Os multiplicadores de talentos

No banco Garantia, eles formavam jovens milionários. Hoje, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira se dedicam a uma rede de multiplicação de talentos que vai muito além - de estudantes universitários a gestores públicos

Nas últimas três décadas, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira construíram juntos negócios memoráveis. Nos anos 70 e 80, ganharam fama com o Garantia, o mítico banco de investimento que inaugurou no Brasil o conceito de meritocracia. Em 1993, fundaram a GP Investimentos, que viria a se tornar a maior empresa de private equity da América Latina. O trio também daria tiros certeiros no mundo “real”.

Em 1982, Lemann, Telles e Sicupira compraram a Lojas Americanas, uma das grandes cadeias de varejo do país. Não sabiam nada sobre o setor. Mas foram aprender com quem transformara um mercadinho de Bentonville, no Arkansas, na maior rede varejista do mundo. Os mandamentos de Sam Walton foram fundamentais para reorganizar a Americanas.

Passados quase 20 anos, ela é hoje uma das maiores empresas desse mercado – na internet tem liderança absoluta com as marcas Americanas. com e Submarino. Nenhuma empreitada do trio, porém, é tão conhecida atualmente quanto a ABInBev, a maior cervejaria do mundo, da qual Lemann, Telles e Sicupira são os maiores acionistas individuais.

A construção desse gigante global começou em 1989, com a compra da antiga Brahma. Depois de duas grandes fusões – com a antiga rival Antarctica e depois com a belga Interbrew -, eles conseguiram dar o golpe final, comprando a Anheuser-Busch, um ícone americano. Finanças. Varejo. Cerveja. O que esses três setores têm em comum?

Aparentemente, nada. Para Lemann, Telles e Sicupira, tudo. Nesses grandes negócios – e em todos os outros em que investiram seu tempo e dinheiro -, eles buscaram obsessivamente contar com as melhores pessoas. O que em muitas companhias não passa de bláblá- blá corporativo, para o trio sempre representou o alicerce.

Nos últimos anos, essa premissa começou a extrapolar os limites de seus negócios – ainda que os programas de formação dentro das companhias, como o de trainees da AmBev, continuem sendo vistos como vitais para a perpetuação do sucesso. Hoje, Lemann, Telles e Sicupira têm uma rede que conta com fundações para promover o desenvolvimento de empreendedores, de estudantes universitários e até de professores da rede pública.

“Essa máquina de multiplicação de talentos não visa só aos nossos interesses comerciais. Ela visa à nossa satisfação filantrópica e à construção de um Brasil melhor”, costuma afirmar Lemann, que hoje dedica quase 25% de seu tempo a essas iniciativas.


As origens dessa máquina remontam ao Garantia. Até sua venda para o Credit Suisse, em 1998, o banco foi uma fábrica de jovens milionários – uma turma ambiciosa e afeita ao risco que embolsava boladas extraordinárias ao fechar grandes negócios para o banco.

“O Jorge Paulo foi conhecer de perto como funcionava o sistema de partnership do Goldman Sachs e instalou algo parecido no banco”, diz Claudio Haddad, ex-sócio do Garantia e hoje presidente da escola de negócios Insper (entidade sem fins lucrativos que nasceu de doações feitas pelo próprio Haddad e por Lemann, Telles e Sicupira).

Naquela época, o Garantia avaliava cerca de 800 candidatos por ano para contratar, no máximo, 20 recém-formados – nenhum dos novatos era aceito antes de passar pelo crivo do trio. O exemplo dos líderes deixava claro para os funcionários da instituição que formar gente boa era tão importante quanto ganhar dinheiro – e uma condição fundamental para ascender no banco.

Aprendemos que o insubstituível é também ‘impromovível’ “, afirma Marcelo Barbará, ex-sócio do Garantia e um dos donos da gestora de recursos paulista LanxCapital. (Em sua empresa, Barbará replica vários conceitos incorporados nos tempos do Garantia, como a necessidade de ter um bom programa de trainees e de transformar os melhores talentos em sócios.)

AOS POUCOS, FICOU NÍTIDO para os sócios que era preciso aumentar as frentes de multiplicação de talentos. Desenvolver gente dentro das próprias empresas já não bastava. Hoje, uma das engrenagens mais poderosas dessa máquina é a Fundação Estudar, criada em 1991 para oferecer bolsas de estudo de graduação e pós-graduação no Brasil e no exterior.

Ali, assim como nas empresas onde Lemann, Telles e Sicupira investem, a ordem é fazer mais com menos. São apenas seis funcionários, instalados num escritório modesto em São Paulo, para coordenar todo o trabalho de atração e seleção de milhares de jovens interessados em vagas em escolas de primeira linha.

No ano passado foram quase 5 000 inscritos para apenas 34 aprovados – Lemann, Telles e Sicupira faziam parte da banca de avaliação final. Desde sua fundação, quase 500 jovens já passaram por esse funil. Um dos primeiros foi o carioca João Castro Neves, hoje presidente da AmBev. No início dos anos 90, recém-formado em computação pela PUC do Rio de Janeiro, Castro Neves tinha o sonho de fazer um MBA no exterior.


Sem dinheiro para bancar o curso, bateu na porta da Fundação Estudar. Com o apoio financeiro, pôde ir para a Universidade de Illinois, em Chicago. “Assim que recebi a bolsa, o Jorge Paulo, que já era uma lenda, me disse: ‘Paga um dia, sem juros, e vai me mandando artigos do que você achar interessante no curso’ “, diz Castro Neves. “Eu mandava os artigos pelo correio e ele depois ligava para agradecer e conversar sobre a economia americana. Eu tinha 24 anos! Você quer exemplo melhor do que esse?”

