Estas PMEs venceram a maior recessão da história do país

Pesquisa exclusiva aponta as pequenas e médias empresas que mais cresceram no Brasil nos últimos dois anos — bem em meio à maior recessão da história.

São Paulo – Diz o senso comum que uma crise econômica afeta de diferentes formas empresas de vários tamanhos — e que, quanto menores, mais frágeis elas são. Grandes companhias, afinal, encontram todo tipo de apoio na hora do aperto. O banco, apavorado com o tamanho do calote que pode levar, ajuda; o fornecedor dá uma mão; o cliente se mantém fiel às marcas líderes.

Para os pequenos, a coisa é bastante diferente. A recessão brasileira pegou as pequenas e médias empresas do país em cheio. Milhares de pequenos varejistas fecharam as portas, a taxa de mortalidade de franquias atingiu o pico histórico, pequenas indústrias não resistiram.

Essas empresas representam um terço do PIB e empregam mais da metade da mão de obra formal do país: se as PMEs vão bem, o país também vai bem. É justamente por isso que histórias como as dos três sorridentes empreendedores da foto acima são tão importantes. Eles pertencem ao seletíssimo grupo dos pequenos que estão se dando bem, muito bem, no período de maior baixo-astral econômico da história brasileira.

Numa parceria com EXAME, a consultoria Deloitte mapeia, desde 2006, as 100 pequenas e médias empresas que mais crescem no país. Na edição de 2016, as 100 companhias de maior destaque no ranking ampliaram suas­ receitas em 27% ao ano, em média, de 2013 a 2015. Entre as dez primeiras colocadas, a expansão anual variou de 60% a quase 180%.

“As empresas de menor porte, em geral, têm menos fôlego financeiro para enfrentar uma crise. As que se deram bem fizeram mais com menos recursos”, diz Heloisa Helena Montes, sócia da Deloitte e responsável pela pesquisa. Neste ano, a Deloitte dividiu o ranking de acordo com o tamanho das empresas.

Entre as que faturam até 30 milhões de reais, a que mais cresceu foi a construtora e incorporadora Pride, do Paraná: suas receitas aumentaram 176% ao ano, em média, de 2013 a 2015. Na faixa de 30 milhões a 100 milhões de reais de faturamento, a vencedora foi a Hahntel, de Santa Catarina, que monta linhas de produção para indústrias e cresceu 95% ao ano no período analisado pela Deloitte.

Outra construtora, a MPD Engenharia, de São Paulo, foi o destaque entre as empresas que faturam de 100 milhões a 450 milhões de reais, com uma expansão anual de 66%.

Parece milagre, mas não é. Segundo a consultoria, 75% das empresas que mais cresceram nos últimos dois anos investiram em tecnologia, 83% compraram novas máquinas e equipamentos e 83% lançaram novos produtos e serviços.

“A melhor defesa é o ataque”, diz Júnior Durski, dono da rede paranaense de restaurantes Madero, que está na 14a posição do ranking: o faturamento aumentou, em média, 55% ao ano, de 2013 a 2015, para 170 milhões de reais. As lições das pequenas que brilham na crise estão descritas nas páginas a seguir. Veja os principais fatores que explicam os bons resultados que elas tiveram nos últimos dois anos.

Gastar pouco, mesmo quando tudo vai bem

Cortar custos foi uma das principais medidas adotadas pelas pequenas e médias empresas pesquisadas pela Deloitte para enfrentar a crise atual: 88% delas disseram ter estabelecido metas de redução de despesas nos dois últimos anos. Mas as empresas que realmente ganharam dinheiro nesse período foram as que sempre tiveram o controle de custos no radar.

É o caso da construtora e incorporadora Pride, a empresa que mais cresceu de 2013 a 2015: suas receitas aumentaram, em média, 176% ao ano e chegaram a 7,8 milhões de reais. Fundada em 2011, a Pride vende apartamentos por meio do Minha Casa, Minha Vida, que financia a construção de moradias populares. Grandes incorporadoras chegaram a atuar nesse segmento, mas desistiram.

