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22/10/1997 00:00

Electrolux

A crise pode ser brava, mas os operários do grupo sueco não temem a demissão. Ao contrário se a produção baixa é hora de diversão

Maria Tereza Gomes, EXAME
No final de julho, o operário Eloir Cechim devia 250 horas de trabalho para a Electrolux, segunda maior fabricante de linha branca do país, sediada em Curitiba. São horas do expediente que Eloir gastou como quis, em casa com a família ou jogando futebol com os amigos. Tudo com autorização da empresa. Na Electrolux, quando a produção está em baixa, os funcionários entram para o Banco de Horas. Eloir só tem vantagens com o sistema. Enquanto está em casa, o salário cai normalmente na conta. Eloir só vai quitar sua dívida quando, e se, a produção voltar ao normal. Mesmo assim, não pode pagar mais do que duas horas por dia. Também não vai trabalhar dois sábados seguidos. Ou seja, Eloir continua com seus dias de lazer garantidos.

O melhor é que cada dia de trabalho para quitar a dívida de horas equivale a dois dias em casa. E, quando chegar ao final do ano, quem pagou, pagou. Quem não pagou, está livre da dívida com o Banco de Horas. "Quando o mercado aquecer, vou começar a pagar as horas. Mas já sei que este ano não vai dar tempo para pagar tudo", diz Eloir, operário da linha de montagem. Fruto de um original - e raro - acordo sindical, o Banco de Horas da Electrolux está completando dois anos. Ele foi criado para amenizar um dos problemas mais comuns da indústria de bens de consumo, a sazonalidade. Antes do banco, cada vez que as vendas caíam, a Electrolux cortava pessoal. Quando o mercado aquecia, a empresa fazia o movimento inverso. Essa ciranda era um campo fértil para gerar insegurança e desmotivação. "Com o Banco de Horas o empregado sente que está sendo tratado como parceiro", diz Antônio Carlos Romanoski, presidente da Electrolux. "Assim criamos uma relação de confiança, na qual se fala a verdade sempre." O Banco de Horas explica apenas uma parte das razões que fazem com que os funcionários considerem a Electrolux um ótimo lugar para trabalhar.

Maior fabricante mundial de eletrodomésticos, e de regresso com força total ao Brasil após anos de quase recesso, a Electrolux voltou inovando. Em vez de multinacional, prefere se apresentar como uma "empresa multicultural". Essa política fez diferença quando o grupo, com sede na Suécia, adquiriu a Refripar, do empresário paranaense Sérgio Prosdócimo, no final de 1995. Os novos donos não interferiram na vida da empresa. A presidência foi entregue a Romanoski, ex-diretor financeiro. Era também o braço direito de Prosdócimo, um empresário carismático, que se orgulhava de conhecer a maioria dos funcionários pelo nome. Quase dois anos após a aquisição, não há sequer um executivo sueco na empresa. Romanoski não tem o carisma natural de seu antigo patrão, mas se esforça bastante. Um de seus hábitos é o de chamar as pessoas por "filho(a)". Quando assumiu o cargo, ele reuniu todos os funcionários para explicar que as coisas não iam mudar muito dali por diante. A única diferença, disse ele à época, é que agora a empresa teria o suporte tecnológico de uma multinacional.

No mural de notícias da fábrica, Romanoski aparece na foto do time de funcionários que disputou o campeonato paranaense de futebol em grama sintética. "Ele torce por nós", diz Cláudio Lima, um dos jogadores. Há 700 pessoas praticando esportes na unidade da Electrolux em Curitiba e outras 400 na fábrica de São Carlos, interior de São Paulo. Como não há clube próprio suficiente para todos, a empresa aluga espaços esportivos e de lazer nas duas cidades. Aqueles que disputam campeonato recebem transporte, uniforme e alimentação por conta da casa em dias de jogos. Há atletas espalhados por toda a fábrica. Gilson de Lima, da pintura, e Edson de Oliveira, da montagem de freezer, disputam maratonas. Rubens Bittencourt, do setor de investimentos, é vice-campeão brasileiro de futebol de mesa. O Edmundo, jogador do Vasco, não teria vez num time da Electrolux. "Nossos atletas são os mais disciplinados em qualquer torneio. É um princípio de qualidade que nasce dentro da fábrica", diz Romanoski.

O esporte e o lazer são a tônica de um novo projeto da Electrolux, batizado de Fábrica do Lazer. Trata-se de um imenso clube ao lado da nova unidade industrial que está sendo construída na região de Curitiba. O investimento previsto no projeto industrial e de lazer é de 150 milhões de dólares. A empresa aposta no esporte como um fator de integração e desenvolvimento do espírito de equipe entre os funcionários. "Nós somos como uma família", diz o operário Laudeci Ribeiro Lima, com 19 anos de casa. "Há um espírito de companheirismo entre as pessoas e não há paredes nos separando dos chefes."

