Mudança na rua downing?

Nas eleições mais acirradas no Reino Unido em 100 anos, o desajeitado Ed Miliband tem a chance de levar os trabalhistas de volta ao poder — com uma agenda mais à esquerda

São Paulo – No dia 26 de março, durante uma sabatina na TV britânica, Ed Miliband, candidato a primeiro-ministro pelo Partido Trabalhista, foi duramente confrontado por um eleitor: “Você não acha que seu irmão seria um nome melhor para o cargo?” A pergunta era uma referência à disputa fratricida entre Ed e seu irmão mais velho, David, pela liderança do Partido Trabalhista em 2010.

Num caso de rivalidade shakespeariana, David, ex-ministro das Relações Exteriores, lançou sua candidatura e, um dia depois, ficou sabendo que Ed seria seu principal adversário. David perdeu por menos de 2 pontos percentuais de diferença, abandonou a política e mudou-se para Nova York.

Já Ed tornou-se o líder trabalhista e passou frequentemente a ser comparado a Caim. O episódio da traição do caçula, que cresceu à sombra do irmão famoso, foi explorado à exaustão pela imprensa inglesa. Como se esse histórico não fosse ruim o suficiente, o líder trabalhista é considerado um orador fraco, mal-ajambrado e, nas redes sociais, sua imagem é comparada à do comediante Mister Bean ou à do atrapalhado personagem Wallace, da animação Wallace e Gromit (o próprio Ed Miliband reconhece a semelhança).

Era esse conjunto de aspectos negativos que dava tranquilidade ao Partido Conservador, do primeiro-ministro David Cameron, antes do início da campanha para as eleições do dia 7 de maio. Mas o fato é que a exposição das últimas semanas acabou fazendo com que Miliband passasse a ser visto com outros olhos por um número crescente de eleitores, especialmente devido à ênfase que tem dado a temas do momento, como desigualdade.

Na disputa eleitoral mais acirrada dos últimos 100 anos, o trabalhista tem chances reais de tirar Cameron da casa que atualmente ocupa na rua Downing, número 10, em Londres, a residência oficial do premiê. De acordo com as últimas pesquisas, há um empate técnico entre os dois principais partidos. “A situação é tão apertada que é impossível prever o resultado”, afirma Nicola Wildash, analista do instituto de pesquisa YouGov.

Essa indefinição tem impactado o mercado de câmbio, que vive hoje a maior volatilidade desde o auge da crise financeira. Como é provável que o partido vencedor não obtenha um número de cadeiras suficiente para governar sozinho, espera-se um período de instabilidade após a eleição até a formação de um novo governo. As propostas dos candidatos são um ingrediente a mais nesse quadro de tensão.

Cameron prometeu um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, uma tentativa de roubar eleitores do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip, em inglês), criado em 1993 com a missão de tirar o país do projeto de integração europeu. O eleitorado mais à direita gostou; já os empresários tiveram calafrios.

Mas é Miliband quem mais tem preocupado o mercado. O programa trabalhista defende a criação de uma alíquota de 50% no imposto de renda dos mais ricos, uma nova taxa para imóveis avaliados em mais de 2 milhões de libras (o equivalente a cerca de 9 milhões de reais) e o fim de um sistema no qual milionários estrangeiros residentes no Reino Unido tenham isenções fiscais.

Filho de uma polonesa que escapou dos nazistas na Segunda Guerra Mundial e de um professor marxista belga da London School of Economics, Miliband ganhou o apelido de Ed, o Vermelho dos tabloides ingleses. Tomando como parâmetro Tony Blair, primeiro-ministro trabalhista de 1997 a 2007, Miliband está mesmo mais à esquerda, mas de forma alguma suas propostas voltam às maluquices defendidas pelo partido nos anos 70.

Nas eleições de 1974, o Partido Trabalhista prometia implementar o planejamento da atividade industrial. “Miliband tem uma agenda de regulamentação, mas ele acredita no capitalismo. Talvez não no anglo-saxão. Seu ideal parece mais próximo do capitalismo alemão”, diz Tim Bale, professor de ciência política na Universidade Queen Mary, de Londres, e autor do recém-lançado Five Year Mission: The Labour Party Under Ed Miliband (“Uma missão de cinco anos: o Partido Trabalhista sob a li­derança de Ed Miliband”, numa ­tradução livre).

Para Rodney Barker, professor de política na Lon­don ­School of Economics, o que mais diferencia Miliband dentro do Partido Trabalhista é sua posição sobre os Estados Unidos. “Enquanto o governo Blair era quase submisso à Casa Branca, Ed deve buscar uma política externa mais independente”, diz Bar­ker.

Quem vai entrar para a história?

Caso os trabalhistas saiam das urnas à frente dos conservadores, o mais provável é que sejam obrigados a atrair partidos menores para compor um novo governo. Nesse caso, os candidatos mais prováveis para o casamento são os membros do Partido Nacionalista Escocês, mais à esquerda do que os trabalhistas (apesar de Miliband ter jurado de pés juntos que não formaria uma coalizão com eles num debate na TV britânica em meados de abril).

Para os escoceses, a austeridade precisa ser combatida com mais e mais gastos — longe da proposta trabalhista, que fala em cortar o déficit público todos os anos para chegar ao equilíbrio fiscal em 2020. “Não há mais espaço para gastar sem um plano de onde vem esse dinheiro”, diz Stewart Wood, cotado como membro de um eventual ministério trabalhista.

Considerando a imagem que tinha antes da campanha eleitoral começar, Miliband é a sensação do momento, mas o conservador Cameron tem chances iguais de sair vencedor. Os eleitores reconhecem o sucesso de seu governo na área econômica. Depois dos piores momentos da crise, o país cresceu 1,6%, em 2013, e 2,8%, no ano passado, o melhor resultado entre os países do G7.

Em dois anos, 1 milhão de novos postos de emprego foram criados. O problema de Cameron é que a renda não cresceu no mesmo ritmo e a sensação é de que a economia não melhorou tanto assim. Se ganhar, Cameron vai ter tempo para reverter essa situação. Caso Ed saia à frente nas urnas, terá a chance de mostrar que é ele o Miliband que merece entrar para a história.