Como as margens são apertadas, só tem lucro quem consegue controlar as despesas nos detalhes e entregar no prazo, para receber os pagamentos rapidamente. “Sabíamos que ter custos baixos era crucial para nossa sobrevivência, então nos preocupamos muito com isso”, afirma Leonardo de Souza, um dos sócios. Segundo ele, no início, a empresa nem tinha escritório. “Trabalhávamos no carro, visitando terrenos e fazendo ligações por celular.”

Hoje, a Pride tem oito funcionários, que se espremem numa pequena sala comercial de Curitiba. “Quando todo mundo está no telefone, ninguém se ouve”, diz. Além de controlar as despesas administrativas, os sócios nunca entraram em disputa para comprar terrenos ou contratar fornecedores — a ordem é pesquisar e pechinchar. Graças a isso, o preço médio de um apartamento da Pride é de 125 000 reais, enquanto os concorrentes cobram 145 000 reais.

Outra empresa obcecada pelo controle de gastos é a Mundo Equipamentos, que aluga elevadores, gruas e outros equipamentos para construtoras e cresceu 69% ao ano de 2013 a 2015. Os cinco sócios são ex-funcionários da fabricante de bebidas Ambev, famosa pelas políticas agressivas de redução de custos, e decidiram adaptar algumas práticas da cervejaria e adotá-las na nova empresa.

Há reuniões semanais para discutir o volume de despesas de 13 “frentes de custos”, como telefonia, impressão e pessoal. Cada frente tem metas de desempenho e é coordenada por um profissional responsável por fazer sugestões de como gastar menos. Uma das sugestões que saíram dessas frentes foi a reorganização da logística.

Hoje, um mesmo grupo de funcionários cuida de diferentes serviços, como montagem e desmontagem de equipamentos e manutenção. No passado, as equipes eram especializadas e, com isso, precisavam se deslocar mais entre as obras. Com a mudança, a frota de veículos foi reduzida de 21 para 11 carros.

Outra sugestão foi o estabelecimento de um valor máximo para o reembolso de combustível, de 3,40 reais por litro. Quem paga mais caro precisa arcar com a diferença.

“Só pagamos se o funcionário abastecer apenas 10 litros para chegar a um posto mais barato”, diz Flávio Esteves, um dos sócios. Segundo ele, essa mudança diminuiu 15% das despesas com combustíveis. Fundada em 2011, a empresa ainda paga empréstimos tomados pelos fundadores para comprar os primeiros equipamentos, e não dá lucro. O plano é fechar 2018 no azul.

Achar nichos sem concorrência

Uma maneira de continuar vendendo mesmo quando a economia não ajuda é atuar em setores que, por ser muito específicos, são pouco concorridos. É essa a principal característica da Nanovetores, uma empresa de Santa Catarina especializada em produzir cápsulas de princípios ativos — que são usadas, principalmente, nas indústrias cosmética e têxtil.

Em 2013, a Nanovetores desenvolveu, para a marca de roupas Malwee, um tecido que hidrata a pele e, segundo a empresa, combate a celulite. A companhia foi fundada em 2009 pela química Betina Zanetti Ramos e por seu marido, o administrador de empresas Ricardo Ramos. Betina desenvolveu novas maneiras de encapsular princípios ativos para permitir que eles fossem usados nas indústrias de forma mais eficaz.

“Vender inovação não é fácil. Todo mundo acha legal, mas pouca gente quer pagar por isso. Nossa abordagem é mostrar que é possível melhorar os resultados”, afirma Ramos. Hoje, a Nanovetores fatura 9 milhões de reais, vende para 25 países e tem crescido 175% ao ano.

Empresas que atuam em setores mais concorridos têm de se virar. A Hahntel, que monta linhas de produção para indústrias, quase dobrou de tamanho no ano passado. Em 2013, a empresa mapeou os setores que continuavam investindo em automação e criou linhas mais modernas para a indústria farmacêutica e para as montadoras de automóveis de luxo.

