São Paulo - Desde a crise asiática de 1998, a China tem vivido um crescimento anual da economia superior à meta previamente estabelecida pelo Partido Comunista. Todo esse sucesso ao longo de quase 15 anos acabou conferindo muita confiabilidade aos anúncios feitos pelas autoridades chinesas.

Nos últimos tempos, porém, a confiança nas previsões oficiais está diminuindo em segmentos do mercado e, aparentemente, até no alto escalão do governo chinês. Pelo menos foi essa a impressão deixada por Lou Jiwei, ministro das Finanças, em visita aos Estados Unidos em julho, quando disse que estava confiante numa elevação do PIB de 7% em 2013. Detalhe: a meta oficial é 7,5%.

O erro — ou teria sido um ato falho? —, imediatamente corrigido, é mais um capítulo na história da desaceleração da economia chinesa. O último resultado anualizado foi de 7,5%, mas há três trimestres o PIB está numa decrescente. Ao mesmo tempo que aumentam os temores a respeito da robustez do sistema financeiro, o FMI lançou um documento se dizendo preocupado “com o aumento das vulnerabilidades”.

Para tentar reverter as expectativas negativas, o governo chinês tem falado mais na meta de transferir cerca de 300 milhões de pessoas do campo para as cidades até 2030, o que evitaria que o crescimento econômico caísse a níveis muito baixos e, claro, teria grande repercussão em países produtores de commodities, como o Brasil. 

Cada chinês em uma área urbana consome 22 quilos a mais de carne por ano do que aquele que fica no meio rural. Por isso, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais estima que nossas exportações de soja em grão apenas para alimentar o rebanho de frangos da China podem crescer 2,7 milhões de toneladas ao ano até 2030.

“Ainda que a economia chinesa desacelere, o processo de urbanização vai fortalecer muito o negócio de alimentos por lá”, diz Wilson Mello, vice-presidente de assuntos corporativos da empresa de alimentos BRF.

A companhia, que exportava apenas produtos básicos de frango e suíno para a China, firmou em 2012 uma joint venture com a chinesa Dah Chong Hong para produzir e distribuir produtos mais sofisticados, como os in natura e também os processados. Nos planos da BRF está a construção ou a aquisição de uma fábrica própria na China. 

Cálculos do Instituto Chinês para Reforma e Desenvolvimento, instituição pública especializada em pesquisa e planejamento, estimam que seja necessário um investimento em infraestrutura de 16 000 dólares para cada cidadão tirado do campo, o que eleva a conta da próxima onda de migração para cerca de 4,8 trilhões de dólares. 

“Só o dinheiro público não será suficiente. Vamos precisar atrair o capital privado para nossa urbanização”, diz Chi Fulin, presidente do instituto. A empreitada prevê a criação de 9 milhões de empregos por ano e a construção de 5 milhões de prédios.

No caso específico do minério de ferro, o primeiro item da pauta brasileira de exportações, se 300 milhões de chineses mudarem para as cidades nas próximas duas décadas, a demanda total da China será da ordem de 420 milhões de toneladas ao ano, crescimento de 40% em relação a hoje. 

Na Vale, no entanto, o cenário-base para 2030 é menos otimista. A mineradora considera um acréscimo de 230 milhões de pessoas nas áreas urbanas, o que, caso confirmado, será suficiente para manter o preço do minério de ferro acima dos 100 dólares a tonelada — hoje, o valor é de cerca de 130 dólares.

A expectativa é de que até 2030 a demanda continue crescendo na faixa de 4% a 5% ao ano. Essa estimativa leva em conta as crescentes deficiências da mineração feita na China. O país produz minério de ferro, mas a qualidade tem caído e o custo subido. “No futuro, a demanda por minério no país crescerá num ritmo menor, mas, como a importação aumentará, poderemos ganhar participação de mercado”, diz José Carlos Martins, diretor executivo de ferrosos e estratégia da Vale.

É essa perspectiva que justifica o investimento de 19,5 bilhões de dólares em uma nova mina no Pará. Quando entrar em operação plena a partir de 2016, a mina extrairá 90 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, o que equivale a um terço da produção atual. 

Para as empresas focadas no mercado chinês, mudanças nas regras sobre os direitos dos migrantes já instalados nas cidades é tão importante quanto a taxa de urbanização até 2030. Um trabalhador rural que chega numa cidade e não consegue um Hukou, registro local, não tem direito aos serviços públicos de saúde e educação.

Sem essas garantias, os migrantes acabam gastando 30% menos do que um trabalhador urbano legalizado. Regularizar a condição dessas 220 milhões de pessoas em áreas urbanas em todo o país seria outra estratégia para dar um impulso na economia.

Segundo um estudo de três universidades chinesas, a remoção do sistema de Hukou acrescentaria 36 bilhões de dólares ao consumo. De olho nesse efeito, os dirigentes chineses prometem o anúncio, em breve, de mudanças no sistema de registros de residências.

A locomotiva sem fôlego?

Para parte do mercado, o governo chinês perdeu o toque de Midas e ficará longe de atingir a meta de urbanizar cerca de 300 milhões. O americano Shawn Hackett, presidente da consultoria de commodities Hackett Financial Advisors, na Flórida, prevê que 150 milhões de pessoas sairão do campo nas próximas duas décadas e que o preço de várias commodities vai despencar.

“A história sugere que países que viveram períodos longos de alto crescimento acabam tendo freadas bruscas”, diz Hackett. Indícios que justificam a posição de Hackett não faltam. As exportações estão em queda e aumentam os receios a respeito da solidez do mercado de crédito — pelos cálculos do banco Credit Suisse, os empréstimos sem supervisão do governo totalizam 22,8 trilhões de dólares, o que representa 44% do PIB.

São fatores como esse que têm, aos poucos, baixado as previsões de crescimento. “Não está descartada uma expansão do PIB neste ano de cerca de 6%”, diz Michael Pettis, professor de finanças na Universidade de Pequim. A seu favor, os dirigentes chineses têm um ótimo histórico. Nas últimas duas décadas, promoveram a transferência de 380 milhões de pessoas do campo para as cidades, um processo apontado como uma das causas do superciclo de commodities iniciado há cerca de dez anos.

Os chineses foram responsáveis por 90% do aumento da demanda por cobre de 2000 a 2006, pela elevação da demanda de minério de ferro de 2000 a 2010 e por um terço do consumo mundial de alumínio de 2003 a 2007. Será que desta vez a história se repetirá? O Brasil e suas empresas esperam, não sem certa ansiedade, conhecer essa resposta.

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