São Paulo - São imensas as diferenças entre países ricos e emergentes — do padrão de hospitais e escolas públicas à infraestrutura logística, do comportamento da classe política à qualidade das calçadas. Diante do contraste entre esses dois mundos, é uma tarefa árdua definir o que um país como o Brasil precisa fazer para escapar da armadilha da renda média.

Nas últimas semanas, EXAME ouviu quase três dezenas de economistas, consultores, executivos e empresários. Todas as entrevistas contribuíram para que se chegasse aos cinco itens publicados aqui. Entre todas as mensagens, porém, uma se destacou pelo poder de síntese.

“A maior fonte de crescimento econômico é um nível elevado e sustentado de investimento. Mas ‘investimento’, nesse caso, deve ser entendido num sentido amplo. Inclui investimento em capital humano (educação e treinamento), em inovação tecnológica e organizacional, assim como em áreas como as de máquinas e infraestrutura. 

A experiência também sugere que a abertura comercial e a competição formam o melhor ambiente”, explicou Robert M. Solow, prêmio Nobel de Economia em 1987 e criador, na década de 50, da teoria que explica o crescimento econômico.

1 Abertura comercial

O problema 

O Brasil é um dos países mais fechados para o comércio, o que inibe nosso potencial de crescimento

Em quais países se inspirar

Tigres Asiáticos, como Taiwan

A solução

Algumas das principais economias do Sudeste Asiático estão entre as que mais se beneficiaram com o processo de globalização, que se intensificou a partir dos anos 80. Com a queda das tarifas de importação e a popularização do uso de contêineres, que baratearam radicalmente o transporte marítimo, multinacionais passaram a fragmentar o processo de fabricação por vários países.

Foram essas mudanças que em seguida resultaram na criação de cadeias produtivas globais. Hoje, 28% das exportações mundiais são produtos e serviços importados, que, depois de incorporados a novos processos, acabam vendidos no exterior novamente.

Sabendo que para aumentar as exportações é preciso elevar as importações, Taiwan especializou-se em nichos da área de computação e telecomunicações e viu suas vendas externas chegar a 300 bilhões de dólares, 25% mais do que as brasileiras. Na Coreia do Sul, mais de 60% das exportações estão ligadas a cadeias internacionais, quase o dobro do percentual do Brasil.

Por aqui, como mostra o último censo do capital estrangeiro, as empresas conectadas às cadeias globais exportam mais, são mais produtivas e têm dado um impulso maior à expansão do PIB do que as demais. De acordo com o estudo Cadeias Globais e Desenvolvimento, publicado pela Unctad em fevereiro, existe uma correlação entre participação nesses sistemas internacionais e crescimento econômico.

Os países cuja presença em cadeias globais mais aumentou nos últimos 20 anos registraram uma taxa de elevação do PIB per capita cerca de 2 pontos percentuais acima da média. “Todos os países que conseguiram sair da armadilha da renda média se abriram para o comércio”, diz o economista Edmar Bacha, um dos criadores do Plano Real.

O livro Does What You Export Matter? (“O que um país exporta é importante?”, numa tradução livre), lançado em 2012 pelo Banco Mundial, faz uma ressalva. O que cada país produz e como produz importa — e muito. Taiwan, assim como o México, está envolvido na produção de PCs. Mas os asiáticos fabricam chips e inovam. Já os mexicanos cuidam da montagem.

“O lugar que o país ocupa dentro da cadeia merece atenção, porque reflete seu grau de desenvolvimento”, diz Maria Cristina Terra, professora de economia da Universidade de Cergy-Pontoise, na França. Só para lembrar: o México continua preso à armadilha. Os Tigres Asiáticos escaparam.

2 Infraestrutura tecnológica

O problema

O Brasil tem serviços de telecomunicações de péssima qualidade e caros. Isso afeta o fluxo da transmissão de dados entre pessoas e empresas

Em quais países se inspirar

Coreia do Sul

A solução

No início dos anos 90, o governo da Coreia do Sul elegeu o setor de tecnologia da informação como prioridade e a criação de uma rede de banda larga como principal meta. A partir dessa decisão, estabeleceu um patamar de qualidade das conexões acima do padrão internacional, eliminou barreiras de entrada para novas operadoras de telecomunicação e estimulou a competição por preços mais baixos.

