Na Construtora Andrade Gutierrez, de Belo Horizonte, as festas de bota-fora do milênio vão marcar também a despedida de toda uma era. Nos últimos dez anos, ela se empenhou em reduzir sua excessiva dependência do setor público. Em 1989, 98% do faturamento da empresa decorria de obras contratadas em várias esferas de governo. "No ano passado, foram apenas 26%", diz Sérgio Lins de Andrade, presidente do conselho de administração do grupo Andrade Gutierrez e principal artífice das mudanças que vêm alterando o perfil da companhia mineira ao longo da última década. Há poucas semanas, com o fim do programa conhecido internamente como "Sucessão de Gerações", a empresa espera ter dado o último passo para consolidar sua travessia rumo aos novos tempos. "Temos planos muito ambiciosos - queremos ser a número 1 em todos os setores em que atuamos hoje", diz Sérgio Andrade. Se no passado o foco se dispersava numa dezena de negócios, hoje se concentra em quatro ramos apenas - concessões de rodovias e saneamento básico, telecomunicações, construção no Brasil e no exterior. Sérgio Andrade falando à imprensa é uma raridade. Normalmente recluso, ele prefere confabular com interlocutores como o banqueiro Daniel Dantas, o presidente da Previ, Luís Tarquínio, e altos executivos de filiais de empresas multinacionais. Seu nome pode não aparecer todos os dias nos jornais, mas se trata de um dos mais influentes empresários brasileiros. Sérgio, 55 anos, possui 33,34% das ações da Andrade Gutierrez, empresa fundada em 1948 por seu pai, Roberto Andrade, junto com o irmão Gabriel e Flávio Gutierrez. Hoje, a empresa mineira é um dos sócios da Companhia de Concessões Rodoviárias, a CCR, a terceira maior do mundo nesse setor. Sob sua guarda estão rodovias como a Via Dutra e a Bandeirantes, além da Ponte Rio-Niterói. Possui também um naco de 11% da Telemar, a maior companhia de telefonia fixa do Brasil. Toda vez que alguém retira o telefone do gancho em alguma cidade entre o Rio de Janeiro e o Amazonas, os cofres da Telemar ficam mais cheios. Sérgio Andrade diz que um de seus prazeres são os milhares de livros que possui. "Gosto de história, administração e economia", afirma ele no escritório da empresa no Rio de Janeiro. Aprecia, segundo diz, os escritos de Milton Friedman e de Peter Drucker. Deste último, destaca O Gerente Eficaz. Uma boa gerência - afirma ele - é resultante de vários ingredientes, inclusive uma boa dose de confiabilidade. Nesse ponto, ele arrisca um palpite inesperado vindo de um empreiteiro. "O Lula poderá ser melhor gerente para o país do que o Ciro Gomes", diz. "Ele é mais confiável." Há pouco, Sérgio andou relendo a biografia de Ernest Shokleton, o inglês que atravessou boa parte da Antártica a pé em 1914. A razão da releitura? É do tipo que adora aventuras. Além disso, embora mineiro, ele é do mar e não da montanha. Na juventude, mergulhava. Em seu escritório, um escafandro ajuda a compor a decoração. É uma recordação não muito doce: num mergulho, teve problemas, com seqüelas neurológicas. Desde então, manca de uma perna, o que não o impede de velejar (seu veleiro é de classe oceânica). No barco da Andrade Gutierrez, é Sérgio quem vem segurando o timão. Constatada a incapacidade do governo de seguir investindo em obras de infra-estrutura, a construtora resolveu alargar seus horizontes. Para isso, reorganizou-se em unidades de negócios e passou a dar atenção máxima às planilhas de custo. "Reduzimos as despesas administrativas em 40% e ficamos muito mais competitivos", diz Eduardo Andrade, 62 anos, superintendente da Construtora Andrade Gutierrez e primo de Sérgio. Outra providência foi se livrar de participações em alguns negócios, como na indústria Tibras-Titânio do Brasil (agora Millennium), da Bahia, e na Proceda, empresa de informática de São Paulo. Mais adiante, o grupo retirou-se de outros negócios, como a perfuração de poços de petróleo para a Petrobras, exploração de jazidas de granito, mineração de diamantes etc. A venda desses ativos rendeu uma quantia superior a 100 milhões de dólares, uma parte dos 700 milhões de dólares que o grupo investiu entre 1994 e 1999. Faltava resolver o problema da sucessão. Todos os cinco integrantes da cúpula da construtora (a segunda geração no poder) estavam na mesma faixa etária, por volta dos 60 anos. A partir de 1997, com a empresa envelhecendo, a sucessão passou a ser uma prioridade. O primeiro passo foi contratar a Faculdade de Economia e Administração da USP para ministrar um curso de MBA para mais de 200 executivos, a maioria cria da casa. O principal objetivo do programa era identificar e incentivar os gerentes mais empreendedores. O passo final, dado há poucas semanas, foi ungir