Assistir a vídeos de internet já foi, um dia, uma grande aventura. Muitos devem lembrar de Use Filtro Solar, um filme que, muito antes do surgimento do YouTube, virou febre vagando de e-mail em e-mail pela rede. Mas a primeira lembrança do leitor talvez não tenha a ver com o conteúdo do filme, uma sequência de imagens rápidas e trilha sonora recheada de frases que mais tarde fizeram a alegria de telões de formaturas, festas de casamento e convenções de fim de ano de empresas (“Jogue fora seus velhos extratos bancários"; “Dance”; “Você não é tão gordo quanto imagina”). É provável que muitos recordem antes da dificuldade de assistir à gravação — um arquivo enorme que, para as conexões de internet da época, bem poderia levar uma tarde inteira para ser baixado no computador. Ainda assim, depois de copiado, a qualidade das imagens era apenas um esboço daquilo que se via na televisão.

Do sucesso do filme do filtro solar para cá, muita coisa mudou. O YouTube, no início criticado pela baixa qualidade dos vídeos, transformou-se num dos maiores êxitos da história da internet. Hoje, boa parte de seu acervo está disponível em alta definição, com um padrão de resolução até dez vezes maior que o dos primeiros vídeos exibidos por lá. Segundo a Cisco, fabricante de equipamentos de telecomunicações, os vídeos já são responsáveis por 40% dos dados que trafegam na internet mundial. Mas, até pouco tempo, esse salto esteve associado a uma categoria específica de vídeos: os gravados e com um aviso de “carregando” sempre à vista. Os vídeos ao vivo, que têm requisitos técnicos mais complexos, acabaram ficando para trás — mas isso, aos poucos, também começa a mudar.

Sinais dessa virada estão por toda parte. Segundo a Comcast, o tempo que os americanos gastaram assistindo a transmissões de vídeo em tempo real na rede cresceu 648% no ano passado, para 1,4 bilhão de minutos por mês. A audiência do YouTube com vídeos sob demanda, no mesmo período, cresceu 68%. Em 2010, o próprio YouTube reforçou sua série de eventos ao vivo, o YouTube Live, que foi ao ar pela primeira vez em 2008. Em novembro, um show do roqueiro Bon Jovi foi transmitido de Nova York para internautas de todo o mundo. Dados sobre audiência não foram revelados, mas estima-se que tenha alcançado a casa dos milhões. Durante o evento, os votos de mais de 25 000 espectadores tiveram peso na escolha das músicas tocadas no show (no Brasil, o primeiro YouTube Live irá ao ar em novembro com shows de artistas da música sertaneja).

O Facebook foi outra gigante a entrar nesse terreno ao anunciar, no início de novembro, uma parceria com o Livestream, uma das maiores plataformas de vídeo ao vivo no mundo. A novidade permite que usuários transmitam imagens em tempo real a partir das Fan Pages, a principal ferramenta utilizada por empresas no site. Isso significa, entre outras coisas, que companhias terão agora um canal de vídeo ao vivo direto com seus fiéis seguidores. O impacto dessa iniciativa não é difícil de prever — somente a rede de cafeterias Starbucks, dona da maior Fan Page no Facebook, possui 5 milhões de fãs.

Ao contrário de outros fenômenos recentes da internet, o boom dos vídeos ao vivo não está associado a nenhuma tecnologia em particular. Trata-se da evolução de todo um quadro, que tem como principais vetores a melhoria global dos serviços de banda larga e de algoritmos de compressão dos vídeos (a tecnologia que determina o tamanho dos arquivos de vídeo). Um estudo publicado recentemente pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, avaliou a qualidade da conexão de internet de 72 países. Em todos eles, detectou-se uma melhora geral de 49% nos serviços de banda larga nos últimos três anos. Hoje, 48 países, Brasil incluído, já estariam usufruindo com qualidade os principais serviços de internet existentes — transmissão de vídeo de baixa definição e videoconferência básica entre eles. Em 2008, eram apenas 18. Ainda, outros 14 países estariam preparados para o que foi chamado de “aplicações do amanhã”, que inclui serviços como TV de alta definição por IP e comunicação em vídeo de alta qualidade (em 2008, o único país da lista era o Japão).

Internet

O usufruto de ferramentas de vídeo ao vivo pela internet, como se vê, ocorre em diferentes estágios mundo afora. No Brasil, os benefícios da melhoria da banda larga podem ser verificados sobretudo em empresas que há tempos usam serviços de vídeo. Há cinco anos, a Fundação Getulio Vargas começou a ministrar cursos de pós-graduação com esse tipo de ferramenta. No início, sempre que um professor dizia “boa noite” em sala de aula, a saudação era ouvida pelos alunos em sua casa ou escritório até 30 segundos depois. Pequenas dúvidas dos estudantes causavam longas interrupções, e o atraso teve de ser incorporado ao ritmo das aulas. “Era preciso dosar o timing de tudo”, diz Stavros Xanthopoylos, diretor da FGV Online. Com o avanço das tecnologias, as aulas ficaram mais interativas e produtivas. As turmas puderam aumentar de 30 para mais de 200 alunos. “Hoje as aulas funcionam praticamente em sincronia”, afirma Xanthopoylos.

As grandes novidades do segmento de chat em vídeo, porém, deverão surgir a partir de agora em dispositivos móveis. O iPhone 4, lançado oficialmente em julho, é o primeiro aparelho da Apple a suportar o Facetime, um aplicativo de conversação em vídeo. Atualmente, o serviço funciona apenas através de redes Wi-Fi. O Galaxy Tab, tablet recém-lançado da Samsung, já vem de fábrica com uma ferramenta de chat em vídeo que funciona sobre redes 3G, desenvolvido pela americana Polycom. A popularização desse tipo de serviço tem chamado a atenção de fornecedoras de sistemas de telepresença corporativa. Em outubro, a Cisco lançou no mercado americano sua primeira solução de telepresença para usuários residenciais, um aparelho que pode ser acoplado ao televisor e à internet. “O consumidor final está cada vez mais poderoso”, diz Anderson André, diretor na Cisco no Brasil. “Negócios como esse hoje fazem sentido.”

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