Hoje, a Coreia do Sul é o país com a maior rede de fibra óptica por habitante e uma referência nos estudos que medem o impacto da infraestrutura de tecnologia da informação no crescimento econômico. Cerca de 20% da expansão do PIB coreano nos últimos cinco anos está ligada ao avanço do setor de TI.

“Com o advento da internet, as pessoas e as empresas aumentaram sua produtividade ao ter acesso a um fluxo muito mais intenso de informações. Por isso, é essencial garantir redes rápidas, confiáveis e acessíveis”, diz o economista Calestous Juma, diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia da Kennedy School, da Universidade Harvard.

De acordo com o Banco Mundial, um avanço de 10% no número de conexões de banda larga num país pode gerar uma contribuição de até 1 ponto percentual para o PIB.

O Brasil tem hoje mais de 100 milhões de usuários de banda larga, mas as conexões são, em geral, péssimas e caras. Segundo um estudo recente da Akamai, empresa de internet americana, a velocidade média da banda larga aqui é de 2,3 megabits por segundo (Mbps), o que nos coloca na 72ª posição em um ranking de 243 países — abaixo da média mundial, que é de 3,1 Mbps, e até da comunista Coreia do Norte.

Já no ranking do preço do serviço de banda larga, o Brasil ocupa as primeiras posições. De acordo com um levantamento da Fundação Getulio Vargas, o brasileiro precisa trabalhar, em média, 5 horas por mês para pagar uma conexão de 1 Mbps. Numa lista de 15 países, só estamos melhor do que os argentinos, que precisam trabalhar 5 horas e 15 minutos.

No Chile, o serviço é pago em 2 horas e meia de trabalho e, em Portugal, em 1 hora. “Além da alta carga tributária, de 40%, há poucas operadoras de internet para um país com as dimensões do Brasil. Um setor de pouca competição e com regulação ineficiente deixa o consumidor refém do preço, o que acaba sendo um entrave para o desenvolvimento do país”, diz Samy Dana, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, e responsável pelo levantamento. 

Há três anos, o Ministério das Comunicações lançou um plano nacional de banda larga, mas os resultados, até agora, são pífios. Parte do problema deve-se ao fato de o governo ter exigido planos com preços baixos às operadoras em detrimento da qualidade. Agora o governo fala em aumentar a infraestrutura pesada, levando fibra óptica para as 5 570 cidades do Brasil — hoje, cerca de 3 000 são conectadas pela tecnologia.

De acordo com um estudo feito pela consultoria McKinsey a pedido da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, as vendas do setor de TI no Brasil em 2012 representaram 5,2% do PIB. Esse percentual em nações ricas fica entre 7% e 8%.

“A boa notícia é que o Brasil tem plenas condições de atingir esse patamar nos próximos dez anos”, afirma o português Paulo Fernandes, diretor da McKinsey no Brasil. O estudo sugere que o país trabalhe com a meta de quase dobrar o mercado local de TI até 2022 — saindo do faturamento atual que equivale a 123 bilhões de dólares e chegando a 230 bilhões de dólares.

Como manter-se competitivo internacionalmente é tão importante quanto crescer, a pesquisa fala em aumentar as exportações de 2% das receitas do setor para 8%. Atingir esses objetivos, diz a consultoria, poderia criar 1,5 milhão de empregos diretos, além de disseminar o uso da TI e da internet rápida entre hospitais, escolas, órgãos públicos e pequenas e médias empresas de todo o país.

“Esse progresso, porém, depende de uma melhora significativa na qualidade da rede de banda larga do país”, diz Fernandes. É começar a fazer — já — o que os coreanos fazem há 20 anos.

3 Inovação e empreendedorismo

O problema

Temos uma economia muito pouco inovadora. O Brasil, sétima economia do mundo, ocupa a 27a posição no ranking dos países que mais registraram patentes nos Estados Unidos

Em que país se inspirar

Israel

A solução

Uma anedota contada por empreendedores israelenses é que a primeira startup criada em Israel foi o próprio país. Fundado em 1948, Israel passou as últimas décadas investindo para se desenvolver num território com bens naturais escassos. Hoje, o país é um dos cinco maiores produtores de patentes por habitante do mundo — fica atrás somente de Estados Unidos, Japão, Suíça e Finlândia.

