Em terra de robôs, quem tem alta escolaridade pode virar rei

O uso de robôs e softwares que substituem o trabalho humano acelerou. Agora os economistas questionam o que fazer para gerar empregos para todos

São Paulo – Esben Ostergaard é um engenheiro dinamarquês especializado em robótica. Em 2003, quando fazia doutorado na Universidade do Sul da Dinamarca, ele e os colegas Kasper Stoy e Kristian Kassow começaram a analisar como funcionava o mercado de robôs industriais. Um ponto lhes chamou a atenção. Até aquele momento as máquinas utilizadas na indústria eram grandes e extremamente caras. Elas serviam bem à indústria pesada, às linhas de montagem de carros e grandes eletrodomésticos, mas não às fábricas de produtos menores — como alimentos ou pequenas peças.

Os três engenheiros começaram, então, a desenvolver um braço robótico que fosse pequeno o suficiente para ser usado nesse tipo de produção e fundaram uma empresa chamada Universal Robots na pequena cidade de Odense, a 170 quilômetros da capital Copenhague. O primeiro modelo, chamado de UR5, foi lançado em 2009. É um braço robótico de 18 quilos e seis articulações que se movimentam em várias direções. Ele custa aproximadamente 22 000 euros — uma pechincha perto das grandes máquinas da indústria — e pode substituir tarefas realizadas por trabalhadores humanos nas linhas de produção.

Por causa de seu tamanho e por ser usado ao lado das pessoas nas fábricas, esse tipo de máquina ganhou o nome de “robô colaborativo”. Hoje, ele é o segmento que mais cresce no setor de robótica industrial. Uma estimativa recente do banco britânico Barclays prevê que as vendas de robôs colaborativos deverão passar de 32 000 unidades, neste ano, para 150 000, em 2020, movimentando 3,1 bilhões de dólares.

A empresa dos três engenheiros dinamarqueses já vendeu mais de 10 000 unidades para mais de 50 países, incluindo o Brasil. Em 2017, ela espera faturar cerca de 155 milhões de dólares, quase três vezes mais do que dois anos atrás, quando foi comprada pela americana Teradyne, fabricante de equipamentos eletrônicos para a indústria, por 315 milhões de dólares.

O crescimento dos robôs colaborativos é a parte mais visível de uma transição que vem ocorrendo no mercado de trabalho no mundo todo. A mecanização das linhas de montagem e a automação de tarefas antes feitas por humanos vêm se acelerando nas empresas. A cada ano, mais 240 000 robôs industriais são vendidos no mundo e esse número tem crescido a uma taxa média de 16% ao ano desde 2010, puxado principalmente pela China. Atividades rotineiras nas fábricas, como instalar uma peça, hoje podem ser feitas usando máquinas como os braços robóticos de baixo custo.

Com o advento de novas tecnologias, como a inteligência artificial, os carros autônomos e a análise de grandes volumes de dados (o chamado big data), a expectativa é que as máquinas e os computadores passem a substituir outras tarefas que hoje só podem ser realizadas por pessoas. Já existem algoritmos que fazem a seleção de candidatos a vagas de emprego no recrutamento de empresas e também carrinhos autônomos que transportam produtos dentro de uma central de distribuição. Muito mais está por vir.

Diante desse cenário, muitos especialistas vêm se perguntando se o rápido avanço da tecnologia chegará a tal ponto que tornará boa parte do trabalho obsoleta. Para os economistas, o que determina se uma profissão tende a ser substituída por um robô ou um software não é se o trabalho é manual, mas se as tarefas executadas pelas pessoas são repetitivas. Um famoso estudo publicado em 2013 por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido, analisou 702 profissões nos Estados Unidos e o risco de elas serem trocadas por computadores e algoritmos nos próximos dez ou 20 anos.

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O resultado é alarmante. Quase metade dos empregos nos Estados Unidos está ameaçada, segundo os pesquisadores. “Hoje é sabido que o efeito da automação que vimos ocorrer no setor industrial nas últimas décadas também deverá se estender cada vez mais para o setor de serviços nos próximos anos”, diz Carl Benedikt Frey, pesquisador da Universidade de Oxford e um dos autores do estudo juntamente com o colega Michael Osbourne.

Com base na mesma metodologia, outros pesquisadores analisaram o impacto nos demais países. Os números são bem parecidos com os dos Estados Unidos, mas os trabalhadores de países em desenvolvimento correm um risco maior justamente porque há mais pessoas fazendo trabalhos de rotina. No Brasil, por exemplo, 49% dos empregos atuais estão ameaçados, segundo a consultoria McKinsey. A conclusão é que, quanto mais rotineira for uma profissão, maior a probabilidade de ela desaparecer.

