A sede da companhia aérea WebJet fica num modesto galpão verde dentro do pequeno aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A pacata rotina dos funcionários da empresa -- dona de apenas um avião e de uma rota esquálida que une cinco capitais -- é quebrada a cada duas semanas, quando acontece a reunião do conselho de administração.

Nessas ocasiões, o estacionamento da WebJet é tomado de carros de luxo cercados de um pesado aparato de segurança. Entre todos, o que mais chama a atenção é uma picape preta blindada que sempre estaciona na vaga reservada em frente ao acesso principal. O carro pára ali pontualmente 10 minutos antes de a reunião começar.

O dono da picape é Jacob Barata Filho, um dos acionistas da WebJet. À saída, um novo ritual: o empresário troca de carro, agora um Mercedes- Benz prateado, e se  gue ao volante, escoltado por dois automóveis ocupados pelos guarda-costas.

A obsessão por segurança de Barata Filho, também conhecido como Jacozinho, encontra justificativa na fortuna, no poder e numa tragédia que marca sua família.

Ele é filho e sucessor de Jacob Barata, de 74 anos, patriarca de um clã que construiu um império que fatura mais de 2 bilhões de reais por ano. Em 1994, um dos herdeiros do grupo construído com um punhado de empresas de ônibus foi assassinado durante um seqüestro.

A chegada ao Rio aconteceu na década de 50, quando Jacob veio do Pará atrás de novas oportunidades. Aos 18 anos, ele já era dono de uma lotação em Madureira, subúrbio carioca. Desde então, o grupo vem ganhando musculatura não só no ramo dos transportes. A família controla 60 companhias, entre elas um hospital, um banco e uma rede de hotéis em Portugal.

Outro ramo do clã, fundado pelo irmão de Jacob, Samuel Barata, de 75 anos, é dono da maior rede de farmácias do Rio, a Drogarias Pacheco, com faturamento de 1 bilhão de reais. Aos amigos, Samuel gosta de dizer que, dos dois, ele é o irmão  mais pobre. "Rico mesmo é o Jacob", diz.

A WebJet é parte de uma nova etapa na diversificação dos negócios do "irmão rico" -- e uma aposta pessoal de Jacozinho. Com a compra de parte da empresa, ele pretende repetir a trajetória de outro clã, o dos Constantino, que criou a Gol com um conglomerado de empresas de ônibus. Os Barata, no entanto, ainda estão longe de experimentar o sucesso de seus inspiradores.

A WebJet, comprada em abril, é um negócio que enfrenta sérios problemas. "Tudo é mais demorado e mais burocrático do que esperávamos", diz Wagner Abrahão, empresário do setor de turismo que também é sócio da empresa. A maior dificuldade enfrentada pela companhia é conseguir aviões para colocar no ar.

Quando Jacozinho e Abrahão assumiram a WebJet, a empresa estava parada havia cinco meses, tinha dívidas de 6 milhões de reais e apenas um avião, um Boeing 737. É esse aparelho que tem voado das 4h20 às 21h50, todos os dias. Uma segunda aeronave deve entrar em operação nos próximos dias.

Mas o plano dos sócios de ter oito aviões em 2007 ainda é incerto por causa da imensa demanda por aeronaves no exterior e mesmo no Brasil, onde a TAM e a Gol encerrarão o ano com 40 aviões a mais em seus hangares. "Para assegurar o terceiro avião, estamos negociando com três empresas diferentes", diz Abrahão. Procurados por EXAME, os Barata não deram entrevista.

Outro ponto importante que vem dificultando a decolagem da empresa é a falta de recursos -- ao menos os que foram efetivamente aplicados na companhia. O investimento feito até agora na WebJet, de 15 milhões de reais, é considerado muito pequeno para os padrões da aviação.

Os Constantino investiram pelo menos 55 milhões de reais para dar partida na Gol. Os sócios dizem ter cacife para investir bem mais, mas até agora a empresa vem patinando com menos de 1% de participação de mercado e deve encerrar o ano com faturamento de 40 milhões de reais, resultado pífio no setor.

Para efeito de comparação, o mercado de viação aérea deve crescer cerca de 15% em 2006. A estratégia da empresa é vista com desconfiança por especialistas do setor. "Com equipamento de grande empresa e uma estrutura tão pequena, vai ficar difícil para a WebJet se sustentar", diz o consultor André Castellini, da Bain & Company.

Comprada para se transformar no futuro do conglomerado, a WebJet está naquela situação perigosa que, por precisar de muitos recursos, pode comprometer a saúde de todo o grupo. Por outro lado, o clã Barata aposta na companhia aérea como a melhor maneira de crescer e depender menos das empresas de ônibus.

A maior parte do faturamento do clã ainda vem das 28 companhias de ônibus da família, que juntas faturam cerca de 1,5 bilhão de reais. Mas o setor de transporte urbano passa por dificuldades -- daí a necessidade de encontrar outra opção. Há dez anos, o sistema de ônibus do Rio de Janeiro transportava 99 milhões de passageiros por mês.

Hoje, são cerca de 61 milhões, uma queda de 38%, provocada, entre outros fatores, pelo aumento do transporte clandestino na cidade. Se depender dos resultados obtidos até agora, no entanto, a WebJet ainda está longe de ser uma solução para os Barata.

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