REVISTA EXAME

Com boa gestão, a água apareceu em NIterói

Rio de Janeiro – A cidade de Niterói, vizinha da capital fluminense, tinha em 1999 uma população de cerca de 450 000 habitantes, dos quais 120 000 não contavam com acesso a água tratada. As casas da região oceânica, que hoje abriga condomínios de luxo, eram abastecidas com água quase sempre amarelada, captada em poços artesianos.

A Cedae, estatal de saneamento básico do governo do Rio de Janeiro, afirmava que era impossível aumentar o abastecimento na cidade, porque simplesmente não havia de onde tirar mais água. O argumento era uma meia verdade. Niterói realmente não tem fontes de água doce.

É provável que esse tenha sido o motivo para os índios tamoios chamarem a região de Niterói, que significa “águas escondidas” em tupi-guarani. A justificativa da Cedae caiu por terra quatro anos depois, quando o serviço de água encanada foi universalizado em Niterói por uma nova concessionária de sanea­mento, a Águas de Niterói — e com exatamente o mesmo volume captado pela estatal.

Na prática, a mesma quantidade de água que abastecia 320 000 pessoas em 1999 passou a ser suficiente para servir 500 000 no ano passado.

Essa multiplicação das águas realizada em Niterói nada tem a ver com milagre, mas com uma mudança radical de gestão. Ela se traduziu em redução de perda de água na rede de distribuição, ou seja, antes de chegar à casa do cliente. Quinze anos atrás, quase 40% da água destinada a abastecer o município era perdida em tubulações rachadas ou corroídas.

Uma parte menor era desviada em ligações clandestinas, os famosos “gatos”. O fato é que a empresa não conseguia faturar 40% do que poderia vender, embora houvesse 120 000 consumidores sedentos por pagar pela água.

No ano passado, o índice de perda da cidade caiu para 16%, uma ótima marca para o país, onde a média de perda é de 37%. Numa cidade como Macapá, no Amapá, o desperdício é de 77%.

A perda de água na distribuição é danosa por vários motivos. Exige a retirada de mais volume dos mananciais, o que põe em risco o abastecimento da população em momentos de estresse hídrico — problema que aflige hoje a Região Sudeste, especialmente o estado de São Paulo.

Mas os danos vão além. “O desperdício afeta o caixa das empresas e, com isso, atrasa o investimento em esgoto, geralmente financiado com a receita da água”, afirma Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, especializado em saneamento. No caso de Niterói, o serviço de coleta e tratamento de esgoto foi ampliado de 20%, há 15 anos, para os atuais 90%. 

A virada começou em 1999, quando a empresa Águas de Niterói, do grupo privado Águas do Brasil, venceu a licitação para assumir o saneamento da cidade. A concessionária colocou em prática um plano de gestão que combinou medidas simples e tecnologia sofisticada.

Os funcionários passaram a marcar o tempo de cada reparo feito, fosse de um vazamento visível na rua, fosse de um enterrado no solo. Também passaram a relatar os percalços encontrados em cada atendimento. Essas informações serviram para reformular as equipes de manutenção.


Agora, dependendo do problema, a equipe sai com mais ou menos funcionários e diferentes ferramentas. Antes, tinha sempre o mesmo formato. As informações de campo também passaram a alimentar um sistema informatizado que hoje é o Centro de Controle Operacional, uma sala onde técnicos monitoram a rede 24 horas por dia.

Pelo telão, que reproduz toda a rede da cidade, é possível saber em tempo real a vazão de água em cada canal, abrir e fechar válvulas e detectar alguns tipos de vazamento. O sistema de informações também é usado pela área que planeja as reformas da rede. Quando detecta muitos vazamentos na mesma rua, por exemplo, o software dá o sinal de que a estrutura pode estar avariada.

Não é por acaso que as empresas privadas investem na modernização das redes logo que assumem uma concessão. O sucateamento dos canais, ramais e equipamentos é uma das principais causas de desperdício na distribuição.

“No nosso caso, trocar tubulação e equipamentos não é uma despesa, e sim um meio de aumentar a receita”, diz Guilherme Paschoal, diretor da Odebrecht Ambiental, empresa que opera sistemas de água e esgoto em 165 municípios. A Odebrecht Ambiental usou uma fórmula semelhante à de Niterói há 18 anos, quando assumiu o serviço de saneamento em Limeira, no interior de São Paulo.

A cidade paulista foi a primeira do país a transferir o serviço de água e esgoto a um operador privado. Na época, Limeira perdia 45% da água na distribuição. Hoje, perde 15%. O mais incrível: em vez de aumentar, a empresa reduziu o volume de água captado desde que assumiu o serviço.

Nesse período, a população da cidade passou de 250 000 para 290 000 habitantes. O tratamento de esgoto em Limeira foi universalizado em 2011 — antes de a Odebrecht Ambiental assumir, só 2% eram tratados.

Mas, se a lógica desse setor parece tão simples, por que a maior parte do país continua com saneamento tão precário? Alguns números dão a pista: apenas 10% da população brasileira é atendida por empresas privadas de saneamento, enquanto 90% são servidos por estatais estaduais e municipais.

“A quantidade de amarras e controles a que a administração pública é submetida acaba com a eficiência”, afirma Jerson Kelman, ex-presidente da Agência Nacional de Águas, da Agência Nacional de Energia Elétrica e da concessionária de energia Light.

“Quem trabalha com honestidade no setor público tem dificuldade para comprar, contratar, demitir e até vender.” É claro que há estatais eficientes e também empresas privadas ineficientes. Mas, exceções à parte, os números falam por si. O caminho para cortar o desperdício e atender melhor a população parece cada vez mais cristalino — como é um copo de água bem tratada.

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