Atendentes de telemarketing, costureiros, corretores, caixas de banco e empacotadores têm mais de 98% de risco de ter esse desfecho. Na outra ponta estão as profissões que lidam com pessoas, como terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, médicos, psicólogos, dentistas e professores. Em geral, são aquelas que exigem habilidades socioemocionais ou maior nível de escolaridade. “Saber trabalhar em grupo, comunicar-se bem, escutar os outros, ser gentil, ter criatividade, ser capaz de solucionar problemas e ter pensamento crítico serão habilidades ainda mais valorizadas no futuro”, diz Indhira Santos, economista sênior do Banco Mundial, especializada em relações de trabalho e desenvolvimento pessoal.

Existem economistas, no entanto, que questionam os números das pesquisas e quanto eles refletem a realidade do emprego. A principal crítica é que a automação tende a acabar com uma ou outra tarefa realizada no trabalho, mas isso não significa que as profissões, em si, ficarão obsoletas. Um software capaz de preencher relatórios financeiros sozinho, por exemplo, poderá liberar os trabalhadores para realizar tarefas mais importantes.

Nos Estados Unidos, os funcionários de bancos e outras instituições financeiras passam 50% do tempo de trabalho apenas coletando e processando dados e números. A redução de parte desse trabalho já seria um alívio. Um estudo de pesquisadores da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico publicado no ano passado fez um cálculo diferente sobre o impacto da automação. Ele levou em conta a quantidade de atividades de rotina executadas em cada profissão. Aquelas profissões que têm pelo menos 70% de tarefas repetitivas foram consideradas as de maior risco.

Olhando por esse ângulo, a proporção de trabalhadores ameaçados pela automação e pela digitalização cai bastante — fica entre 6% e 12%, dependendo do país. Nos Estados Unidos, o número é de 9%. Independentemente dos resultados, o que ninguém duvida é que vivemos um momento historicamente especial, com impactos muito além da economia.

A mudança já é clara nos países ricos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a renda das pessoas empregadas em profissões com tarefas mais rotineiras representa uma fatia cada vez menor da economia. Enquanto isso, os empregos não rotineiros continuam crescendo. O mesmo acontece na Europa e no Japão, e tende a se repetir nos países emergentes com o tempo. A tecnologia é a principal responsável pela transição. Existe ainda um segundo fenômeno ocorrendo nos países ricos.

A tecnologia está tornando mais escassos justamente os empregos das pessoas situadas no meio da pirâmide e que têm escolaridade média (operadores de máquina, por exemplo). Quem fica desempregado tem duas opções. Ou tenta se reciclar para competir pelos empregos mais valorizados, ou acaba concorrendo com os trabalhadores de menor qualificação por empregos com salários mais baixos, em funções manuais mais difíceis de ser automatizadas (como os de faxineiros e pedreiros).

Esse processo é conhecido como a “polarização dos empregos”, porque o número de vagas tende a crescer nos dois lados extremos do mercado de trabalho, enquanto as vagas com salários médios caem. O fenômeno preocupa porque cria um problema social e também reduz a capacidade de consumo da população e de a economia crescer num ritmo sustentável. “No passado, os empregos com salários intermediários eram a porta de entrada da classe média para as pessoas que vinham de faixas de renda menores. Agora esses empregos relativamente bem remunerados estão desaparecendo”, diz John Hurley, pesquisador do Eurofound, agência da União Europeia responsável pelas pesquisas sobre relações de trabalho e condições sociais.

Países emergentes, como o Brasil, não estão imunes. Uma vez que os robôs ficam mais baratos, as empresas estrangeiras tendem a pensar duas vezes antes de levar parte da produção para fora. Pode sair mais em conta — e ser mais eficiente — instalar uma fábrica toda automatizada nos Estados Unidos do que abrir uma unidade no México ou no Brasil. Dessa forma, os trabalhadores daqui passam a competir com os robôs de lá, o que também dificulta o crescimento da classe média no Brasil.

Parem as máquinas

Diante desses desafios, algumas alternativas começaram a ser levantadas. Uma delas é introduzir um programa de renda mínima nacional para que todo cidadão receba um valor mensal que garanta uma subsistência mínima. Seria uma forma de amenizar o impacto social causado pelo desemprego da automação. Só que isso geraria uma expansão dos gastos públicos. Parte desse custo extra poderia ser coberta por um aumento de impostos sobre os robôs e sobre as empresas que substituíssem trabalhadores por softwares.

