Experiência que vem do outro lado do balcão na CVM

Leonardo Pereira, vice-presidente da Gol que vai assumir a Comissão de Valores Mobiliários, diz o que pretende fazer no posto de xerife do mercado

São Paulo – O carioca Leonardo Pereira passou as últimas semanas de julho recebendo ligações de amigos e executivos de mercado que queriam saber se “a história da CVM” era verdadeira. No dia 17 de julho, ele foi indicado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para assumir a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entidade máxima do mercado de capitais.

Até então, a maioria dos profissionais de mercado apostava que o sucessor de Maria Helena Santana no cargo seria alguém parecido com ela — que foi diretora da BM&F Bovespa — ou com seu antecessor, Marcelo Trindade, advogado especializado no mercado de capitais.

Ambos também foram diretores da CVM antes de chegar à presidência. Pereira não tem nada disso na bagagem. É formado em engenharia e economia e trabalhou 30 anos em bancos e empresas.

Desde 2009, é vice-presidente financeiro da companhia aérea Gol, cargo que só vai deixar quando sua nomeação para a CVM for publicada no Diário Oficial (até lá, a presidência é ocupada por Otavio Yazbek, diretor da CVM). Em entrevista a EXAME ainda na sede da Gol, em São Paulo, ele disse que a CVM não precisa fazer grandes mudanças na entidade.  

EXAME – Quais são seus planos para o início da gestão?

Leonardo Pereira – A CVM não precisa de grandes mudanças, precisa de continuidade. Os presidentes anteriores são diferentes entre si, mas seguiram uma linha semelhante, de querer melhorar a governança das empresas  e expandir o mercado. O número de companhias listadas na bolsa poderia aumentar daqui para a frente, apesar do inegável avanço dos últimos anos. 

EXAME – Muitos executivos defendem mudanças no Novo Mercado, segmento que reúne as empresas com a melhor governança da bolsa. O senhor concorda?

Leonardo Pereira – O Novo Mercado precisa evoluir, porque o mundo e os investidores mudaram desde que esse segmento foi criado, em 2000. Há novos desafios, mas ainda preciso estudar melhor o tema para saber que mudanças propor.

A Gol só não é listada nesse segmento porque há um limite máximo de participação de investidores estrangeiros no total de ações ordinárias (as únicas que podem ser emitidas no Novo Mercado). O papel da CVM é transmitir confiança para os investidores. Precisa ser ágil na resposta e permitir que o mercado cresça de forma segura. 


EXAME – Mas, hoje, os julgamentos da CVM podem levar anos. Como tornar o processo mais ágil? 

Leonardo Pereira – Empresas e órgãos reguladores de maneira geral precisam treinar mais seus profissionais, para que eles sejam capazes de resolver problemas com maior rapidez e segurança. Esse não é um problema só da CVM. É uma questão vital para o crescimento do Brasil e também para que o país tenha ainda mais relevância no exterior.

Maria Helena fez um trabalho in­te­ressante nesse sentido, tanto é que já presidiu a Organização Internacional das Comissões de Valores. Se há uma discussão im­portante na Índia ou na China, pre­cisamos saber o que é e, de preferência, participar dela, porque pode afetar os investimentos aqui. 

EXAME – Como sua experiência no setor privado deve influenciar sua gestão? 

Leonardo Pereira – Nos últimos anos, as mudanças da CVM aconteceram em cima de muita reflexão e diálogo com as empresas. Quero continuar esse processo. O mercado só funciona na base da credibilidade e da transparência.

Aprendi isso do outro lado do balcão. Participei, por exemplo, da emissão do primeiro título de dez anos de uma empresa brasileira no exterior, a Globopar, e da listagem da Net no Nível 2 de governança corporativa da bolsa. 

EXAME – O senhor estava sendo investigado pela CVM por não ter prestado as informações aos investidores de acordo com as regras da entidade, como executivo da Gol. Em julho, concordou em pagar 200 000 reais para encerrar o caso. Por quê?

Leonardo Pereira – Assinei um termo de compromisso com a CVM, o que não quer dizer que sou culpado e quis burlar as regras de forma internacional. Escolhi encerrar o assunto. Ocorreu o seguinte: quando o preço do petróleo disparou, no ano passado, revisamos nossas projeções de resultados e publicamos um comunicado ao mercado na internet, mas a CVM exigiu um fato relevante, publicado num jornal de grande circulação.

Depois, descumpri o prazo de preenchimento de um formulário de referência sobre esse assunto. Além disso, a CVM pediu que a Gol divulgasse previsões trimestrais, não só anuais. Resolvemos tudo.

EXAME – São exigências que a CVM pode rever em seu mandato?

Leonardo Pereira – Não sei. Muitas vezes, os executivos das empresas têm dúvidas sobre como agir, como publicar comunicados, o que fazer durante o período de silêncio. Temos de discutir e esclarecer mais esses pontos. E ser justos nas decisões, para não criar insegurança entre empresários e investidores.