O empresário Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas, a maior companhia têxtil do Brasil, reduziu recentemente a freqüência de suas viagens. Nos últimos dois anos, ele foi aos Estados Unidos mais de 40 vezes - em média, uma vez a cada quinzena. Josué estava ocupado em administrar pessoalmente a integração da Springs, maior fabricante americana de produtos têxteis, comprada pela empresa de sua família no final de 2005. A reestruturação exigiu o fechamento de dez fábricas nos Estados Unidos, num processo de transferência da produção para o Brasil encerrado no início deste ano. Desde então, as três fábricas americanas que restaram são tocadas por um presidente local, o executivo americano Tom O';Connor, que antes ocupava a vice-presidência da Springs. "Agora diminuí as viagens para lá pela metade", diz Josué.

A redução de suas visitas à operação americana é um exemplo de uma mudança recente de seu papel dentro da Coteminas, onde construiu toda a sua carreira. Josué está à frente da empresa desde o fim de 2002, quando seu pai, José Alencar, deixou a Coteminas para assumir a vice-Presidência da República. Formalmente ele hoje concentra várias atribuições dentro do grupo. Além de controlador, presidente do conselho de administração e principal executivo da Coteminas, a holding controladora, Josué é diretor de relações com investidores da Springs Global, a nova empresa operacional resultante da compra da Springs. "Ele sempre tomou as decisões estratégicas e operacionais porque conhece o setor como ninguém", diz o sócio de um fundo de investimento acionista da Coteminas. "Gosto de participar de tudo", admite Josué, que muitas vezes atende seus telefonemas diretamente, dispensando secretárias. Ele conseguiu alimentar esse estilo de gestão por muito tempo. A Coteminas nasceu como um pequeno negócio na cidade mineira de Montes Claros, no final da década de 60. Ao longo dos últimos anos, já sob o comando de Josué, transformou-se na maior empresa têxtil brasileira. Com a compra da Springs, deu um salto. São 25 fábricas espalhadas por quatro países, 15 000 funcionários e um faturamento global de 4,4 bilhões de reais em 2007. Aos 44 anos, Josué é reconhecido por sua capacidade de trabalho e pelo estilo espartano. Ainda assim, um único homem seria capaz de conduzir uma operação tão grande e complexa? Muitos dos investidores da empresa passaram a acreditar que não. Segundo um deles, por falta de tempo na agenda de Josué, uma visita da equipe de marketing a um grande varejista vem sendo adiada há meses. "Ele não tem tempo para ir, mas também não libera seu pessoal para ir sozinho", diz.

Em parte por causa dessa pressão, aos poucos Josué começa a compartilhar o poder dentro da companhia. Uma das grandes mudanças em sua rotina está nas reuniões do conselho de administração. Na holding que controla todas as operações, Josué preside um conselho com 12 integrantes - oito familiares dos fundadores da empresa e apenas três representantes de acionistas minoritários, entre os quais os fundos de pensão estatais Previ e Funcef. Mas na Springs Global, companhia operacional que abriu seu capital em 2007 e onde estão acontecendo as maiores transformações em termos de governança, a família tem menos influência. O conselho conta com oito membros - quatro deles externos, como Marcelo Medeiros e Roger Wright, ex-sócios no banco Garantia.

Poder compartilhado

O que mudou após a compra da americana Springs
Antes
Na Coteminas, Josué presidia um conselho com 12 integrantes - oito familiares dos fundadores da empresa e apenas três representantes de minoritários
Os executivos eram tradicionalmente formados dentro da Coteminas - alguns chegaram a acumular quase quatro décadas na companhia - e alinhados às decisões de Josué
O próprio Josué era o principal interlocutor de analistas e investidores. Na prática, outros compromissos do presidente inviabilizavam a comunicação com o mercado
Agora
As diretrizes da companhia são defi nidas por um novo conselho, de oito membros. Quatro deles vêm do mercado fi nanceiro, como Marcelo Medeiros, ex-sócio do banco Garantia
Foram contratados executivos de fora, como Edward Cardimona, ex-diretor global de criação da Nike que assumiu o desenvolvimento das marcas da Coteminas em 2007
Até o final deste ano, a companhia terá um analista de relações com investidores no país. Ele manterá uma agenda de eventos - como almoços e apresentações

Na nova companhia, Josué também está às voltas pela primeira vez com um time de executivos que não foram formados na cultura da Coteminas - a tradição era apostar nas "pratas da casa", a ponto de alguns executivos acumularem quase 40 anos de empresa. "Os funcionários sempre foram muito alinhados com o Josué e ele raramente era contestado", diz um dos novos acionistas. Essa política começa a ser revista. Executivos de diferentes companhias e setores têm sido recrutados para posições-chave desde 2006. Há dois anos, o brasileiro Flávio Barbosa, ex-diretor do Citigroup, assumiu a diretoria financeira da Springs Global. Em 2007, o americano Edward Cardimona, ex-diretor global de criação da Nike, assumiu a área de desenvolvimento das marcas da empresa. Para melhorar o relacionamento com o mercado, Josué está trazendo Gustavo Kawassaki, de 29 anos, ex-analista de um banco americano. Contratado no ano passado para cumprir a função a partir dos Estados Unidos, Kawassaki está prestes a se mudar para o Brasil, onde deverá iniciar uma agenda de encontros para retomar os contatos com os analistas do mercado financeiro.

Lidar de maneira hábil com esse novo papel será fundamental para reverter os resultados operacionais do grupo. Em 2007, a Springs Global teve um prejuízo de 429 milhões de reais - 40% maior do que no ano anterior. Em grande medida, esse número foi um efeito colateral da aquisição da Springs. A reestruturação da companhia americana exigiu 200 milhões de dólares apenas para a transferência de máquinas e teares para o Brasil, derrubou a produção e prejudicou o abastecimento de varejistas brasileiros. (Durante o período de transição, Josué privilegiou as redes dos Estados Unidos, onde os contratos são de longo prazo.) Há explicações para todos os problemas - mas hoje Josué está aprendendo que, normalmente, sócios externos esperam por resultados mais rápidos. "Perdemos o entusiasmo com a empresa", diz Guilherme Affonso Ferreira, presidente da Bahema Participações. Em parceria com a Rio Bravo, do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, a Bahema gere um fundo de investimento que comprou ações do grupo em 2005. Desde então, a participação desses papéis na carteira do fundo caiu de 15% para os atuais 6%. Outros investidores parecem demonstrar o mesmo desinteresse. As ações da Springs Global acumulam queda de cerca de 50% desde o IPO no dia 27 de julho de 2007, ante um aumento de 13% na Bovespa no mesmo período. Boa parte da impaciência do mercado se refere à falta de informações sobre o andamento de planos como os de início de produção na Europa e na Ásia, discutidos já há quase dois anos e ainda não concretizados. (Um acordo com uma empresa européia está sendo finalizado e deve ser anunciado nos próximos dias.) O primeiro trimestre de 2008 mostrou uma ligeira recuperação, mas o lucro foi de apenas 1,3 milhão de reais. "No fim do ano, devemos ter um lucrinho de novo", diz Josué. Os investidores esperam que ele esteja certo.