O engenheiro João Paulo tem 35 anos e um emprego de diretor numa grande rede de supermercados. Ele também cultiva uma ambição na carreira, a de galgar postos ainda mais altos, talvez a presidência de uma empresa. João Paulo é casado e pai de dois filhos, de 8 e 10 anos. Nos últimos tempos, sua mulher, Helena, tem feito pressão para que a família deixe São Paulo. Ela foi recentemente assaltada num semáforo. João Paulo também já teve um carro roubado. Ele próprio gostaria de ter uma vida mais saudável e tranqüila, longe da insegurança e agitação de uma grande metrópole. O problema é que ele esperava deixar São Paulo quando estivesse próximo da aposentadoria. Ou melhor, quando sua ambição profissional já tivesse se concretizado. Agora surgiu uma oportunidade para que João Paulo realize o sonho de sua mulher. O dono de uma pequena rede de supermercados no interior de São Paulo quer contratá-lo como principal executivo do negócio. Se aceitar a proposta, João Paulo vai atender aos anseios da família por mais qualidade de vida. Por outro lado, teme pela sua carreira. Afinal, vai estar longe dos headhunters. Também deixará de participar de seminários e coquetéis, eventos em que pode formar sua rede de relacionamentos. Em resumo, João Paulo se assusta com a idéia de estar enterrando sua brilhante carreira. João Paulo tem razão em temer pelo seu futuro profissional? O que é mais importante, a tranqüilidade da família ou a carreira? João Paulo está diante de um dilema com o qual muitos executivos deparam ao longo de suas carreiras. Por ser uma pessoa com ambição de galgar posições de destaque numa grande empresa, talvez a presidência, acho que ele tem razão em pensar estar comprometendo o seu futuro profissional. Diretor de uma grande empresa aos 35 anos, ele se encontra num momento decisivo. Essa é a fase da vida profissional em que se traçam definitivamente os objetivos de uma carreira. Sair do seu atual emprego para assumir uma posição fora de São Paulo, mesmo que seja como principal executivo, não é o caminho certo para alcançar aquele objetivo. O mercado do varejo ainda é carente de profissionais qualificados. As exigências de perfil têm se modificado muito nos últimos anos. A demanda por executivos desse setor é crescente, principalmente com a entrada de grandes redes internacionais e de investimentos daquelas que já se encontram no Brasil. Indo para uma empresa de pequeno porte e distanciando-se do mercado de um grande centro, a probabilidade de ascensão na carreira de João Paulo estará limitada. Relacionar-se com executivos, atualizar-se em relação às tendências de mercado e participar de cursos de desenvolvimento profissional patrocinados pelas grandes corporações são aspectos que deixarão de fazer parte do seu dia-a-dia. Meu conselho: João Paulo deve dar continuidade à sua carreira em São Paulo e transferir a sua residência para uma cidade próxima, com facilidade de acesso, onde sua família poderá ter uma melhor qualidade de vida. Dessa forma, estará minimizando o seu dilema e, provavelmente, no futuro, não terá de se cobrar pela eventual frustração de seus próprios objetivos e das necessidades de sua família. Laís B. Passarelli é psicóloga, antropóloga, socióloga, com mestrado em carreiras profissionais pela USP. Atualmente é headhunter em São Paulo na empresa Passarelli Consultores Objetivamente, penso que João Paulo deve aceitar a proposta. As justificativas são simples. Se ele fizer um benchmark com pessoas bem-sucedidas na vida, verá que elas são modelo porque sabem gerenciar bem as complexidades do dia-a-dia. Para elas, o trabalho é um dos ingredientes, a família outro, as atividades sociais e culturais outro. João Paulo tem um problema potencial em casa, que pode ser agravado. Ele não deve esquecer que hoje, mais do que nunca, o que vale são as relações de interdependência. E, além de tudo, na sua família, ele é minoria. Por outro lado está sendo pouco inovador, uma vez que acha que o único foco de oportunidade está em São Paulo. Sugiro a ele