No ano passado, registrou quase 2 500 patentes nos Estados Unidos, enquanto o Brasil não chegou a 270. É a nação com a maior densidade de empresas de tecnologia. São 4 800 em uma população de 8 milhões — no Brasil, são cerca de 10 000 para uma população de 190 milhões.

Israel também ocupa o primeiro lugar no ranking que mede o percentual de investimento do PIB em pesquisa em desenvolvimento: 4,5%. O Brasil investe 1%. Como um país do tamanho de Sergipe conseguiu tudo isso?

Entre os principais motivos estruturantes está o fato de os israelenses terem copiado dos Estados Unidos a cultura de universidades empreendedoras. Professores comandam laboratórios como se fossem seu próprio negócio, e os alunos são incentivados a criar suas startups.

O financiamento vem tanto do governo quanto do meio privado. “No Brasil, se você é um professor em tempo integral numa universidade pública, está proibido por contrato de começar uma empresa. Em Israel e nos Estados Unidos, é até incentivado”, diz Anthony Knopp, diretor do Industrial Liaison Program, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), um grupo criado para fazer a ponte entre as empresas e a universidade.

A economia do Vale do Silício, onde estão as grandes empresas americanas de internet e a Universidade Stanford, é um dos principais motores da recuperação americana — tem crescido o dobro da média nacional. Apesar de existirem no Brasil algumas poucas iniciativas entre o setor privado e as instituições de ensino, ainda há muita resistência.

“É uma combinação de falta de conhecimento sobre o setor privado com uma dose de preconceito”, diz o biólogo Fernando Reinach, gestor do fundo de investimentos Pitanga.

Israel é referência no que se convencionou chamar de inovação disruptiva, ou inovação radical. São tecnologias que criam mercados novos — diferentemente da inovação incremental, que se propõe a melhorar tecnologias já existentes.

“Países no patamar acima da renda média e de alta renda crescem cada vez mais devido a ganhos de produtividade gerados por suas inovações disruptivas”, diz Shahid Yusuf, economista da Universidade George Washington e um dos autores do livro Some Small Countries Do It Better (“Alguns países pequenos fazem melhor”, numa tradução livre), lançado em fevereiro.

Um exemplo disso é a startup israelense PrimeSense, que desenvolveu um sensor que lê movimentos do corpo, hoje presente no console de jogos Xbox 360, da Microsoft. “No Brasil, a cada dez empresas em que investimos, duas são de inovação disruptiva”, afirma Fabio Bruggioni, presidente do fundo de capital de risco e.Bricks, da RBS.

“Em fundos de investimento israelenses, essa proporção é inversa.” Israel só ultrapassou o teto da renda média nos anos 80, mais de três décadas após o Instituto Weizmann, de Tel Aviv, lançar o Weizac, um dos primeiros computadores vendidos em larga escala no mundo. Como mostra o exemplo israelense, o caminho da inovação é longo, mas costuma ser recompensador. 

4 Educação superior

O problema

O Brasil forma engenheiros em número insuficiente e com pouca qualidade para sustentar o avanço da economia

Em que país se inspirar

Japão

A solução

A experiência dos países que se tornaram ricos nas últimas décadas mostra que ter mão de obra qualificada, formada em universidades de qualidade, foi condição fundamental para vencer a “armadilha da renda média”. O Japão tornou-se um caso clássico.

O país terminou a Segunda Guerra Mundial como uma nação pobre, com PIB por habitante abaixo de 3 000 dólares. Mas soube aproveitar os investimentos estrangeiros que chegavam em abundância para ajudar em sua reconstrução.

Os japoneses concentraram o esforço em duas frentes: inovação industrial e formação de engenheiros — sendo que a primeira dependeria do sucesso da segunda. O plano foi bem executado e o Japão precisou de pouco mais de uma década para se livrar da armadilha, colocando-se rapidamente na vanguarda tecnológica.

Os reflexos dessa política persistem até hoje: quase 20% dos jovens japoneses que se formam nas universidades escolheram a engenharia como carreira. Já no Brasil, a participação não chega a 5%.

Para atender o crescimento da economia, a Federação Nacional dos Engenheiros estima que o país precisaria anualmente de 60 000 novos formados. Na última contagem feita pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o Brasil havia posto no mercado apenas 44 000 profissionais de engenharia em 2011.

Além da baixa quantidade, falta qualidade. Na lista das 50 melhores faculdades de engenharia do mundo, não há nenhuma brasileira. A deficiência se reflete no desempenho dos engenheiros formados no país.