As famílias dos funcionários também são convidadas a participar da vida da empresa. A cada semestre, a Electrolux promove quatro cursos de corte e costura para as mulheres interessadas em aumentar a renda familiar. No verão, seus filhos participam da colônia de férias ou do Domingo Legal. Em ambos os casos, tudo corre por conta da empresa. O espírito de família dentro da fábrica não acontece por acaso. Muitos dos 6 000 funcionários só entraram ali porque foram indicados por um parente ou amigo que já era da casa. Isso é regra na Electrolux. Há tanta procura que a empresa distribui senhas entre os funcionários desejosos de que o filho, o sobrinho ou o amigo trabalhem ao seu lado. O operário Cláudio Lima trabalha com o pai, dois tios, três primos e um cunhado. Erwin Wilhelm Kaiser trouxe um irmão para a fábrica. "Eu corro atrás de uma vaga para um parente", diz Erwin. "Eu sei que eles serão bem tratados aqui."

Por bem tratado entenda-se também um plano de saúde que cobre qualquer doença para eles e suas famílias - a custo zero. Idem para tratamentos odontológicos. O funcionário só vai pagar alguma coisa se quiser adquirir o plano executivo. As vantagens vão além. A empresa paga, por exemplo, 90% das despesas que o operário Luiz Carlos Ferreira tem com o filho deficiente. A conta mensal com fonoaudiologia e com uma clínica especializada ultrapassa 300 reais. "Eu não poderia pagar sozinho e a empresa entendeu o meu problema", diz Luiz Carlos. Há outros 30 funcionários que usam o mesmo benefício.

A Electrolux está no quarto ano do programa de participação dos funcionários nos resultados. No ano passado, a empresa distribuiu o equivalente a uma folha e meia em lucros. O funcionário de menor salário embolsou até 2,4 salários. Aqueles com salários maiores levaram proporcionalmente menos. Este ano, o plano prevê a distribuição de até dois salários, independentemente do nível do funcionário. O plano está vinculado a metas de rentabilidade, satisfação do cliente, qualidade interna, acidente de trabalho e eficiência da mão-de-obra. Cada funcionário pode acompanhar de perto como está seu quinhão no programa. Um boletim interno afixado em toda a fábrica de Curitiba informava em julho que a situação estava boa em acidentes de trabalho (o índice estava em zero), mas nada animadora em qualidade interna, cuja performance estava abaixo de 80% da meta.

Se você quer saber o que é multifunção, marque uma conversa com um operário da Electrolux. Um bom exemplo é Reginaldo de Souza Carvalho. Ele é capaz de montar um freezer do início ao fim. Reginaldo domina 30 posições de trabalho. O treinamento na Electrolux não é intenso apenas na fábrica. O advogado Sandro Bonato fez cinco cursos de especialização em menos de dois anos. Um deles, de direito societário, durou quatro meses. Em nenhum dos casos Bonato precisou colocar a mão na própria carteira. "Eu sinto que aqui temos oportunidade de crescer", diz Gilson Joukoski, do departamento de logística. Joukoski está há 11 anos na Electrolux. Entrou como estagiário, passou pelas áreas de engenharia, custos, manufatura e, há três anos, foi para logística. "Eu trabalho bem em equipe e a empresa valoriza isso", diz Joukoski.

Para garantir seu programa de multifuncionalidades (no mínimo cinco funções para cada funcionário), a Electrolux investe pesado em educação. Uma escola de primeiro e segundo grau dentro da fábrica já formou 435 alunos. Os formandos têm direito a festa com pompa e circunstância, incluindo a presença do presidente. "Nossa meta num futuro próximo é que nenhum filho de funcionário fique fora da escola", diz Romanoski. "Essa será nossa contribuição para acabar com as desigualdades sociais." Para executivos, a Electrolux abre literalmente oportunidades em todo o mundo. O grupo sueco incentiva o job rotation entre as filiais. Com isso, consegue ter executivos com uma visão global do negócio. Uma das maneiras de obter uma oportunidade como expatriado é entrar no banco de dados mundial do grupo. Nele estão registrados os nomes dos talentos da companhia que podem ser chamados para experiências internacionais. Essa é uma das pernas do programa de desenvolvimento gerencial. Para dar vivência internacional, a empresa também financia MBAs, doutorados e outros cursos de especialização no exterior. Oito executivos e 42 não-executivos foram beneficiados por essa política no ano passado.

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