Escolas públicas de estados pobres avançam

Dedicadas a ensinar a ler, a escrever e a fazer contas, escolas públicas de comunidades carentes em estados mais pobres, como o Piauí, conseguem avançar na educação

São Paulo – Se existe algo que marcou a vida da dona de casa Maria de Jesus Luz, foi ouvir pela primeira vez o filho João Gabriel, de 8 anos, ler um texto completo, sem vacilar na pronúncia das palavras. “Numa tarde de junho, ele chegou da escola e leu uma receita de bolo de chocolate porque queria que eu fizesse”, diz Maria de Jesus. “Foi emocionante. No começo do ano, ele mal entendia o que lia.”

Mãe e filho vivem na área rural de Teresina, capital do Piauí, um dos estados mais pobres do Brasil. O PIB é igual ao do Congo, e a renda per capita, de 367 reais, é a segunda pior do país. Mas o Piauí tem se destacado numa área em que o Brasil patina — a educação. Foi o estado que mais galgou posições no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb.

Foram seis colocações desde a criação do indicador em 2005 — saiu da 23a posição, de uma lista de 27, para a 17a. A nota do estado, de 4,4, ainda é baixa — a média nacional é 5 —, mas os exemplos de superação de escolas locais, com orçamentos muito apertados, chamam a atenção.

“A maioria dos estudos pedagógicos se concentra em avaliar as falhas das escolas para evitar erros”, diz Karina Rizek, coordenadora de Projetos Educacionais do Instituto Natura, que pesquisa o sucesso de escolas piauienses. “No Piauí, estamos vendo o que deu certo para replicar.” 

A receita por lá é tão simples quanto a de um bolo caseiro. João Gabriel estuda na Bom Princípio, uma escola de 1o ao 5o ano, com sete salas de aula, sem biblioteca nem refeitório. Mas no ranking do Ideb ela é a melhor do estado, dedicada aos primeiros anos do ensino. A nota é 7,7.

O que faz a diferença é o currículo e como ele é aplicado. Apesar de oferecer ciências, geografia e história, as prioridades são o português e a matemática. Ou seja: ensinar a ler, a escrever e a calcular. Quem dá sinais de que está ficando para trás vai direto para as aulas de reforço.

O filho de Maria de Jesus terminou 2011 com problemas e começou 2012 numa jornada escolar dupla. Além das aulas pela manhã, por seis meses retornou à escola três tardes por semana. Nesses dias, por 4 horas se dedicou a resolver exercícios e a participar de jogos educativos, acompanhado de perto pela professora. O corpo docente é um ingrediente à parte.


As 13 professoras dedicam um terço da carga horária ao aperfeiçoamento de sua formação: preparam aulas com acompanhamento de uma pedagoga e frequentam quinzenalmente os cursos oferecidos pela Secretaria de Educação do município. “Professores qualificados são insubstituíveis”, diz Luiz Cláudio Costa, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pelo Ideb.

Outras escolas com a mesma estratégia de se concentrar no básico também avançam, mesmo quando precisam contornar limitações mais severas. A escola Cícero Barbosa Maciel, em Pedra Branca, no Ceará, tem um orçamento tão apertado que depende da boa vontade da comunidade.

Há quatro anos, os familiares fizeram um mutirão para consertar 50 carteiras, numa demonstração de que estão dispostos a apoiar a instituição. “Cerca de 60% dos pais são analfabetos, mas querem participar da educação dos filhos como podem”, diz a diretora Maria Ducilene da Silva. A Cícero tem nota 8,1 no Ideb.

Na Escola Municipal São Miguel, em Quixaba, no sertão de Pernambuco, as aulas de reforço são obrigatórias e ocorrem onde for possível: na biblioteca, nos corredores e até embaixo das árvores do jardim. “Nosso trabalho é transformar alunos em leitores competentes, não importa o sacrifício”, diz a secretária de Educação do município, Adiene de Medeiros.

Nos últimos dois anos, a nota da escola foi de 5,2 para 7,8. “Recursos são importantes, mas dinheiro não garante qualidade”, diz o economista Gustavo Ioschpe, especialista em educação. “Escolas que fazem o básico com pouco são a prova disso.” O Congresso brasileiro quer obrigar que o dinheiro do pré-sal seja destinado à educação. Exemplos como o da Bom Princípio, porém, mostram que nada substitui uma lição de casa benfeita.