os eleitos. O novo homem forte da construção da Andrade Gutierrez no Brasil chama-se José Rubens Goulart Pereira. À frente dos negócios das concessões está Ricardo Senna Coutinho. A área de telecomunicações continua a cargo de Otávio Marques Azevedo. "A escolha desses nomes foi feita de maneira racional, impessoal e transparente", afirma Eduardo. A alteração no organograma da empresa envolveu muito mais do que simplesmente dar assento a novos dirigentes. Foi feita uma profunda mexida na estrutura organizacional. As superintendências ocupadas por Eduardo Andrade e Roberto Gutierrez - representante da outra família fundadora da empresa - foram extintas. Ambos passaram a integrar o conselho de administração da compa-nhia. Os dirigentes recentemente promovidos responderão diretamente ao conselho - antes Eduardo fazia a ponte. Também foram extintas divisões e diretorias regionais. Agora, os negócios dividem-se entre mercado interno e mercado externo. Em 1999, cerca de 135 milhões de dólares do faturamento da empresa vieram de obras lá fora - principalmente de Portugal. Além de garantir mais agilidade e autonomia, a nova estrutura propicia maior transparência no desempenho dessas unidades. Cada uma tem de atuar como se fosse uma empresa autônoma, que precisa apresentar resultados todo fim de ano. Mesmo com todas essas modificações, restava um problema. O grupo estava chegando ao novo século amarrado a uma holding operacional - no caso, a própria construtora. Nesses tempos em que decisões precisam ser tomadas com rapidez, era inadequado definir no âmbito de uma construtora estratégias ligadas, por exemplo, à área de telefonia ou de concessões de rodovias. Era preciso descentralizar. Por isso, foi criada a AGSA, a novíssima holding não operacional do grupo. Por fim, daqui por diante os executivos do grupo terão de guiar suas ações pelo EVA - o Economic Value Added, ou valor econômico adicionado -, uma ferramenta de administração que busca elevar ao máximo o retorno dos investimentos realizados. "A meta é ter um retorno de 20% ao ano em todos os nossos negócios", diz Sérgio Andrade. É, assim, com uma estrutura mais alinhada aos novos tempos que a empresa vai tentar equiparar o seu faturamento de agora ao do passado. Antes da reestruturação, o melhor ano da Andrade Gutierrez fora 1980, quando faturou 1 bilhão de dólares. Deflacionados, eles valeriam 2 bilhões de dólares. Por enquanto, a meta é faturar algo em torno de 1,2 bilhão de dólares anuais no conjunto de quatro negócios. A Andrade Gutierrez lidera a construção de barragens para geração de energia elétrica no país. Em consórcio com outras empresas, conquistou 59% da obras licitadas nos últimos três anos e meio, uma carteira no valor de 1 bilhão de dólares. Detalhe: são quase todas obras encomendadas pela iniciativa privada, que costuma pagar em dia os seus compromissos, ao contrário do setor público, que ainda tem um papagaio de 1,2 bilhão de dólares espetado na construtora mineira. Reduzir o peso do governo entre seus clientes foi um bom negócio para a Andrade Gutierrez. A CCR, na qual possui 25% do capital, fatura cerca de 400 milhões de dólares por ano com suas concessões. O potencial de arrecadação desse setor como um todo está estimado em 25 bilhões de dólares nas próximas duas décadas. O grupo também é sócio do governo do Paraná na Sanepar, a maior empresa já privatizada na área de saneamento básico. Trata-se de um setor que exigirá investimentos estimados em 25 bilhões de dólares nos próximos 20 anos. O sócio estratégico da Andrade Gutierrez no setor de saneamento é o grupo Vivendi - a antiga Compagnie Générale des Eaux -, o maior do mundo. Mas a menina-dos-olhos de Sérgio Andrade é mesmo a Telemar. Ele ocupa a presidência do conselho de administração da holding formada por 16 empresas de telecomunicações. A Telemar possui 12 milhões de linhas instaladas, 5 milhões a mais de quando foi criada, há pouco mais de dois anos. "Dedico à Telemar 20% do meu tempo", diz Sérgio Andrade. "Em espírito, são 80%." O valor de mercado da empresa aumentou mais de quatro vezes desde o início de suas operações. A intenção é investir 6 bilhões de reais para antecipar metas, melhorar a infra-estrutura de rede e assim concorrer em todos os segmentos da telefonia. "O único defeito que eu vejo nesse negócio é a nossa participação de apenas 11,3%", afirma. "Queremos suplantar a mexicana Telmex, a maior do setor da América Latina." Há vários obstáculos à frente. O principal deles poderão ser as esperadas fusões que deverão sacudir o setor de telecomunições antes de sua total consolidação. "A Telemar não será fundida", diz Sérgio Andrade. "Ao contrário, ela vai às compras." O tempo dirá.