A startup dos astros da tecnologia vai dar certo?

Quatro dos principais nomes do setor de tecnologia estão investindo numa startup de software de gestão, a MarketUp. Será que vai dar certo?

São Paulo — O histórico do setor de tecnologia da informação no Brasil tem pouco destaque mesmo se comparado com economias menores, como a da Argentina, de onde saíram o site de compras Mercado Livre e o de turismo Decolar.com. Por aqui, a lista de empreendedores multimilionários e de executivos que alçaram voos maiores é menor do que se poderia supor pelo tamanho do mercado local.

É por causa desse contexto que existe muita curiosidade em relação à MarketUp, startup que conseguiu reunir entre seus sócios quatro dos principais nomes do setor de tecnologia no país. Romero Rodrigues é um dos fundadores do comparador de preços Buscapé — comprado pelo grupo sul-africano Naspers por 342 milhões de dólares em 2009.

Hélio Rotenberg é presidente do Grupo Positivo, líder em vendas de PCs no Brasil. Alexandre Hohagen foi vice-presidente para a América Latina de dois gigantes do Vale do Silício: Google e Facebook. Carlos Azevedo foi dono da Tesla, primeira grande empresa de desenvolvimento de sites do país, e criador do site de entretenimento Guia da Se­mana, vendido para o grupo RBS em 2008.

O que reuniu esses quatro investidores na MarketUp foi o potencial do mercado de softwares de gestão no Brasil, estimado em 9,1 bilhões de dólares. Existem 16 milhões de empresas no país, 93% delas micro e pequenas. Esse é o segmento da MarketUp, que entrou em operação há um ano e já tem 50 000 usuários. Até agora, os quatro sócios investiram cerca de 13 milhões de reais. A meta é aplicar mais 2 milhões até a metade de 2016. 

O software da MarketUp permite automatizar desde o controle de estoque até as vendas, passando pela emissão de notas fiscais. Nesse sentido, é um típico software de gestão. A diferença em relação a todas as opções disponíveis no mercado é que faz tudo isso de graça. A receita vem de anunciantes que pagam para expor pro­dutos aos usuários de forma direcionada.

A lógica do negócio é simples. Os usuá­rios não precisam gastar para ter um software de gestão, mas deixam que a MarketUp tenha acesso a todas as informações sobre suas empresas. Com dados sobre o estoque e o fluxo de caixa, a startup consegue enviar propagandas feitas sob medida para cada momento. Bancos podem oferecer linhas de crédito, e fornecedores podem anunciar seus produtos. Isso é o que o Bradesco e o Grupo Martins, dono do maior atacado do país, têm feito nos últimos meses.

A ideia de montar o negócio foi de Azevedo, presidente da startup. “Estava procurando investidores, mas principalmente pessoas com experiência”, afirma. Romero conhece os negócios na internet e a parte técnica do software.

Hohagen tem experiência em expandir empresas no mercado latino-americano e no modelo de publicidade. Já Rotenberg traz o conhecimento do setor de varejo. Além do dinheiro, todos os nomões em torno da MarketUp também têm colaborado para as estratégias de médio e longo prazo.

A taxa de sucesso de startups é baixa — mais de 90% fracassam. Contar com um fundador experiente é uma forma de tentar driblar essa estatística desfavorável. “A vantagem de reunir executivos experientes é o net­working que eles trazem”, afirma Tales Andreassi, professor de empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas. Os contatos dos sócios já trouxeram alguns resultados.

Antes de ser lançado oficialmente no fim de 2014, o software já tinha 8 000 empresas e contratos de publicidade com o Grupo Martins e o Bradesco. Tudo isso ajuda, mas a meta da MarketUp não é fácil.

No Brasil, o setor de software de gestão é dominado por gigantes com faturamento bilionário, como a Totvs — líder no país —, a alemã SAP e a americana Oracle. Desde 2011, startups como ContaAzul, Nibo e ZeroPaper têm surgido no segmento de micro e pequenas empresas. Em maio, a ZeroPaper foi comprada pela americana Intuit, a maior do segmento no mundo.

Além de enfrentar um mercado concorrido, outro desafio da MarketUp é provar que o modelo de publicidade é viável. Nos Estados Unidos, a Outright, vendida para o grupo de internet GoDaddy em 2012, foi uma das que tentaram viver de propaganda e acabaram desistindo. “Nossos usuários não estavam dispostos a clicar nos anúncios. É preciso ter milhões de clientes para que valha a pena”, diz Steven Aldrich, criador da Outright e vice-presidente da GoDaddy.

Hoje, a empresa cobra por assinaturas. Marcelo Nakagawa, professor de empreendedorismo da escola de negócios Insper, compara o modelo que depende de anúncios com o tipo de negócio do Google e do Facebook, que usam dados dos usuários para fazer anúncios direcionados.

“Uma coisa é usar dados de um usuário, como os lugares que ele frequenta. Outra bem diferente é saber tudo o que se passa dentro da empresa dessa pessoa. Há informalidade e os comerciantes não se sentem confortáveis em ceder os dados”, diz. Os quatro sócios confiam que essa barreira pode ser vencida. Nesse sentido, a parceria com o Sebrae é crucial. A startup venceu uma concorrência e agora é o sistema de gestão indicado pela entidade.

A volta dos que já foram

O que Romero, Rotenberg, Hohagen e Azevedo estão fazendo é comum no mundo da tecnologia. Empresários e executivos de sucesso acertam a mão, fazem fortuna e continuam empreendendo. Jack Dorsey, um dos criadores da rede social Twitter, é o melhor exemplo disso. Pouco depois de deixar a empresa em 2008, lançou a startup de gestão financeira e pagamentos Square.

Em julho, voltou para a rede social e agora ocupa a presidência das duas empresas. O Twitter vale 21 bilhões de dólares; e a Square, 6 bilhões. Mas há também histórias de fracasso. Janus Friis, um dos criadores do serviço de chamadas de vídeo e voz pela internet Skype, vendido para a plataforma de comércio eletrônico eBay, em 2005, por 2,6 bilhões de dólares, não teve muito sucesso nas empreitadas seguintes.

Em 2007 criou o serviço de televisão pela internet Joost, que não decolou. Em 2013 montou o Vdio, de streaming de vídeos sob demanda, que durou menos de um ano. Ainda é uma questão em aberto se a MarketUp vai abrilhantar a biografia de seus fundadores ou tirar um pouco do brilho.