Não há como negar que a Estudar tenha se tornado também uma espécie de celeiro para abastecer de talentos as empresas nas quais o trio investe. Além de Castro Neves, outros exbolsistas acabaram assumindo posição de destaque em companhias ligadas a Lemann, Telles e Sicupira.

É o caso do carioca Bernardo Hees, presidente da ALL Logística. Em meados dos anos 90, ele procurou a Estudar para custear um mestrado em administração pela Universidade de Warwick, na Inglaterra. Na volta do curso, durante um dos eventos promovidos pela Estudar para integrar alunos e ex-alunos, Hees conheceu Alexandre Behring, então presidente da ALL.

A ex-estatal Rede Ferroviária Federal havia sido recémadquirida pela GP, mudara de nome e passava por uma transformação brutal. Em 1998, mesmo sem entender nada de ferrovias (como Hees fez questão de alertar Behring), ele entrou na ALL como analista de logística. Sete anos depois, assumiu o posto de presidente. “Desde que fui para a ALL contratei uns 20 ex-bolsistas da Estudar”, diz Hees.

NAS FUNDAÇÕES, ASSIM COMO nas empresas em que o trio investe, alguns mantras são sagrados. Sonhar grande, ter “brilho no olho”, acreditar em meritocracia vale tanto para um trainee da AmBev quanto para um candidato a bolsista da Estudar ou para um empreendedor que busca o apoio da Endeavor (veja entrevista com Beto Sicupira na pág. 120).

O empresário Wilson Poit, dono da Poit Energia, umas das maiores empresas de aluguel de geradores do país, aprendeu na prática a força dessas crenças. Em 2002, Poit foi convidado a participar do programa de seleção da Endeavor, ONG internacional de apoio ao empreendedorismo, trazida para o Brasil no ano 2000 por Sicupira (para o começo das atividades, ele fez uma doação de quase 500 000 dólares).

Desde então, Poit teve vários encontros com o trio – e dessas conversas extraiu lições que usa no dia a dia para administrar seu negócio. “Esses caras me ensinaram que sonhar grande dá o mesmo trabalho de sonhar pequeno, que é preciso ter um negócio transparente, apreciado pelo mercado, pelos clientes e pelos investidores”, diz Poit.


Graças a eles eu fui aprendendo a ser ‘metido’.” Sua empresa já está presente em três países além do Brasil e faturou 85 milhões de reais no ano passado. Em 2010, Poit planeja dar dois passos decisivos para seu crescimento: montar o primeiro programa de trainees e distribuir stock options a seus executivos – tudo no melhor estilo Garantia.

Essa rede de multiplicação de talentos começa a espalhar resultados também pela esfera pública. Uma dessas frentes se dá pela Fundação Lemann, que tem como um dos principais objetivos modernizar a gestão dos sistemas públicos de ensino no país. Um de seus programas de maior alcance é o que oferece pós-graduação a diretores de escolas públicas.

Desde o início das atividades, em 2003, até hoje, quase 1 500 gestores, responsáveis por 800 000 alunos, já passaram por esse treinamento. Outra iniciativa é a da Fundação Brava, criada por Sicupira em 2000, cuja meta é patrocinar projetos de melhoria de gestão no setor público e em ONGs.

Em uma década, a Brava investiu em 14 projetos desenvolvidos em estados e prefeituras – nos quatro programas realizados em 2009, a fundação treinou cerca de 400 gestores públicos. A Estudar também começa a atrair gente que trabalha no go verno e que quer ganhar mais conhecimento.

O pioneiro desse movimento foi o gaúcho Mateus Bandeira, secretário de Planejamento e Gestão do Rio Grande do Sul, que ganhou uma bolsa em 2002 para fazer um MBA em Wharton, nos Estados Unidos. Os estudos e o contato com os fundadores da Estudar fizeram de Bandeira um gestor público obcecado por custos. “Como o Beto (Sicupira) costuma dizer, es sa é a única variável sob nosso controle”, afir ma ele. Graças a esse controle rigoroso, o governo gaúcho conseguiu reverter um quadro de insolvência fiscal que se arrastava por 37 anos.

Uma das grandes preocupações do trio em relação a essa rede é garantir sua perpetuidade – uma preocupação diretamente relacionada ao legado que Lemann, Telles e Sicupira querem deixar. Cada uma das instituições criou mecanismos que no futuro devem garantir não apenas sua independência financeira como sua capacidade de gestão.


Na Endeavor, que conta com uma lista de dezenas de voluntários – nomes como Fabio Barbosa, presidente do Santander, e Pedro Passos, um dos controladores da Natura, entre outros -, os empreendedores selecionados se comprometem a doar 2% do capital social de suas empresas à ONG. Os bolsistas da Estudar são estimulados a devolver à fundação o dinheiro investido em seus estudos.

“Quase 70% dos alunos que passaram por aqui já quitaram suas bolsas”, afirma Thaís Junqueira Franco Xavier, diretora executiva da fundação. Para ajudar a definir os rumos da Estudar, em 2006 foi formada uma diretoria da qual Lemann, Telles e Sicupira não participam (eles estão no chamado conselho vitalício).

Um dos diretores é o advogado Ricardo Veirano, que assumiu o posto em 2008. Exbolsista, ele hoje participa dos processos de seleção, atua como mentor de alguns bolsistas e ajuda a desenvolver novas formas de arrecadação de recursos para a Estudar. Um dos recentes eventos para obter recursos para a fundação foi um jantar na casa de Lemann, em dezembro do ano passado – na ocasião, o trio fez uma doação igual ao valor levantado junto aos demais convidados.

Se a fundação continuasse tão dependente dos três, sua longevidade poderia ser comprometida”, diz Veirano. Para Lemann, Telles e Sicupira, esse é um risco que não se pode correr.