São Paulo - Os 14 brasileiros retratados na foto que abre esta reportagem seguiram, cada um a seu modo, uma próspera carreira internacional. Com doutora­do em áreas como engenharia e computação e fluentes em diversas línguas, eles viveram um período médio de cinco anos em países como Estados Unidos, França e Japão.

Até que um projeto em comum os trouxe de volta para casa — fa­zer parte do primeiro centro de pesquisa da multinacional americana General Electric no país. Sediada no Rio de Janeiro e sob o comando do america­no Ken Herd, essa equipe tem a missão de fazer algo inédito em 93 anos de existên­cia da subsidiária — desenvolver tecnologias novas para explorar o petró­leo do pré-sal ou turbinas de avião movidas a biocombustível.

Criado em setembro de 2011, o laboratório passará por uma expansão que exigirá investimentos de 500 milhões de reais. Fazem parte do time profissionais como o paulistano Bruno Parodi, de 35 anos. Doutor em engenharia pela Universidade Helmut Schmidt, na Alemanha, e fluente em cinco idiomas, ele morou dez anos fora do país. Em 2012, deixou o la­bo­ratório da GE em Berlim para gerenciar uma área de pesquisa da empresa no Brasil. “Nunca pensei que coordenaria projetos tão sofisticados aqui”, diz ele.

Atrair profissionais qualificados como Parodi representa uma conquista fundamental para o futuro do país. Com um dos mais baixos estoques de profissionais com nível superior do mundo — equivalente a apenas 7% da população entre 24 e 35 anos —, o Brasil tem na falta de gente qualificada um dos principais fatores de risco ao crescimento da economia nos próximos anos. Sim, temos uma infraestrutura em frangalhos e um ambiente de negócios que é uma piada. Mas é na briga pelos melhores profissionais que decidiremos o país que vamos ser.

Estima-se que hoje já faltem 150 000 engenheiros na indústria brasileira. Num contexto em que se espera uma demanda crescente por esses profissionais, entrar na acirrada disputa global por cérebros é a única opção imediata. Segundo o economista Bráulio Borges, da consultoria LCA, a entrada de 1 milhão de pessoas em um ano pode elevar o PIB em 0,4 ponto porcentual ou mais. “Esse crescimento pode ser ainda maior caso os estrangeiros tenham escolaridade superior à média brasileira”, diz Borges. 

Oportunidade

De fato, pode-se dizer que nunca houve um momento tão favorável para o Brasil atrair profissionais bem formados no mundo. De um lado, o país nunca teve tantas vagas para especialistas de primeira linha. Só no Parque Tecnológico do Rio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde está a obra do novo laboratório da GE, outras 12 empresas, como Siemens e Usiminas, constroem centros de inovação com investimentos conjuntos de 1 bilhão de reais. O mesmo se observa em outras regiões do país.

No interior de São Paulo, a americana 3M iniciou neste ano a ampliação de seu laboratório, que hoje possui 175 pesquisadores. Outros 100 serão contratados nos próximos cinco anos com o objetivo de registrar até dez patentes por ano. De outro lado, a oferta de gente boa desempregada em países ricos — sobretudo no caso da Europa — segue nas alturas.

Somente na Espanha, há 781 000 espanhóis com ensino superior de braços cruzados. Uma conta conservadora estima em 1,5 milhão o número de profissionais qualificados sem emprego na Europa — e, em tese, prontos para ser contratados em países como o Brasil.

Não se trata, porém, de uma oportunidade que deve durar muito tempo. Estimativas mostram que gente qualifi­ca­da será um bem cada vez mais escasso. Segundo dados da consultoria de es­tratégia McKinsey, haverá um déficit de 40 milhões de profissionais com nível universitário no mercado de trabalho global em 2020 — o equivalente a 10% da demanda por esse profissional. A razão se deve a uma mudança drástica e contínua no perfil do mercado de trabalho.

Em países ricos, o percentual de empregos que exigiam nível superior não passava de 12% há 30 anos. Hoje chega a 24%. Nos países emergentes, essa proporção passou de 4% para 10% no mesmo período. Países que já se recuperam da crise começam a apresentar sinais dessa escassez.

Segundo dados do governo americano, cerca de 120 000 empregos que exigem nível superior em ciência da computação serão criados no país apenas neste ano. As universidades americanas, entretanto, vão formar apenas 40 000 jovens nessa área. “Mesmo se os países ricos dobrarem a taxa de formação de univer­sitários, não conseguirão suprir a falta de gente qualificada”, diz Richard Dobbs, diretor do McKinsey Global Institute e responsável pelo estudo.

“A circulação de cérebros vai determinar a competitividade dos países na próxima década.” Pode-se traçar um paralelo entre a situação atual e a que beneficiou os Estados Unidos na época da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, centenas de europeus migraram para o país no que se tornou o primeiro movimento de “drenagem de cérebros” da história. O imigrante mais célebre foi o alemão Albert Einstein, que se mudou para os Estados Unidos em 1933 e se naturalizou americano em 1940.

Fora do jogo

Apesar das conquistas pontuais e do vento a favor, o Brasil ainda está longe de brilhar nessa batalha. É fato que o país registrou um salto nas emissões de vistos para estrangeiros — de 250% nos últimos cinco anos. Mas apenas 2% dos quase 270 000 vistos concedidos nesse período foram destinados a profissionais com 17 anos de estudo ou mais, tempo correspondente à obtenção de uma pós-graduação.