Uma pesquisa recente da consultoria McKinsey com 83 multinacionais que atuam em países emergentes mostra que apenas 13 em cada 100 engenheiros brasileiros têm formação considerada adequada para a área em que atuam. Na Hungria, o melhor entre os emergentes, o aproveitamento é de 50%. A defasagem não se limita à engenharia. Também se dá, na mesma proporção, no caso dos profissionais de finanças e contabilidade.

Para os economistas, a situação do Brasil em relação à formação de engenheiros — elemento básico no motor de desenvolvimento dos países — tem um impacto considerável na produtividade média do trabalhador brasileiro. A produtividade no Brasil está estagnada há três décadas — nosso produto per capita de 20 000 dólares por ano é um quarto do índice do Japão.

Antonio Cássio dos Santos, presidente para a América Latina da suíça Zurich Seguros, sente essa diferença em sua rotina quando precisa preencher um cargo gerencial em sua companhia. “Trazemos um inglês ou um espanhol para trabalhar aqui por 70% do salário de um brasileiro e com nível de formação mais avançado”, afirma Santos.

Nos últimos anos, o Brasil evoluiu consideravelmente na oferta de cursos de ensino superior — hoje, cerca de 20% dos brasileiros entre 18 e 24 anos de idade têm acesso à universidade, 110% mais do que em 2000. Os números mostram que o avanço da qualidade desses cursos, no entanto, não ocorreu na mesma velocidade. Eis o desafio do Brasil para os próximos anos — e décadas.

5 Instituições sólidas

O problema

No Brasil, parte do alicerce institucional que dá sustentação à economia perdeu a credibilidade

Em que país se inspirar

Estados Unidos

A solução

A cidade de Nogales é cortada ao meio por um muro. Ao norte, as escolas estão cheias de crianças e adolescentes, as pessoas gozam de boa saúde, há saneamento em todos os bairros e a renda per capita é de cerca de 30 000 dólares. Ao sul, muitos jovens estão fora das escolas, a criminalidade é alta, o PIB per capita é de cerca de um terço do registrado no outro lado do muro e a saúde pública é péssima.

O povo, a cultura e o clima são os mesmos. A diferença entre as duas cidades são as instituições. A Nogales do norte fica no estado americano do Arizona. A do sul,  no estado mexicano de Sonora. Esse é um dos exemplos usados pelos economistas Daron Acemoglu e James Robinson no livro Por Que as Nações Fracassam, lançado no ano passado e já considerado um marco.

Acemoglu, professor no MIT, e Robinson, professor da Universidade Harvard, argumentam que alguns países são mais pobres do que outros por causa da qualidade das instituições. São elas que dão forma aos incentivos para as decisões de investimento — em infraestrutura, na formação da mão de obra, em máquinas e na inovação. As instituições são, em resumo, o alicerce sem o qual nenhum item crucial para o crescimento consegue ficar de pé. 

No Brasil, o que se viu nos últimos anos foi um retrocesso nessa área. A confiança no Banco Central como guardião da moeda, por exemplo, ficou chamuscada devido à alta da inflação. A credibilidade do Tesouro como gerente das contas públicas foi corroída por manobras que encobrem gastos.

O superávit primário do primeiro semestre foi de 34,4 bilhões de reais, o pior desde 2010 — e o governo ainda fez um “gol de mão” ao acrescentar 10 bilhões de reais de dividendos de estatais. “No que diz respeito ao arcabouço institucional, perdemos parte do que havíamos conquistado em duas décadas”, diz Rodrigo Azevedo, ex-diretor do BC e um crítico da atual gestão do BNDES.

“Quais são os critérios usados para definir o tamanho e o destino dos empréstimos do banco? Uma instituição que usa dinheiro público tem de prestar contas à sociedade.” No ano passado, houve um incêndio em um hotel em Nogales, México, e bombeiros americanos foram chamados. No caso das instituições econômicas brasileiras, quem vai apagar o fogo?

Tópicos: Banda larga, Internet, Ásia, Coréia do Sul, Desenvolvimento econômico, Crescimento, Estados Unidos, Países ricos, Infraestrutura, Inovação, Israel, Japão, Patentes, Países emergentes, PIB, Indicadores, Taiwan, Vale do Silicio, Califórnia