São Paulo - "Há um consenso de que o futuro que começa a surgir será bem diferente de tudo o que vimos no passado. Não se trata de uma diferença de intensidade, mas de natureza. Até hoje, não houve um período de mudanças sequer parecido com o que a humanidade está prestes a viver.

Já passamos por períodos revolucionários, mas nenhum tão poderoso e fértil quanto às oportunidades que estão sendo criadas hoje — e também aos riscos. Um dos principais motores dessa transformação é, sem dúvida, a disseminação simultânea da internet e dos recursos onipresentes da computação.

Eles proporcionaram uma extensão planetária do sistema nervoso humano, agora capaz de transmitir informações, pensamentos e sentimentos entre bilhões de pessoas — e tudo isso à velocidade da luz. Estamos conectados a grandes redes de dados de alcance mundial e às demais pessoas por meio de e-mails, mensagens de texto, redes sociais, jogos que permitem a interação com vários usuários e outras formas de comunicação digital. 

Essa mudança revolucionária e ainda em aceleração vem provocando um tsunami de transformações, exigindo modificações significativas (e criativas) em atividades variadas — das artes às ciências, da tomada coletiva de decisões políticas à construção de novas realidades corporativas.

Estamos testemunhando uma multiplicação de novos modelos de negócios, organizações sociais e padrões de comportamento impensáveis antes da era da internet. Do Facebook ao Twitter, da Amazon ao eBay, do Google ao Baidu — incluindo uma dezena de outros empreendimentos inovadores provavelmente abertos desde que você começou a ler este parágrafo —, todos são fenômenos impulsionados pela conexão de 2 bilhões de pessoas (até agora) à internet.

O número de dispositivos digitais conectados já é superior à população do planeta. Segundo algumas projeções, por volta de 2020 mais de 50 bilhões de aparelhos estarão ligados à internet, trocando informações o tempo todo. Se o cálculo incluir dispositivos menos sofisticados capazes de transmitir informações sem fio, o número de ‘coisas conectadas’ cresce bastante.

Algumas escolas já implantaram sistemas capazes de identificar a presença de alunos com base na etiqueta que carregam nos pulso ou no uniforme — o que tem gerado protesto de alguns estudantes. Neste momento de transição, não faltam exemplos do atrito social gerado pelas inovações. 

Uma coisa é certa: a transformação da economia global e a consolidação da Terra como organismo único, integrado por meio do uso intenso de tecnologia, exigirão abordagens políticas totalmente novas. As mudanças trazidas por um mundo cada vez mais interconectado são verdadeiramente globais e históricas.

Ao longo da trajetória humana, o padrão da atividade produtiva já passou por várias mudanças importantes. De forma mais destacada, as revoluções agrícola e Industrial promoveram alterações imensas no modo como a maioria das pessoas vivia seu dia a dia.

As primeiras ferramentas construídas pelo homem, como pontas de lanças e machados, estavam associadas a um sistema de caça e de coleta que, segundo os antropólogos, durou quase 200 milênios. Esse padrão dominante acabou substituído por outro com base na agricultura — e iniciado não muito tempo depois do final da última glaciação —, que imperou por cerca de oito milênios.

Por sua vez, a Revolução Industrial demorou menos de 150 anos para reduzir a porcentagem de ocupação da mão de obra no setor agrícola de 90% para 2% do total da força de trabalho americana. Mesmo quando sociedades ainda baseadas na agricultura de subsistência entram no cálculo total, o campo concentra hoje menos da metade de todos os empregos do mundo.

A transformação nas oportunidades de trabalho exigiu grandes mudanças nos padrões sociais, entre elas a intensa migração das áreas rurais rumo às cidades e a separação geográfica entre a casa e o local de trabalho, para citar somente dois fenômenos impactantes.

O resultado dessas mudanças foi acompanhado por um crescimento econômico que elevou os rendimentos líquidos e reduziu drasticamente o volume de trabalho despendido para atender às necessidades humanas básicas: alimentação, vestuário e proteção, entre outras.

Atividades anteriormente comuns tornaram-se obsoletas, enquanto surgiram outros ofícios que demandavam competências inéditas e uma reformulação do significado de ‘ser produtivo’. Essas transformações aconteceram durante um longo período de tempo, que abrangeu várias gerações.

Nas duas revoluções, as novas tecnologias abriram espaço para outras oportunidades de reorganização da atividade humana em um novo padrão dominante — para muitos, uma ruptura desorientadora —, que ocasionou um aumento concreto na produtividade, ampliou a oferta de trabalho, elevou o rendimento médio, reduziu a pobreza e trouxe melhorias para a qualidade de vida das pessoas. 

Observados em conjunto, esses movimentos delineiam a gestação, a infância e o lento desenvolvimento de uma revolução tecnológica que cresceu e finalmente ocupou papel central no avanço da civilização. Agora, essa revolução parece nos transportar rumo a novas realidades que, moldadas pela tecnologia, às vezes se apresentam ‘indistinguíveis da magia’.

As seis mudanças principais são: uma economia global profundamente interconectada,  uma rede eletrônica global que unirá não apenas seres humanos mas também máquinas e aparelhos inteligentes, um equilíbrio maior na distribuição de poder entre países, o surgimento de políticas públicas globais, um novo conjunto de inovações biotecnológicas capazes de prolongar a longevidade e melhorar a produtividade das lavouras, e, por fim, uma mudança na relação das pessoas com a natureza.

O período de hipermudanças

Estamos em grande parte despreparados para o que está acontecendo. A estrutura de nosso cérebro não difere muito da de nossos ancestrais que viveram há 200 000 anos. Porém, por causa das mudanças radicais provocadas pela tecnologia em nossa vida, somos forçados a considerar a possibilidade de fazer adaptações em nosso projeto de civilização com mais urgência do que parece possível, ou mesmo razoável.

É difícil até perceber e pensar com clareza sobre o ritmo das mudanças que enfrentamos hoje. Conforme explica a Lei de Moore, hoje um iPad de quarta geração tem capacidade de processamento superior à do supercomputador mais poderoso existente há 30 anos, o Cray-2.

As implicações desse novo período de hipermudanças não são apenas de ordem matemática ou teórica. Elas estão transformando a maneira como desempenhamos nossas profissões e a forma como satisfazemos nossas necessidades. Ou seja, as oportunidades de trocar uma tarefa produtiva por dinheiro, desfrutar da sensação de bem-estar e pertencimento a uma comunidade.

Essa troca no centro de nossa vida está se transformando. Entender como ela está ocorrendo nos dará muitas das respostas de que precisamos para entender a nova era que a humanidade começa a experimentar.”

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