Já vivemos uma bolha?

A avalanche de investidores estrangeiros na bolsa brasileira e a escalada do Ibovespa são alertas para o mercado. A boa notícia é que os preços das ações -- ainda -- não perderam a ligação com a realidade

Bolhas especulativas nos mercados de ações são tão comuns que o historiador britânico Edward Chancellor, autor de Salve-se Quem Puder, um dos principais livros sobre especulação financeira, comparou-as ao Carnaval. Ambos ocorrem periodicamente, provocam uma tremenda euforia e terminam em ressaca.

Nas últimas semanas, cada vez mais investidores, banqueiros e gestores de recursos no Brasil passaram a se perguntar se a bolsa local não está se preparando para mais uma folia. O fluxo de recursos externos é recorde e o Índice Bovespa sustenta, há meses, a maior valorização em dólar entre os principais mercados globais.

O barulho é tanto que até o amalucado comentarista financeiro da TV americana, Jim Cramer, criador do programa Mad Money, se encantou com o Brasil — segundo ele, nosso país é “ultra, ultra hot”. Após a oferta de ações do Santander, a Bovespa passou a ser a quarta maior bolsa do mundo em volume de aberturas de capital — perdeu apenas para Hong Kong, Xangai e Nova York.

Marcas tão impressionantes começam a gerar a incômoda sensação de que o mercado pode estar se aproximando do oba-oba que se viu entre 2007 e o início de 2008, um período em que — é consenso hoje — a bolsa viveu uma bolha tanto no preço das ações quanto na quantidade de IPOs (a sigla em inglês para oferta inicial de papéis).

 
“Os gestores de grandes fundos internacionais querem papéis de companhias brasileiras, mas não aquelas pouco negociadas, que podem até ser fáceis de adquirir, mas são difíceis de vender”, diz Charles Stewart, presidente do banco de investimento Morgan Stanley na América Latina.


 
Em razão dessa mudança, empresas que há muito planejam ir a mercado estão repensando suas estratégias. “Hoje, sabemos que precisamos aumentar nosso faturamento para conseguir fazer um IPO”, diz Marco Stefanini, fundador da empresa que leva seu sobrenome e é uma das maiores prestadoras de serviços de tecnologia do país.
A Stefanini faturou 510 milhões de reais em 2008 e, segundo seu dono, só terá porte para estrear na bolsa quando chegar próximo da marca de 1 bilhão de reais.

Além do tamanho, os investidores estão mais interessados no destino que o dinheiro terá. De forma geral, os IPOs que têm como objetivo gerar recursos para os sócios, e não capitalizar a empresa, estão levantando suspeitas. Banqueiros dizem que esse foi um dos pecados da abertura de capital da Tivit, empresa de tecnologia do grupo Votorantim, que abriu o capital pouco antes do Santander.

O plano original era captar, no mínimo, 632 milhões de reais, mas não houve demanda suficiente e a companhia só conseguiu levantar 575 milhões de reais na oferta principal — um dinheiro integralmente destinado aos sócios. Duas semanas após a estreia na Bovespa, as ações da Tivit estavam 4% abaixo do valor de lançamento.

Um dos maiores estudiosos de bolhas especulativas, o economista americano Robert Shiller, autor do célebre livro Exuberância Irracional, diz que uma delas se forma quando preços altos se sustentam mais pelo entusiasmo e excesso de confiança dos investidores do que por fundamentos reais de valor.

Uma das formas de medir o grau de conexão dos investidores com a realidade é comparar o preço das ações de um país com o de outros mercados. Apesar de a Bovespa ter sido a que mais valorizou em dólar entre as principais bolsas do mundo neste ano — 129% até o dia 9 de outubro –, o valor das ações das empresas brasileiras está na média dos países emergentes.


A comparação é feita por meio de um índice conhecido como preço-lucro. Ele mede a relação entre o preço dos papéis e o lucro das companhias — e calcula em quantos anos um investidor consegue reaver o dinheiro aplicado nas ações de uma empresa recebendo apenas os lucros distribuídos por ela.

Quanto maior o índice, mais tempo o investidor precisa esperar e, por isso, mais cara está a ação. Aqui, a média desse indicador para a Bovespa é de 15 anos — menos que os 16 anos da bolsa chinesa ou os 20 da indiana. “Antes, a Bovespa era bem mais barata em relação às outras bolsas emergentes”, diz André Comunale, professor de economia da pós-graduação do Ibmec, no Rio de Janeiro. “A alta dos últimos meses acabou com a diferença.

Além da perspectiva de crescimento econômico, o Brasil é visto com interesse por ter um mercado de capitais sólido e a aprovação das três principais agências globais de classificação de risco, que conferiram ao país o grau de investimento, uma espécie de selo de qualidade. Investidores dos países ricos também estão ávidos por diversificação.

“Há um movimento forte de saída do dólar e de compra de moedas de países emergentes. Isso tem impacto direto na alta da Bovespa”, afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e sócio da Quest Investimentos. Com a gigantesca injeção de recursos promovida pelo governo americano para amenizar a recessão por lá, começou a sobrar dólar no mercado, provocando uma desvalorização mundial da moeda.

Para se proteger desse movimento, os investidores buscaram aplicações em reais, rublos e dólares australianos, entre outras moedas. Até o início de outubro, as entradas de dólares no Brasil superavam as saídas em 9,7 bilhões.

Com tantos dados positivos, por que, então, tem gente que está enxergando o risco de bolha? Os fundos de ações globais nunca investiram tanto dinheiro em empresas brasileiras como neste ano — foram 3,3 bilhões de dólares até o fim de setembro, mais do que os 2,2 bilhões no auge da euforia de 2007.


Diretamente na Bovespa, o saldo de aplicações internacionais chegou a 17 bilhões de reais nesse período, um recorde. Apesar de parte da alta das ações brasileiras nos últimos 12 meses ser explicada pela melhora do cenário externo e pela demonstração de força da economia local, há sinais de alerta.

Para Arminio Fraga, sócio da gestora de recursos Gávea e ex-presidente do Banco Central, não dá para sustentar esse ritmo de valorização da bolsa por mais um ano. Diz Henry Gonzalez, sócio da gestora paulista Fram Capital: “Os estrangeiros veem os astros alinhados para o Brasil. Se qualquer coisa der errado, deveremos ter novas quedas”.

Parte dos gestores está começando a olhar suas projeções para 2010 com mais cuidado. O pior cenário seria os países ricos voltarem a manifestar sinais evidentes de fraqueza econômica e provocarem uma fuga por segurança, o que derrubaria as bolsas de países emergentes. (Seria o que alguns economistas batizaram de crise em W — depois de um período de recuperação como estamos vendo agora viria uma nova queda brusca.)

Mesmo que a recuperação nos Estados Unidos e na Europa continue, é possível que haja percalços durante o processo de redução do excesso de dinheiro em circulação — o que também poderia causar quedas por aqui. Há a expectativa de que os juros subam em várias partes do mundo — inclusive no Brasil, como uma espécie de antídoto contra a elevação da inflação.

Mesmo com as perspectivas positivas da economia brasileira, com a Copa do Mundo de 2014, a Olimpíada de 2016 e certo clima de “já ganhou”, é bom o investidor lembrar que os excessos do Carnaval sempre acabam em dor de cabeça na Quarta-Feira de Cinzas.