A GP Investimentos é uma coleção de superlativos. A maior gestora de fundos de capital de risco do país, com cerca de 3 bilhões de reais administrados, a empresa tornou-se uma das mais conhecidas e invejadas do mercado. Seus investimentos multiplicaram em poucos anos a fortuna de seus fundadores e ex-sócios, os já milionários Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira, Marcel Telles e Robson Thompson. Agora, a GP passa por um novo teste. Tem de provar que, além de ser um excelente negócio para seus sócios, pode também ser um bom investimento para os cerca de 2 500 acionistas minoritários que compraram seus papéis no início de junho, quando estreou no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo. Não é uma questão trivial. O modelo GP é totalmente diferente do de qualquer empresa que já abriu capital na América Latina. Mesmo em mercados desenvolvidos como o americano, há menos de dez gestoras de fundos de capital de risco com o capital aberto -- e há uma boa explicação para isso.

Tornar-se acionista de uma empresa como a GP é o mesmo que passar um cheque em branco a seus sócios, porque nenhum investidor tem idéia de onde esse dinheiro poderá ser aplicado. A GP é uma gestora de fundos, por isso, sua atuação pode se espraiar por qualquer setor da economia. Desde sua inauguração, em 1993, a GP já investiu em 35 companhias de dez setores -- desde parques de diversão até ferrovias e empresas de internet. Os aportes foram feitos com recursos dos controladores e também de outros investidores. Essas aplicações tiveram prazos determinados e, em alguns casos, ofereceram alguma garantia de rentabilidade. "É esse o modelo tradicional de fundos de capital de risco em todo o mundo", diz Antonio Gledson de Carvalho, professor da Fundação Getulio Vargas, de São Paulo.

No entanto, quando uma empresa desse tipo decide abrir capital para pequenos investidores, a história é outra. Não há prazos determinados para os investimentos, muito menos expectativas de retorno. "O acionista está comprando a habilidade dos sócios em escolher as empresas mais lucrativas para investir", diz o diretor de uma gestora de recursos de São Paulo. É por isso que o principal ativo da GP, hoje, são seus oito sócios -- Antonio Bonchristiano, Fersen Lambranho, Carlos Medeiros, Eduardo Alcalay, Márcio Trigueiro, Marcus Martino, Nelson Rozental e Octavio Lopes. São todos puro-sangue do mercado brasileiro, responsáveis por algumas das maiores tacadas já realizadas no país (veja quadro). Foi para ter acesso ao potencial desses cérebros que os investidores pagaram 706 milhões de reais na compra de ações da GP no início de junho -- o que, numa divisão rápida, resulta numa aposta de cerca de 90 milhões de reais pela cabeça de cada um de seus estrategistas.

Mais sucessos que fracassos
A GP investiu em 35 empresas: 17 foram bem, 12 deram problemas e seis estão indefinidas(1)
Onde eles acertaram
ALL
Equatorial Energia(2)
FCA
Fratelli Vita
Gafisa
Ibest
iG
Lupatech
Mandic(3)
Mercado Eletrônico
Officenet
Patagon(3)
Sé Supermercados
Shoptime
Submarino
SuperMar
Telemar
Sucesso: 17 empresas
Onde houve tropeços
ABC Supermercados
Despegar/Viajo
Elefante
Geodex
Globo Cabo
Kuala (Artex)
Lokau
Mahler
MaxLog
Playcenter/Hopi Hari
Total Express
Webmotors
Tropeço: 12 empresas
Taxa de retorno anual
23,8% em dólares
Capital total investido
1,3 bilhão de dólares
(1) As seis indefinidas são: Automatos, IHH, Mcom Wireless, Pegasus, Pointer Network e Pollux
(2) Única empresa que faz parte do fundo aberto aos acionistas
(3) Vendidas pela GP antes do estouro da bolha da internet Fontes: GP, analistas

É claro que a GP sabe da força de seu time para o mercado. Em prospecto de mais de 500 páginas que contém as informações do lançamento de suas ações, há diversos trechos que ressaltam a "equipe experiente" como uma das principais vantagens competitivas da empresa. De fato, o histórico da GP é muito bom. Nos últimos 13 anos, o fundo entregou um rendimento anual médio de 24% em dólares, ou 34% em reais, a seus investidores. O desempenho deve-se a uma estratégia bem definida: injetar capital em empresas com dificuldades financeiras ou que comportem mudanças drásticas de atuação. Foi o que aconteceu com a América Latina Logística (ALL), por exemplo. Quando foi comprada pela GP em 1996, no leilão de privatização, a companhia apresentava prejuízo de quase 40 milhões de reais. Hoje, tornou-se a maior empresa de logística da América do Sul, com lucro anual de 171 milhões de reais. A ALL não é exceção. A maioria dos 35 negócios feitos pelo grupo desde 1993 deu resultados positivos.

Nenhum desses sucessos faz parte da companhia que abriu capital há pouco mais de um mês. A parte da GP que tem hoje suas ações listadas na Bovespa é o fundo GPCP3, que tem em carteira apenas uma empresa, a Equatorial Energia, controladora da companhia maranhense de energia Cemar. Esse portfólio deve crescer em breve. No dia 21, a GP anunciou a intenção de comprar um terço da Invepar, concessionária de rodovias controlada pela construtora baiana OAS. "O mercado está esperando o anúncio de novos investimentos", diz Tania Sztamfater, analista do Unibanco. "Sem essa informação, é impossível avaliar o valor da empresa vendida na bolsa." Traduzindo: a maioria dos analistas ainda não sabe se vale a pena comprar ações da GP. É por isso que o desempenho dos papéis da gestora tem sido apenas mediano.

A reversão da baixa depende de outro fator: os investidores acreditarem que receberão parte dos lucros dos novos negócios da GP. A preocupação se justifica. Primeiro, porque o horizonte de um fundo de capital de risco é de longo prazo -- os investimentos costumam levar de cinco a dez anos para frutificar. Segundo, porque existem dúvidas de que a GP esteja disposta a respeitar os direitos dos minoritários. Transparência, algo tido como cada vez mais necessário para garantir o bom desempenho de uma empresa na bolsa, nunca foi o forte da GP. É verdade que seus sócios cumpriram todas as obrigações legais exigidas de uma companhia que abre seu capital, divulgando balanços financeiros completos (algo que nunca tinham feito) e contratando um diretor de relações com investidores, Eduardo Guardia, ex-secretário do Tesouro Nacional. No entanto, quem abre capital hoje busca ir além do obrigatório, algo que a GP esforçou-se para não fazer. Ela foi a única empresa, entre as 32 que estrearam na Bovespa desde 2004, que não aderiu a nenhum nível de governança corporativa. Além disso, transferiu sua sede para as Bermudas, conhecido paraíso fiscal, com regras diferentes das do Brasil, o que pode dificultar as reclamações dos acionistas. "É uma empresa conhecida por operar procurando brechas nas normas. Não faz nada ilegal, mas pode representar alto risco para os investidores", diz um executivo do mercado. O que os controladores da GP dizem disso? Nada. Como já aconteceu antes, uma entrevista prometida a EXAME há mais de um mês foi cancelada uma hora antes do horário combinado.