que pare para pensar. João Paulo deve incluir na sua "lenda pessoal" a possibilidade de continuar sendo um executivo de sucesso fora de São Paulo. Se ele aceitou conversar e discutir a proposta é porque isso representa um ganho. Não é comum pessoas talentosas, de 35 anos, e ambiciosas, como é o caso de João Paulo, perderem tempo com conversas só por necessidade de auto-afirmação. Conclusão: João, não sofra por antecipação! Aproveite a chance de ser o número 1 e equilibre sua vida aumentando o prazer com a sua família. Essa atitude vai fazê-lo crescer pessoal e profissionalmente, deixando-o mais competitivo no mercado de trabalho, uma vez que estará reforçando sua auto-confiança e contribuindo para o seu amadurecimento. Nelson Junque Júnior é vice-presidente de recursos humanos para a América Latina da Johnson & Johnson João Paulo está tendo a oportunidade que muitos almejam: sair de um grande centro em busca de qualidade de vida. As maiores cidades do país se tornaram lugares onde se vive sob tensão, medo de sair à noite, preocupação com filhos entrando na adolescência. Viver numa cidade menor não significa se ausentar do mundo. Hoje, as informações chegam onde quer que estejamos. Só se isola quem quer. Como principal executivo de uma empresa no interior, João Paulo poderá se concentrar mais no trabalho, já que as outras preocupações terão terminado. A carreira de João Paulo jamais estará ameaçada. Ele poderá colocar como condição para aceitar o emprego a possibilidade de participar de cursos, seminários, encontros dentro e fora do país. A transição da família e o sucesso na carreira são importantes, e João Paulo poderá conciliar as duas coisas. Assim, vai realizar-se plenamente tanto pessoal quanto profissionalmente. A advogada carioca Valquíria Mac-Dowell é sócia da Improvement, consultoria especializada em cursos no exterior. Ela e a família se mudaram para Curitiba por causa da violência do Rio de Janeiro Na minha opinião, João Paulo não tem razão em temer pelo seu futuro profissional por diversas razões. Primeiro porque a oportunidade oferecida está num nível superior à ocupada hoje. Com a troca, ele estaria atendendo à sua ambição de comandar uma empresa. Além da oportunidade de ser o principal executivo (diz o ditado: é melhor ser cabeça de rato do que rabo de leão), ele teria igualmente ganhos em qualidade de vida. Viver no interior não significa estar longe dos seminários e headhunters. (Estes, acredite, estendem seus tentáculos para muito além das grandes cidades.) João Paulo nunca deverá agir como um excluído. Nos dias de hoje, a tecnologia não permite mais essas desculpas. Diversas ferramentas, como videoconferência, e-mail, voice-mail, bate-papo via Internet (principalmente com mini- câmeras), reduzem sensivelmente as distâncias e permitem que se tenha acesso às pessoas em qualquer lugar do planeta. Na verdade, é importante estar próximo - não fisicamente perto. É igualmente importante não se deixar levar pelo fascínio e conforto da vida no interior. É muito fácil se acomodar e preferir os novos amigos dos churrascos de fim de semana em vez de participar de grupos de debates com outros executivos. Finalmente, sendo um executivo de sucesso aos 35 anos, ele terá o reconhecimento merecido e poderá aproveitar a chance de ser o principal executivo de um negócio ainda maior. Quem sabe, no futuro, ele possa retornar à capital numa posição melhor do que a atual. E, assim, poderá aumentar a segurança e a tranqüilidade da fa-mília, sem perda de qualidade de vida. Nesse caso, como em muitos outros, família e carreira são totalmente compatíveis. Antonio Enéas Reis é professor do curso de MBA da Business School São Paulo e vice-presidente da DPS Consult e da FESA, empresas de headhunting Os personagens e o enredo desta seção são fictícios. Mas os especialistas chamados a dar sua opinião são genuinamente de carne e osso. Caso você tenha uma história a contar, entre em contato conosco pelo e-mail: avidacomoelae@email.abril.com.br O sigilo é garantido