Benoît Hamon, candidato socialista derrotado nas últimas eleições francesas, defendeu exatamente essas duas medidas durante a campanha presidencial no primeiro semestre. Para os economistas, essa seria a saída mais desastrosa possível. Taxar os meios de produção — ou seja, as máquinas que tornam a economia mais produtiva e fazem o país enriquecer — só aumentaria o custo do trabalho e seria um estímulo para manter o país preso ao passado. “É como se, durante a Revolução Industrial, a Inglaterra decidisse taxar as máquinas com o objetivo de manter os empregos dos trabalhadores nas minas de carvão”, compara Carl Frey, da Universidade de Oxford.

Seria mais inteligente e adequado investir em outra solução: melhorar a escolaridade da população e criar programas para ajudar os trabalhadores prejudicados pela automação a se reciclar e a se recolocar numa vaga bem remunerada. “No início do século 20, 40% da força de trabalho dos Estados Unidos estava na agricultura. Setenta anos depois, eram 2%. Isso não ocorreu por acidente. Foram feitos investimentos reais para educar as pessoas, que, do contrário, não teriam opção senão trabalhar nas fazendas”, diz Michael Chui, sócio da consultoria McKinsey, que lidera as pesquisas sobre o impacto das novas tecnologias.

A questão é: como transformar em engenheiros de software os trabalhadores de chão de fábrica que hoje montam eletrodomésticos? Uma opção seria começar de baixo, oferecendo educação de ponta aos jovens que estão entrando na escola agora. Mas, ainda que fosse possível fazer com que todos os países alcançassem o mesmo nível de escolaridade do Canadá, onde 55% da população tem ensino superior — meta para lá de ambiciosa, para dizer o mínimo —, a sociedade seria capaz de criar empregos para todos numa era em que mais tarefas são automatizadas? É uma pergunta difícil de ser respondida.

Hoje, mesmo nos países com escolaridade alta, a indústria de tecnologia da informação é responsável por apenas 2% a 5% dos empregos. Nos Estados Unidos, as empresas criadas depois dos anos 2000 no setor de tecnologia representam apenas 0,5% das vagas disponíveis. Enquanto a varejista americana Walmart emprega mais de 2,5 milhões de pessoas, a loja online Amazon tem 230 000 funcionários.

Olhando para o passado, talvez não seja necessário fazer uma mudança radical. A história mostra que as novas tecnologias também são capazes de criar profissões que antes eram inimagináveis. Quem pensaria há 20 anos em seguir carreiras como as de desenvolvedor de aplicativo, técnico de redes de fibra óptica, especialista em impressão 3D ou piloto de drones — para ficar só em alguns exemplos? O surgimento dessas novas profissões tende a estimular a demanda para outros serviços e produtos, o que ajuda as empresas das demais indústrias.

Um estudo de pesquisadores do Centro Europeu de Pesquisa Econômica mediu o efeito da tecnologia sobre o número total de empregos na Europa de 1999 a 2010. O resultado é que, embora ela tenha feito 9,6 milhões de vagas desaparecerem, ajudou a criar outras 21,1 milhões de posições indiretamente. Boa notícia, mas nada garante que esse efeito se repetirá com as novas tecnologias de automação e inteligência artificial. É fato: os robôs vieram para ficar. Isso pode ser uma ótima notícia — se aprendermos a conviver com eles.

Comentários

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  1. Rodrigo Portela

    blá, blá , bla de sempre. estão a destruir empregos, e gerando meia dúzia de empreguinhos em Ti grandes coisa, quero ver quando ninguem tiver renda , se os produtos produzidos serão consumidos pelo topo da pirâmidade , quero ver ….

  2. Moises Batista Andrade Filho

    Como disse o sr. Portela, tremendo blá, blá, blá. Contando como se fosse uma grande novidade, a reportagem quer é se engrandecer. Qual a novidade, por exemplo, no futuro no trabalho? Ele sempre chega desde que o mundo é mundo. Desde que o homem conheceu o fogo, inventou a roda, a alavanca, a engrenagem, etc., etc., até chegar nos robozinhos citados. E daí? Quando o trabalho do carroceiro acabou, o que ele fez? Morreu, recebeu bolsa-família ou virou motorista de caminhão?

  3. Francisco Narciso

    Invistam mesmo em robotização senhores! Depois vendam seus produtos para suas maquininhas!