Furnas tem lucro fabuloso – mas só no papel

Furnas foi uma das empresas que aceitaram substituir contratos antigos por novos, que asseguravam as concessões por mais 30 anos

A estatal de energia Furnas, um braço da Eletrobras, bateu um recorde no ano passado: o lucro, de 2,9 bilhões de dólares, foi o mais alto de sua história e pôs fim a quatro anos seguidos de prejuízo. Pena que o resultado é mais bonito no papel do que na vida real.

Explica-se: as receitas de Furnas dispararam em 2016 porque a empresa reconheceu no balanço 14 bilhões de reais em indenizações pela renovação antecipada de algumas de suas concessões de linhas de transmissão, num programa criado pelo governo Dilma Rousseff em 2012.

Furnas foi uma das empresas que aceitaram substituir contratos antigos por novos, que asseguravam as concessões por mais 30 anos — mas previam uma remuneração menor paga pelo governo federal. Para compensar, foi prometida uma indenização, só agora reconhecida.

O detalhe é que, embora Furnas tenha podido incluir o valor da indenização no balanço de 2016, o acerto prevê que o dinheiro comece a ser efetivamente pago apenas neste ano — e diluído em prestações nos próximos oito anos. “O resultado claramente está inflado”, diz Fernando Bresciani, analista da consultoria WhatsCall Research. Procurada, Furnas não quis comentar.


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usinas compõem o parque gerador de Furnas, somando uma potência instalada de 17 300 megawatts. Com essas usinas, a estatal responde por quase 10% da energia produzida no país. A empresa tem também mais de 25 500 quilômetros de linhas de transmissão.


77%

foi quanto o segmento de transmissão representou na receita operacional de Furnas em 2016 — historicamente, era a geração que respondia pela maior parte do faturamento. A indenização pela renovação das concessões causou um aumento de 721% nas receitas de transmissão.


2,6 milhões

de reais foi o valor abatido do lucro de Furnas em 2016 por supostos pagamentos fraudulentos nas subsidiárias do sistema Eletrobras. A companhia é alvo da Operação Lava-Jato e contratou um escritório americano para realizar uma investigação independente.