a confiança no futuro. Esse componente intangível, que foi quase declarado em extinção por aqui, está hoje em quase todos os cantos do país e é fruto não de um ou outro governo, mas de um processo de quase duas décadas de estabilização da economia.

O aumento da crença num futuro melhor do que o presente pode ser observado nos investimentos, no consumo, na ascensão de uma nova classe média. Pode ser visto, também, no anúncio de metas de longo prazo ambiciosas, como as do executivo Edemir Pinto.

Aos 57 anos de idade, o paulista Edemir preside uma das bolsas de valores mais empolgantes do planeta nos últimos anos, a BM&F Bovespa, símbolo máximo do mercado de capitais brasileiro.

Comparada com mercados de ações do mundo desenvolvido e até com alguns do círculo das economias emergentes, a bolsa de valores brasileira reúne um modesto número de investidores. Ao longo de seus 120 anos de vida — marcados por períodos de decadência, letargia e euforia — atraiu cerca de 600 000 aplicadores individuais, a maioria deles no intervalo entre 2004 e 2009.

A BM&F Bovespa — vista ela própria como um negócio de capital aberto — precisa crescer. E a carreira do economista Edemir como seu presidente depende disso.

Recentemente, ele prometeu aos investidores da BM&F Bovespa que, até 2015, 4,4 milhões de brasileiros entrarão no mercado de ações. Como acontece com os presidentes das outras 463 companhias listadas em bolsa, precisará cumprir.

Trata-se de um desafio gigantesco, que, tornado realidade, pode ajudar a mudar a face do capitalismo brasileiro. Nos últimos seis anos, o mercado de ações atraiu, em média, nove investidores por hora.

Para chegar ao total de 5 milhões até 2015, a bolsa brasileira terá de aumentar o ritmo para 114 novos aplicadores a cada 60 minutos até o final de 2014. Edemir conseguirá atingir sua meta? Impossível dizer. O futuro está no futuro.

Mas há fatores que separam seu anúncio de um simples querer. À frente de uma companhia aberta, ele sabe que suas declarações são registradas por analistas e investidores. E esse tipo de gente não costuma perdoar metas não atingidas.

Acima de tudo, Edemir se protege das acusações de megalomaníaco por ser hoje o presidente da bolsa de valores que atrai investidores no ritmo mais alucinante do mundo. Nos últimos seis anos, o número de aplicadores brasileiros cresceu 545% — índice que se explica, em grande parte, pela dimensão reduzida da bolsa brasileira.

Entre o início de 2004 e o final de 2009, o total de pessoas que investem diretamente em ações (não via fundos) saiu de 85 500 para 552 000. “Quando começa, o processo de popularização tem muitas semelhanças com uma epidemia”, diz Jeremy Stein, professor de finanças da Universidade Harvard.

“As pessoas sentem que as regras do jogo não são contra elas, começam a investir, contam para os amigos e o negócio se alastra. É exatamente isso o que está acontecendo no Brasil.”

O pano de fundo do recente fenômeno de popularização da bolsa no país foi um período econômico em que quase tudo parece ter conspirado a seu favor.

A partir de 2004, já com a confiança na manutenção da política econômica restabelecida, os papéis das empresas listadas na Bovespa foram considerados baratos pelos gestores internacionais, na ocasião, ávidos por aumentar seus investimentos em países emergentes.

Esse foi o motor da profusão de ofertas iniciais de ações, os chamados IPOs, observada nos anos seguintes e que, em meio à queda da Selic, acabou captando o imaginário — e o bolso — de uma parcela daqueles que ocupam o alto da pirâmide social brasileira. Por tudo isso, o número de investidores chegou rapidamente a meio milhão.

Quando a crise financeira mundial de 2008 estourou, vários analistas passaram a defender que a popularização da bolsa brasileira era um fenômeno passageiro e que despencaria junto com o Índice Bovespa. Em outras palavras: era um erro usar evidências de curto prazo para tentar provar uma tendência de longo prazo.

