São Paulo - O relógio já contava mais de 2 minutos de silêncio quando o representante do único consórcio concorrente do leilão do maior campo de petróleo da história do Brasil sacou um envelope. O consórcio ofereceu à União o mínimo exigido, 41,65% da produção da área de Libra.

Sem disputa, o governo vendeu no dia 21 de outubro, por 15 bilhões de reais, o direito de produzir, por 35 anos, petróleo e gás num campo do pré-sal com reservas estimadas entre 8 bilhões e 12 bilhões de barris.

A falta de concorrentes foi consequência da mudança do marco regulatório do petróleo, em 2010, que aumentou a presença do governo, criou uma estatal para administrar os poços e obrigou a Petrobras a participar da operação de qualquer campo do pré-sal. O governo chegou a esperar 40 concorrentes por Libra, mas no final das contas apenas nove depositaram garantia para a disputa.

Dessas, cinco se uniram num único consórcio — naturalmente, o vencedor. Com a Petrobras (40% de participação), entraram a anglo-holandesa Shell e a francesa Total (com 20% cada uma) e as chinesas CNOOC e CNPC (10% cada uma).

O governo comemorou, e houve uma reação positiva no mercado, especialmente pela surpreendente presença de duas grandes companhias europeias. Mas, obviamente, o verdadeiro desafio de tirar a riqueza do fundo do oceano começa agora.

O pré-sal foi descoberto em julho de 2005 por técnicos da Petrobras que estudavam o bloco de Parati, na bacia de Santos. A descoberta de Tupi, no ano seguinte, confirmou os sinais de que estavam diante de uma nova fronteira petrolífera escondida sob o mar e abaixo de uma camada de rochas e sal na costa brasileira.

O feito foi anunciado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “um passaporte para o futuro”. Há estimativas de que as reservas do pré-sal possam ser de até 90 bilhões de barris. O problema é que isso só terá mesmo valor após a retirada de reservatórios em profundidades que podem chegar a 7 quilômetros em alto-mar.

Além do desafio tecnológico de operação em áreas inóspitas, será preciso mobilizar um volume enorme de investimentos. Estima-se que somente o campo de Libra deverá demandar de 12 a 18 plataformas para dar conta de extrair 1,4 milhão de barris diários no auge da produção, nas projeções da Agência Nacional do Petróleo (ANP). É quase metade de tudo o que o país produz hoje.

Os investimentos na área serão de ao menos 50 bilhões de dólares. Não é uma tarefa simples. Por isso, os olhares agora estão voltados para a capacidade dos integrantes do consórcio, sob a liderança da Petrobras, de fazer o petróleo jorrar — o que só deverá acontecer em quatro anos.

“O leilão de Libra foi melhor do que se esperava em relação à qualidade do consórcio. A participação de empresas privadas como a Shell, uma das maiores do mundo, ajuda a gestão e dá mais segurança financeira, reduzindo o risco estatal”, diz o ex-presidente da ANP David Zylbers­tajn. “Agora a relação entre os sócios começará a ser testada.” 

De fato, é algo a ser observado de perto. Como os sócios vão se entender para começar a lucrar o mais depressa possível? Isso porque uma série de fatores na geopolítica do petróleo impõe um ritmo mais rápido de produção. Desde a descoberta do pré-sal, muita coisa mudou. O mundo entrou em recessão.

Os Estados Unidos desenvolveram tecnologias de produção de óleo e gás não convencionais que prometem converter o país de importador a exportador até 2020. Isso tende a jogar o preço do petróleo para baixo. “O ideal é produzir quanto antes. Hoje, o mercado futuro estima que o preço do barril estará perto de 80 dólares em 2021”, diz Marco Tavares, consultor da Gas Energy. Pelos estudos da ANP, a menos que o preço do barril fique abaixo de 30 dólares (hoje está em 110), a exploração do pré-sal num campo como Libra será lucrativa. 

Interesses conflitantes

A velocidade dos investimentos pode indispor os integrantes do consórcio de Libra. Transformar as reservas em dinheiro o mais brevemente possível é interesse da Shell e da Total. A prioridade dos chineses é o acesso às reservas — eles buscam oportunidades de baixo risco e alto volume no mundo para sustentar o crescimento da China.

Já a Petrobras e a PPSA, estatal criada para gerir os blocos do pré-sal, guiadas pelos interesses do governo, seriam mais comprometidas com a compra de equipamentos de conteúdo local (cuja obrigação vai de 37% a 59%), mesmo que isso possa afetar o cronograma de investimentos.

Um relatório do Tribunal de Contas da União sobre o edital do leilão apontou que o cronograma de entrada em operação das plataformas no campo foi estimado considerando o teto da capacidade da indústria de fornecedores. Na prática, se o consórcio optar por comprar um equipamento nacional mais caro e sofrer atrasos, o lucro da empreitada será menor. Como a palavra final é do governo, há pouco que as multinacionais possam fazer a respeito. 

Para a Petrobras — e seus acionistas —, o desfecho do leilão foi um alívio. Pelas regras do modelo de partilha, a estatal é a operadora obrigatória dos campos do pré-sal — um fardo para suas­ finanças. Seus acionistas temiam que a falta de concorrência acabasse levando a Petrobras a assumir uma fatia majoritária do campo de Libra. Mas não foi o que aconteceu, e as ações da companhia subiram 5% no dia do leilão.

