São Paulo - Há dois anos, os executivos da fabricante de bebidas Coca-Cola no Brasil depararam com um dilema. Para lançar um suco com sabor açaí da marca Del Valle, eles tinham duas opções. Uma delas era comprar a fruta de grandes fornecedores, sem garantia de que a extração seguiria critérios de manejo sustentável.

A outra, entrar na floresta para treinar famílias a coletar o açaí nativo sem derrubar a mata ou prejudicar o ciclo de reprodução das árvores. Ao mesmo tempo, poderiam melhorar as condições de vida numa das comunidades mais pobres do país, em que a renda per capita média é de 142 reais por mês. Decidiram pela segunda alternativa. Hoje, compram a matéria-prima extraí­da por mais de 600 famílias da região do Médio Juruá, pertencente ao município de Carauari, no Amazonas.

Nos últimos dois anos, segundo a empresa, a renda média desses trabalhadores aumentou cerca de 50%. Mesmo com mais dinheiro no bolso, porém, os moradores continuavam a se queixar dos problemas críticos, como o alto índice de mortalidade infantil. Representantes da fabricante de cosméticos Natura, que treina a população local há 15 anos para a coleta de frutos como andiroba e murumuru, chegaram à mesma conclusão.

As duas empresas resolveram se unir para descobrir a causa dessas questões. “Só medíamos quanto gerávamos de renda para a região”, diz João Paulo Ferreira, vice-presidente de redes da Natura. “Sentimos necessidade de ir além para melhorar de fato a qualidade de vida das pessoas.”

As duas empresas encontraram uma solução no Índice de Progresso Social, metodologia criada por um grupo de especialistas capitaneado por Michael Porter em 2013. Diretor do ranking de competitividade das nações do Fórum Econômico Mundial e professor de Harvard, Porter desenvolveu o índice com o objetivo de levar a medida do desenvolvimento de países a um novo patamar.

Em vez de considerar apenas o sucesso econômico, o novo método avalia diversos aspectos da prosperidade dos países. O índice vale-se de 52 indicadores, agrupados em três categorias: necessidades humanas básicas, fundamentos de bem-estar e oportunidades. O objetivo é dar visibilidade a aspectos como nível de nutrição e acesso a água e esgoto, que interferem diretamente na qualidade de vida e que em geral ficam escondidos nas estatísticas de renda média dos habitantes.

A Noruega é a primeira colocada no ranking de 133 países avaliados pela metodologia atualmente. Nova Zelândia, com metade do PIB per capita, possui praticamente a mesma pontuação. Sétima maior economia do mundo, o Brasil tem um PIB per capita 8% maior do que o da Costa Rica, mas em qualidade de vida está 14 posições atrás, em 42º lugar.

Até agora, o índice só havia sido usado para definir programas de governos. Em 2013, o governo do Paraguai formalizou o Índice de Progresso Social como parâmetro complementar ao PIB para analisar as políticas públicas e estabelecer metas de melhorias. O governo de Michigan, nos Estados Unidos, fez o mesmo para guiar as estratégias de desenvolvimento de cidades como a combalida Detroit.

A Comissão Europeia prepara para divulgar em outubro um levantamento sobre 272 localidades dos 28 países da região. A referência para os executivos da Natura e da Coca-Cola foi uma experiência do Imazon, instituto de pesquisa sem fins lucrativos criado há 25 anos para promover estudos a respeito da Amazônia.

Em agosto de 2014, a organização anunciou os resultados do rastreamento de informações de 772 municípios da região amazônica que teve o Índice de Progresso Social como baliza. “Nenhuma outra metodologia disponível permitia medir ao mesmo tempo a pegada ambiental e social”, diz Tasso Azevedo, consultor em sustentabilidade e conselheiro do Imazon, que participou da criação do Índice de Progresso Social Amazônia, como a iniciativa foi batizada.

No caso do esforço da Natura e da Coca-Cola, o primeiro choque de realidade foi a necessidade de buscar os próprios números. O Índice de Progresso Social analisa dados como a quantidade de usuários de internet e a expectativa de vida ao nascer, normalmente disponíveis em fontes como ONU e Fórum Econômico Mundial no caso de países.

Os dados do IBGE disponíveis para a região referiam-se apenas à zona urbana de Carauari. A situa­ção de distritos mais distantes — alguns acessíveis apenas com uma viagem de 7 horas de barco — era bem diferente. Ao contratar uma empresa para levantar as informações, numa pesquisa que ouviu 415 famílias, as duas empresas descobriram que a taxa de mortalidade infantil da região ribeirinha é o dobro da zona urbana do município — a cada cinco famílias pelo menos uma teve casos de crianças que morreram antes de completar 3 anos.

É um patamar extremamente elevado em relação à média do país. Segundo o IBGE, no Brasil, morrem 17 em cada 1 000 crianças até os 5 anos de idade. Ao identificar as causas, o levantamento demonstrou que o problema não era a desnutrição, como os moradores pensavam. E sim a falta de saneamento básico.

No Médio Juruá, como chama a região onde ficam as comunidades em questão, apenas 5% das casas têm banheiro conectado à rede de água e esgoto. “Não adiantaria fazer um trabalho de educação com mães e pais, ou ajudá-los a diversificar a alimentação da família, como os líderes das comunidades locais nos pediam”, diz Renata Puchala, gerente da Natura, responsável por acompanhar os resultados da iniciativa.

Parcerias

A avaliação foi concluída em maio. Algumas ações, porém, foram iniciadas antes disso, com base em dados preliminares. Em dezembro, as duas empresas ajudaram a ONG Memorial Chico Mendes a organizar um pedido de financiamento no valor de 35 milhões de reais para o Ministério do Desenvolvimento Social com o objetivo de construir uma rede de esgoto e fornecimento de água potável para 2 800 famílias da região.

Em outras frentes, como educação e capacitação profissional, as empresas fizeram uma parceria com a Universidade Estadual da Amazônia para montar um curso superior de formação local de professores ribeirinhos, previsto para iniciar em 2016. Lá, hoje, somente 30% dos moradores com 18 anos ou mais completaram o ensino fundamental. O problema, em muitos casos, é a falta de professores.

Em 2016, a ideia é levar o Índice de Progresso Social para outras comunida­des, a começar por territórios da região amazônica onde a Natura já atua. Outras empresas também demonstraram interesse em adotar o índice na definição de suas ações de sustentabilidade, como a empresa química alemã Bayer e a fabricante chilena de painéis de madeira Masisa.

“Estamos esperando ver os resultados da iniciativa em Carauari antes de incentivar outras empresas ”, diz o boliviano Antonio Aranibar, diretor de redes globais da SPI, organização que promove o uso do índice concebido por Porter. “Demorou cerca de 50 anos para que as nações adotassem o PIB como métrica”, diz o americano Mi­chael­ Green, diretor executivo do SPI. “Pretendemos conseguir o mesmo com o Índice de Progresso Social em cinco anos.” O sucesso de casos como o de Carauari pode ajudar nessa tarefa.

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