A reação positiva da economia brasileira e a maturidade dos investidores, que não saíram em disparada, desmentiram os pessimistas. “Depois do que vivemos nos últimos anos, está longe de ser uma loucura ter como objetivo chegar a 5 milhões de investidores”, diz Edemir.

A primeira grande arrancada poderá acontecer já em setembro. A Petrobras prepara aquela que poderá ser a maior capitalização da história. O processo está envolto em dúvidas. Mas, caso seja um sucesso, pode superar a capitalização feita pelo banco britânico Royal Bank of Scotland, que captou 24 bilhões de dólares em 2008, até agora a maior de todos os tempos.

Operações desse tipo têm sido sinônimo de novos investidores no mercado de ações. Foi assim nos grandes IPOs realizados na bolsa nos últimos anos, como os da própria BM&F, da Bovespa, Redecard e Santander. Em 2010, um ano em que a bolsa brasileira não exibe a mesma exuberância de períodos recentes, o fenômeno voltou a ocorrer.

O total de aplicadores parecia ter estacionado em cerca de 550 000 até que, em julho, veio a oferta de 9,7 bilhões de reais do Banco do Brasil e, de uma hora para a outra, mais de 40 000 pessoas entraram no mercado.

Mesmo com o certo pessimismo que ronda o cenário financeiro mundial, a expectativa da bolsa é que dezenas de milhares de investidores sejam atraídos por uma eventual oferta bem-sucedida da Petrobras.

Para as empresas listadas em bolsa, os investidores individuais brasileiros são um componente valorizado no conjunto de aplicadores, que também inclui os fundos estrangeiros e os institucionais locais. Como não agem em bloco, eles são como âncoras que diminuem as idas e vindas no preço da ação.

“As companhias que dependem dos grandes aplicadores, como fundos de hedge estrangeiros, costumam ver seus papéis sofrer fortes quedas quando um deles decide ir embora”, diz Geraldo Soares, superintendente de relações com investidores do Itaú Unibanco.

Do ponto de vista da BM&F Bovespa, chegar aos 5 milhões de investidores brasileiros faz parte de um plano maior de aumentar a demanda por ações. Em outras frentes, a bolsa busca atrair investidores individuais estrangeiros e fundos de alta frequência comandados por computadores, que recentemente infestaram o mercado americano.

A favor de seu plano, Edemir usa as estatísticas registradas por bolsas internacionais, sobretudo as de países emergentes. Na China, 73,7 milhões de pessoas (5,5% da população) investem diretamente em ações. Na Coreia do Sul, o número é de 3,7 milhões (7,5% dos coreanos).

Em mercados maduros, como o americano, mais da metade das famílias é dona de ações. No Brasil, esse fenômeno dá os primeiros passos — o percentual é de apenas 0,3%.

Para entender quem já investe na bolsa e quem pode se juntar a ela nos próximos anos, a BM&F Bovespa encomendou uma pesquisa ao instituto de pesquisa Plano CDE. Entre 12 de julho e 4 de agosto, 600 pessoas foram ouvidas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

O resultado mostrou que a expansão de 2004 a 2009 foi capitaneada majoritariamente por homens (eles são 75% do total) e, de modo geral, seguiu o caminho clássico desbravado pelos americanos nos anos 50 do século passado, quando aconteceu a primeira onda de popularização em larga escala de um mercado de ações.

O investidor médio brasileiro é casado (60%), está na parte de cima da pirâmide social (59% têm renda superior a 6 000 reais) e foi atraído pela possibilidade de ter uma rentabilidade maior (48%).

A pesquisa também deixou claro que, para crescer, a bolsa terá de atrair um número maior de investidores das classes B e C, famílias com renda entre 2 500 e 6 000 reais. O primeiro passo nesse sentido será dado nas próximas semanas, quando a BM&F Bovespa lançará a campanha “Quer ser sócio?”, estrelada por Pelé. 