Ela importou o primeiro “robô colaborativo” do país, que trabalha ao lado de funcionários e é usado para funções como aperto de parafusos e carga e descarga de material. Para continuar na mesma toada, a Hahntel precisará buscar um investidor e, com o capital, importar 4 000 desses robôs até 2020 para alugá-los. “Nem todas as empresas conseguem gastar 400 000 reais num equipamento desses, mas podem pagar 8 000 reais de aluguel”, diz José Rizzo Hahn Filho, fundador.

Buscar crédito fora dos bancos

Conseguir financiamento é uma das grandes dificuldades das empresas de menor porte — em qualquer cenário. A situação fica mais difícil numa recessão, quando os bancos, que são a fonte tradicional de recursos, passam a emprestar menos e a cobrar bem mais caro. Para tentar fugir do sufoco, um número crescente de PMEs tem buscado alternativas de financiamento.

Quem acha não tem do que reclamar. No fim de 2014, a fabricante de softwares Zenvia vendeu uma participação minoritária para o fundo DLM, de São Paulo, e para o BNDESPar, braço de investimento do BNDES. Levantou 71 milhões de reais com a operação, montante que seria impossível obter nos bancos num momento em que os juros cresciam.

Com fôlego para lançar novos produtos, o faturamento aumentou 65%, para 251 milhões de reais. A rede de restaurantes Madero emitiu títulos de dívida. Captou 80 milhões de reais e usou parte dos recursos para construir uma fábrica em Ponta Grossa — antes, alugava três plantas.

“Uma vantagem foi que não precisamos nos preocupar em pagar juros ou em amortizar a dívida antes de maio de 2017”, diz Júnior Durski, o fundador. Recentemente, a rede contratou o banco Itaú BBA para vender uma participação minoritária.

Com o objetivo de crescer via aquisições, as fabricantes de soft­ware Linx e Senior Solution abriram o capital no início de 2013 — quando ainda havia interesse de investidores por empresas novatas na Bovespa. A Linx captou 528 milhões de reais, comprou três concorrentes e elevou 52% de sua receita desde dezembro de 2013; a Senior levantou 56 milhões de reais, também comprou três empresas e passou a faturar 47% mais.

Ser ágil ao mudar de estratégia

“Uma vantagem das empresas de menor porte é a agilidade: elas conseguem mudar rapidamente sua estrutura para atuar em mercados que crescem mais rápido ou para fugir de setores com problemas”, diz Paulo Emílio Carreiro, diretor de desenvolvimento de médias empresas da escola de negócios Fundação Dom Cabral.

A construtora e incorporadora MPD Engenharia viu-se obrigada a mudar há dois anos, quando as perspectivas para o mercado imobiliário pioraram. A MPD parou de lançar imóveis e concentrou-se na prestação de serviços de construção para empresas sem relação com o mercado imobiliário, como hospitais, laboratórios e escolas.

Hoje, esse segmento responde por quase metade das receitas. Entre as empresas do ranking da Deloitte que faturam de 100 milhões a 450 milhões de reais, a MPD é a que mais cresceu: suas receitas aumentaram, em média, 66% ao ano, de 2013 a 2015, e chegaram a 353 milhões de reais.

Uma mudança feita pela maioria das empresas pesquisadas pela Deloitte foi a busca de novos canais de venda para seus produtos: 85% delas disseram que captar clientes é uma das prioridades estratégicas até 2020. “Numa crise, é importante diminuir a dependência de grandes clientes e diluir os riscos”, afirma Heloisa Montes, sócia da Deloitte.

A fabricante de salgados Forno de Minas — que vendia majoritariamente para supermercados — passou a fornecer para bares, restaurantes e lanchonetes em 2013. Hoje, esse segmento responde por 20% do faturamento da empresa e a meta é chegar a 60% até 2020.

“Nosso foco são cidades de médio porte, onde estimamos ter 1 milhão de clientes potenciais”, diz Hélder Mendonça, presidente da empresa. A equipe de vendedores fora das capitais cresceu 30% desde 2015 e cerca de 15 000 estabelecimentos já recebem produtos da Forno de Minas.

Confira como foi elaborado o ranking das 100 PMEs que mais crescem