Nós e os robôs

Uma nova pesquisa da London School of Economics feita em 17 países sustenta que as máquinas não roubam empregos — em alguns casos, elas até aumentam os salários

São Paulo – A indústria cinematográfica sempre explorou o fascínio das pessoas pelos robôs. A galeria de máquinas que se tornaram famosas nas telas é respeitável. Desde o robô Maria, do clássico alemão Metrópolis, de 1927, passando por R2-D2 e C3-PO, de Guerra nas Estrelas, até o recente Eu, Robô, inspirado nos contos do escritor americano de ficção científica Isaac Asimov.

Em boa parte das obras cinematográficas, é latente o deslumbramento pela tecnologia criada pelo próprio homem. Fora do universo da ficção, as máquinas sempre despertaram o medo de que, em algum momento, substituiriam os seres humanos. Esse temor, que na maior parte do século 20 era imaginário, agora é algo real para trabalhadores de todo o mundo.

De acordo com uma estimativa da consultoria McKinsey, 60 milhões de empregos industriais em escala global deverão ser substituídos por robôs até 2025. Motivo de desespero, de horror?

Um estudo recente produzido pelo Centro de Performance Econômica, da London School of Economics, diz que não. Para os economistas Georg Graetz e Guy Michaels, autores de Robots at Work (“Os robôs no trabalho”, numa tradução livre), a ideia das máquinas como sinal de desemprego é insustentável.

Graetz e Michaels, ambos da LSE, analisaram 14 setores industriais de 17 países (entre eles Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul, mas não o Brasil) no período de 1993 a 2007. O foco deles foi a densidade robótica, uma variável que considera o estoque de robôs em relação ao número de horas trabalhadas por pessoas.

Esse foi o termômetro usado por uma razão bem simples. Caso as máquinas estivessem roubando empregos, o número de robôs cresceria, enquanto as horas trabalhadas por pessoas diminuiria. Mas a conclusão do estudo não foi essa. “Vimos que a adoção de robôs nas linhas industriais aumenta a produtividade, amplia o tamanho dos negócios e permite que os trabalhadores substituídos por robôs encontrem novas ocupações dentro das próprias empresas”, diz Graetz.

Igualmente curiosa e inesperada foi a constatação de que os trabalhadores, nessa transição, registraram uma elevação salarial — pequena, é verdade, mas ainda assim positiva. Esse é o quadro geral, considerando a totalidade da força de trabalho. Quando se examinam os subgrupos, percebe-se que os funcionários com baixa e média qualificação tendem a perder o emprego ou ser realocados para uma posição com remuneração pior.

“Os funcionários altamente qualificados são os que sempre capturam os ganhos salariais embutidos na introdução de novas tecnologias”, diz Graetz. Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi o resultado da geração de riqueza produzida pelos robôs. A adoção de máquinas no período estudado permitiu aumento anual de 0,37 ponto percentual no PIB do grupo de países analisados.

No caso da produtividade do trabalho, a expansão foi similar: 0,36 ponto percentual por ano. A título de comparação, no auge da Revolução Industrial na Inglaterra, de 1850 a 1910, a contribuição do motor a vapor para a produtividade do trabalho foi de 0,35 ponto percentual por ano.

Inteligência artificial

De acordo com dados da consultoria BCG, hoje apenas 10% das tarefas dentro de uma fábrica podem ser realizadas por um robô. A estimativa é que, em 2025, esse percentual suba para 25%. No futuro ainda mais distante, a expectativa é a adoção em larga escala de máquinas inteligentes.

Hoje, as pesquisas em robótica dedicam-se a criar robôs capazes de aprender novas funções e lidar com situações inesperadas no mundo do trabalho. Com câmeras e sensores, o robô Baxter, criado em 2012 pela startup americana Rethink Robotics, é capaz de identificar objetos e reconhecer a presença de pessoas. Seu software permite que ele aprenda novas funções. Tudo isso a um custo baixíssimo: 25 000 dólares.

Além de inteligentes, os robôs estão cada vez mais fortes. Os da empresa alemã Kuka são capazes de levantar um carro de 1 tonelada — como fizeram numa apresentação recente com um carro elétrico da montadora americana Tesla. Antes mantidos apenas na área industrial, os robôs agora começam a entrar no setor de serviços.

A varejista americana Amazon tem a seu dispor um grupo de máquinas, batizadas de Kiva, que coletam produtos nos armazéns. A contar pela pesquisa de Graetz e Michaels, não há nada a temer. Desde que, claro, a força de trabalho em seu país seja altamente qualificada — o que, infelizmente, está longe de ser o caso do Brasil.