Com cerca de 40 milhões de reais para serem investidos até o final do ano que vem em TV, rádio, cinema e imprensa escrita, a campanha, a primeira desde a década de 90, deve ter uma visibilidade similar

às das marcas Brastemp e Ipiranga. Até o final de dezembro, o foco da campanha será em Curitiba, Belo Horizonte e Campinas. Durante esse período, a BM&F Bovespa vai medir a resposta do público e o poder de absorção das corretoras instaladas nessas cidades. A partir do ano que vem, a campanha terá cobertura nacional.

Caso consiga fazer o número de investidores brasileiros crescer 730% nos próximos quatro anos e quatro meses, Edemir terá garantido bem mais do que seu emprego. Até hoje, economistas de diferentes linhas foram incapazes de chegar a um acordo sobre quais são todos os fatores que determinam o crescimento econômico.

“Mas há cada vez mais evidências de que o desenvolvimento do sistema financeiro aumenta, sim, o crescimento econômico”, diz Ralph Chami, economista do FMI especializado no assunto. O mercado de crédito, formado pelos bancos e títulos de dívida, é o que tem o maior efeito, mas o papel das bolsas de valores é visto como crucial.

“Isso sem contar que o mercado de ações é a maneira mais eficiente de alocar recursos”, diz o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da gestora Quest. “Não tem interferência de ideologias e políticas industriais. A empresa publica seus resultados trimestralmente, deixa claro quais são seus planos, é tudo transparente.”

O Brasil dos últimos anos é um exemplo do poder que o mercado de ações tem de catapultar negócios. Desde 2004, 159 companhias captaram 227 bilhões de reais na bolsa brasileira via oferta inicial de ações ou em operações subsequentes. Isso significa metade dos desembolsos do BNDES no período.

A própria Petrobras não teria como sonhar em captar todo o dinheiro necessário para o pré-sal se não fosse a bolsa — a empresa está perto de seu limite de endividamento. Fora dos holofotes, a Triunfo, grupo com sede em São Paulo que atua nos setores de portos, concessões rodoviárias e geração de energia, captou 513 milhões de reais em 2007 e dobrou de tamanho nos últimos três anos.

“Se tivéssemos desistido de ir para a bolsa, não teríamos dado esse salto”, diz Carlo Bottarelli, presidente do grupo. “Não existe dinheiro mais barato que o do mercado de ações.”

Apesar do avanço dos últimos anos, o Brasil ainda é um novato em termos de número de companhias listadas — o que também revela seu potencial. Em todo o país, somente 464 empresas estão na bolsa. A China tem 1 700, e a Espanha, 3 435. As poucas empresas que tiveram acesso à BM&F Bovespa se destacam pelo tamanho.

Mesmo numa comparação internacional, a bolsa brasileira se sobressai pelo alto valor de mercado das companhias listadas. No Brasil, a média é de 3 bilhões de dólares, segundo dados da agência de risco Standard&Poor’s, número 30% superior ao da Alemanha e da França e três vezes maior do que o do Japão e da Inglaterra.

“No Brasil houve uma concentração de ofertas de grandes empresas justamente porque havia muitas fora do mercado, mas a tendência é que mais e mais companhias de tamanho médio sigam o mesmo caminho”, diz José Olympio Pereira, corresponsável pelo banco de investimento do Credit Suisse.

Pelos cálculos de Edemir, existem 15 000 empresas brasileiras com faturamento entre 100 milhões e 400 milhões de reais, das quais cerca de 200 teriam condições de estrear no mercado de ações até o final de 2014. Outro acesso de confiança aguda?

Levando em conta o ritmo das mudanças registradas no Brasil nos últimos anos, é melhor não descartar essa hipótese — mesmo com todas as incertezas que ainda pairam sobre a economia mundial.

Em tempos de necessidade crescente de investimento para sustentar a expansão do país e de suas empresas — sem privilégios, sem concentração e com os riscos e os bônus divididos —, a democratização da bolsa seria uma excepcional notícia.

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