A empresa terá a maior parcela indivi­dual de lucro entre as sócias do campo. A avaliação da maioria dos analistas é que a entrada de competidores privados torna os números de Libra — e o potencial de retorno — mais críveis. “O interesse das estatais chinesas nunca foi muito claro.

Sabe-se que elas têm interesse em garantir certo nível de produção, mas não se sabe qual conta fizeram. É diferente com as companhias privadas. São previsões, mas elas olharam tudo e deram a chancela de que veem potencial”, afirma Marcel Kussaba, analista especializado em petróleo da gestora gaúcha Quantitas, que tem 11 bilhões de reais de patrimônio. 

Por outro lado, a Petrobras será obrigada a investir mais. De cara, vai arcar com 6 bilhões de reais no pagamento de sua parte do bônus de assinatura, que tem de ser feito em um mês. “Para a Petrobras, o problema continua sendo como levantar dinheiro para fazer os investimentos necessários em tantas frentes ao mesmo tempo”, diz Adriano Pires, diretor da consultoria CBIE, especializada em óleo e gás.

No dia seguinte ao leilão, as ações caíram 1,7%. Alguns analistas cogitavam que sócios do consórcio, sobretudo os chineses, pudessem financiar a parcela da Petrobras no bônus, livrando-a do impacto que esse gasto teria em seu já debilitado caixa. No entanto, o presidente da Shell, André Araujo, afirmou, após o leilão, que não há acordo entre os sócios para assumir a parte da Petrobras. A conta de 6 bilhões de reais representa quase 30% do lucro da empresa. 

O bônus é apenas o montante de curto prazo que terá de ser desembolsado. A Petrobras também precisa comparecer com 40% de todo o investimento do projeto. Altamente endividada, teria de combinar sobras de caixa e recursos captados no mercado via empréstimos e emissões de títulos de dívida.

Entre os participantes do leilão, a Petrobras é a empresa que paga mais caro para se financiar, de acordo com o analista Andrew Muench, do banco Brasil Plural. E os custos tendem a subir, já que, no começo de outubro, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota da companhia, citando como principais motivos as dívidas elevadas e o pesado cronograma de investimentos.

“É importante lembrar que outras empresas estrangeiras, como Chevron e BP, fizeram as contas do leilão e ficaram de fora”, diz Muench. “E elas têm um custo de captação inferior ao da Petrobras.” 

Custo e oportunidade

Para ter sobra de caixa, a Petrobras precisaria elevar as receitas, via aumento de produção, e suas margens, o que poderia ser feito por meio de corte de custos — algo que faz parte do novo plano estratégico da companhia e está saindo do papel. Outro caminho é por meio do aumento do preço da gasolina, mas isso precisará passar pela concordância do governo, que teima em usar a tarifa do combustível como instrumento de contenção da inflação.

Uma conta feita pelo banco Brasil Plural, considerando a diferença entre a cotação internacional do petróleo e os valores dos combustíveis aqui, indica que, se a Petrobras não reajustar os preços, seus acionistas perderão, em média, 1 real por ação (cerca de 5% do valor dos papéis) até o fim de 2014.

Num relatório recente, os analistas do banco Itaú BBA afirmaram que uma visão mais positiva para a empresa, e seus projetos, “depende fortemente do reajuste da gasolina e do diesel e, mais importante, de uma fórmula que dê mais clareza à paridade internacional”.

É claro que, por outro lado, o campo de Libra representa uma baita oportunidade. Em tese, a exploração poderia aumentar o preço potencial da ação em cerca de 10%, de acordo com estimativas de corretoras. Mas isso só ocorreria quando — e se — a empresa conseguisse fazer a exploração com sucesso.

A situação delicada da Petrobras é um dos motivos que levaram até integrantes do governo a cogitar uma mudança na regra da operação obrigatória. Para analistas e especialistas ouvidos por EXAME, o resultado do leilão fez o governo ganhar tempo.

Se não houvesse interessados — ou poucas empresas dispostas a formar um consórcio, obrigando a Petrobras a entrar com participação maior —, seria possível que o novo marco regulatório tivesse de ser revisto. Agora o risco deverá ser novamente testado no próximo leilão, que o governo só planeja fazer a partir de 2015. 

A participação obrigatória da Petrobras, o papel da PPSA e as metas de contratação de conteúdo local são apontados como os principais entraves para uma maior competição nos leilões, mas uma alteração do marco regulatório do petróleo não é algo tão simples assim. Seria necessário enviar novo projeto de lei ao Congresso Nacional.

Se os protestos de sindicalistas petroleiros no entorno do hotel onde era realizado o leilão já foram suficientes para levar a presidente Dilma à TV para renegar a carapuça da privatização, não se espera que, em pleno ano eleitoral, o governo se arrisque propondo ao Congresso tirar da Petrobras o papel principal da exploração do pré-sal.

Para Ricardo Savini, diretor da consultoria Deloitte, a participação das empresas privadas já servirá para atrair outras nos próximos leilões. “O fato é que o governo conseguiu fazer e testou o modelo. A participação de Shell e Total mostrou que há rentabilidade possível, mesmo com os riscos, senão elas não entrariam.” Agora, resta a corrida para tirar o óleo de lá — e revigorar, no caminho, a enfraquecida Petrobras.

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