Esta gestora de fundos teve retorno espetacular em 2015

Pessimista desde sempre, Rogério Xavier comanda a gestora de fundos SPX, que está dando retornos espetaculares neste ano

São Paulo — “Escolheram três urubus para falar aqui.” Foi assim que André Jakurski, fundador do banco Pactual e hoje sócio da gestora de fundos JGP, iniciou sua palestra numa conferência para investidores organizada pelo banco Credit Suisse no começo do ano. O banco havia convidado alguns dos principais gestores do país para discutir as perspectivas para o Brasil e para a economia internacional.

Ao lado de Jakurski estava Luis Stuhlberger, que comanda o Verde, o fundo multimercados mais rentável do país. Ambos nutrem um notório pessimismo quanto ao futuro da economia brasileira. Jakurski e Stuhlberger são — e aqui vale usar o chavão — lendas do mercado financeiro brasileiro. O outro urubu, Rogério Xavier, não chega a tanto.

Mas, se continuar dando a seus investidores o retorno que vem dando, logo se tornará uma. Nos últimos cinco anos, afinal, não houve urubu que ganhasse mais dinheiro do que ele. Rogério Xavier é sócio da SPX Capital, gestora que fundou junto com outros sócios em 2010 e hoje tem 10 bilhões de reais de patrimônio. Um de seus fundos, o multimercados Raptor, rendeu 184% nos últimos cinco anos.

Superou com folga o CDI, que foi de 62% no período. De janeiro a outubro de 2015, a rentabilidade do Raptor chegou a 43%, enquanto o CDI ficou em 11%. O Verde, de Luis Stuhlberger, rendeu 152% em cinco anos e 29% em 2015. O maior fundo multimercados da SPX é o Nimitz, que teve um rendimento de 114% desde 2010 e de 26% neste ano. Xavier começou sua carreira em 1985 no banco Garantia.

Em 1989, foi para o banco BBM, onde trabalhou por 21 anos. Durante uma década, foi diretor na tesouraria. Saiu dessa área em 2008 para comandar a gestão de recursos da instituição e criou o fundo Bahia, um multimercados que rendeu 150% em um ano e meio — com altíssima volatilidade. O fundo chegou a perder 4% em 30 dias e a ganhar 14% no mês seguinte.

Segundo executivos de mercado, a instabilidade dos retornos desagradava a família Mariani, que controlava o BBM e preferia correr menos riscos, mesmo que isso conduzisse a retornos menores. Sem acordo, Xavier decidiu sair em 2010. Com o tempo, acabou levando boa parte da equipe do BBM com ele. Dos 28 sócios da SPX, 20 trabalharam no BBM.

Os principais são Bruno Pandolfi, Daniel Schneider e Leonardo Linhares, que eram diretores do banco — Schneider e Linhares eram responsáveis, respectivamente, pelas áreas de renda fixa e de renda variável da gestora do banco, e Pandolfi era diretor financeiro. O economista-chefe é Beny Parnes, que foi diretor executivo do BBM e diretor da área externa do Banco Central entre 2002 e 2003.

Procurados, o BBM, Xavier e os demais sócios da SPX não deram entrevista. O fato de ter uma equipe que trabalha junto há anos, seguindo a mesma estratégia de investimento, é um dos pontos fortes da SPX, na opinião de assessores financeiros. “O Rogério bate o martelo nas decisões de investimento, mas as ideias surgem de diferentes áreas.

E ele pode sair de férias que os fundos são tocados normalmente”, diz um concorrente. Todos os dias, há uma reunião entre analistas e gestores para debater temas previamente definidos: crise política, economia mundial, preços de commodities etc.

Nessa reunião, são traçados os principais cenários da gestora para esses temas e as estratégias de investimento. “Muita gente acerta os cenários, mas não tem convicção na hora de investir. Eles não têm medo de apostar pesado”, afirma um gestor.

O melhor ano

Este ano tem sido o de melhor desempenho dos fundos multimercados da SPX. De acordo com os relatórios que a gestora envia aos clientes, os maiores acertos foram as apostas na valorização do dólar e na alta de juros de longo prazo nos mercados futuros e de opções, que se seguiram à piora das perspectivas para o Brasil.

Na conferência do banco Credit Suisse, Xavier disse que o crescimento da economia mundial deve continuar baixo e que o Brasil “pode se dar muito mal” por não ter se preparado para um “cenário de vacas magras”. Tanto pessimismo rende muito pouco caso não seja compartilhado pelo resto do mercado.

Em 2014, o fundo Raptor rendeu apenas 0,6% e o Nimitz, 5%, justamente porque o dólar subiu menos do que os gestores previam. A SPX tem ainda 1,6 bilhão de reais em três fundos de ações, que foram bem melhor do que o Ibovespa. Um deles, o Falcon, rendeu 44% desde 2012, quando foi criado, enquanto o Ibovespa caiu 26%.

Neste ano, a principal estratégia foi comprar ações de bancos e apostar na queda do Ibovespa e do índice S&P 500, da bolsa de Nova York, mostram os relatórios enviados aos clientes. Além de deixar os clientes satisfeitos, o desempenho dos fundos multimercados da SPX recheou os bolsos de seus sócios.

O regulamento desses fundos estabelece que os gestores devem receber 20% de taxa de performance sobre a fatia do rendimento que superar o CDI: somente neste ano, o montante ficou em cerca de 300 milhões de reais. Esse desempenho também contribuiu para movimentar o abatido segmento de fundos multimercados.

Existem milhares desses fundos no país, mas a maioria deles, quando vai bem, rende pouco mais do que o CDI. “Muitos investidores não são remunerados adequadamente pelo risco que correm. Ganham como se estivessem num fundo de renda fixa”, diz Marco Bismarchi, sócio da assessoria financeira Tag Investimentos, que atende clientes de alta renda e fundos de pensão.

A diferença da SPX é que seus gestores estão realmente dispostos a assumir riscos para alcançar retornos mais elevados, mesmo que isso torne os fundos bastante voláteis. “Eles não estão preocupados em defender teses econômicas nem em estar certos todo o tempo. Querem ganhar dinheiro. É uma cultura de quem trabalhou em tesouraria”, diz o diretor de um banco estrangeiro.

Como os acertos têm superado os erros, a SPX tem recusado clientes (todos os fundos da gestora estão fechados) — algo que Xavier parece não ter problema em fazer.

Ainda na época do BBM, em uma reunião de apresentação de performance dos fundos para bancos distribuidores, Xavier disse a um investidor “preocupado” com uma perda mensal que, se ele não entendia como o fundo funcionava, era melhor sacar o dinheiro aplicado ali. Dependendo do tamanho da perda, porém, é possível que a saí­da de investidores prejudique o futuro da empresa.

Foi o que aconteceu com a gestora paulista Advis. Depois de ganhar aproximadamente 40% entre 2011 e 2013, o principal fundo da Advis, o Delta, começou a ter meses ruins, o que motivou uma onda de saques. Em um ano, a gestora perdeu 6,7 bilhões de reais de patrimônio, mais da metade do que tinha. Hoje, tem apenas 290 milhões de reais.

Até mesmo Stuhlberger perdeu clientes por ter tido um desempenho ruim durante a crise de 2008. Enquanto o Brasil continuar dando errado, Rogério Xavier e sua equipe não vão ter muito com o que se preocupar.