No campo acadêmico, uma porta de entrada importante para jovens bem formados, o país também fica para trás. A despeito do impulso de programas como o Ciência sem Fronteiras, iniciado em dezembro de 2011 pelo governo federal e que já mandou 22 000 universitários para cursar um ano da graduação em 39 países, o Brasil está muito aquém de boa parte dos países no intercâmbio de estudantes. No caso da atração de estudantes americanos, por exemplo, somos superados até pela Argentina.

Por razões que variam da falta de estratégia das políticas públicas à burocracia das instituições, o fato é que o Brasil ainda está fora desse jogo. “A imigração não é tratada como um tema estratégico aqui”, diz Marco Aurélio Ruediger, pesquisador sobre imigração da Fundação Getulio Vargas.

Enquanto isso, a atração de gente qualificada está no centro da agenda em diversos países. Nos Estados Unidos, onde estão os maiores polos de concentração de cérebros no mundo, o assunto é prioridade para o presidente Barack Obama. A meta é ampliar a concessão de vistos sobretudo a empreendedores, com a intenção de manter o efeito virtuoso da presença estrangeira — quase metade das empresas criadas no Vale do Silício desde 2006 foi fundada por imigrantes atraídos pelas universidades de primeira linha e pelo capital de risco.

Na América Latina, o Chile é um exemplo bem-sucedido nesse sentido. Em 2010, um programa do governo passou a oferecer 40 000 dólares e visto a empreendedores. Até agora, 900 estrangeiros de 37 países se instalaram em Santiago, numa área apelidada, não sem exagero, de Chilecon Valley.

Na Alemanha, país industrializado que, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mais sofrerá com a falta de gente especializada nos próximos anos, já se fala da necessidade de forjar uma willkommenskultur, ou “cultura de boas-vindas”. Em agosto de 2012, o país passou a facilitar o visto de permanência para não europeus com diploma acadêmico e salários acima de 46 400 euros por ano. Em fevereiro, lançou um programa para financiar cursos de alemão e estágios para jovens europeus. 

A própria experiência brasileira ilustra o benefício da abertura do país para estrangeiros. A Universidade de São Paulo, melhor do país e 158a do mundo, nasceu com a ajuda de 14 estrangeiros em 1934, que desenharam os primeiros cursos. A maioria veio da França, na área de humanidades, e da Alemanha, na área tecnológica. Outra instituição de excelência, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária qualificou sua primeira equipe, nos anos 70, ao enviar 1 000 brasileiros para os melhores centros de pesquisa do mundo. 

Mas, ao longo do tempo, a burocracia pública sufocou o intercâmbio. Hoje há uma enorme barreira para o fluxo de cérebros no país. Até 1996, instituições públicas nem sequer podiam contratar estrangeiros. Mesmo com a legalização, ninguém entra numa universidade para lecionar sem concurso público — e isso vale tanto para um recém-formado como para um Ph.D. com prêmio Nobel.

As provas são presenciais e poucas universidades as traduzem para outras línguas. Os aprovados têm de ter dedicação integral, algo muitas vezes inviável para quem já consolidou uma carreira lá fora. “Em outros países, profissionais de alto nível são contratados com base no currículo e há flexibilidade para que haja dedicação parcial”, afirma a astrofísica brasileira Duília de Mello, que deixou o país há 15 anos para trabalhar na Nasa, onde está até hoje.

Em 2012, ela ajudou a criar vagas na agência espacial para estágio de alunos brasileiros do Ciência sem Fronteiras, um dos únicos vínculos que ela mantém com o país. “Gostaria de me dedicar a pesquisas no Brasil, mas as regras tornam tudo difícil.”

Para driblar essas amarras, existem iniciativas pontuais. Um exemplo é o São Paulo Excellence Chair, programa lançado em 2012 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para trazer cientistas renomados para laboratórios de universidades paulistas. Os cientistas têm liberdade de vir em tempo parcial por períodos de até cinco anos. Por enquanto, três foram selecionados. “É um projeto piloto, mas pretendemos que ele cresça”, diz Carlos Brito, diretor científico da Fapesp.

Entre os pesquisadores que aceitaram participar do projeto está o casal de brasileiros Ruth e Victor Nussenzweig, ambos de 85 anos. Desde 1964 eles são pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, onde desenvolveram a primeira vacina contra a malária em 2011. “Em quase 50 anos, nunca tivemos oportunidade de colaborar com a ciência brasileira”, diz Victor, que deverá trabalhar três meses por ano na Universidade Federal de São Paulo. “Ainda é uma exceção, mas foi um avanço.”

Nenhum outro projeto hoje pretende resgatar as origens — e desafiar as restrições estatais — nas mesmas proporções que as do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Há um ano, o paranaense Carlos Pacheco, reitor do ITA, começou a articular um acordo com o Massachusetts Institute of Technology, o mítico MIT, em Boston, uma das cinco melhores universidades do mundo e de onde saiu boa parte do grupo de 40 estrangeiros que ajudaram a montar o instituto nos anos 60.

“Hoje, apenas 10% do quadro de professores vem de fora do país”, diz Pacheco. O pro­jeto prevê a revisão do currículo e a criação de um laboratório de inovação para colaboração com empresas, como o Media Lab, do MIT. A inspiração veio do acordo que a universidade americana tem com Singapura, que desde 2007 envolve 900 pesquisadores dos dois países.

No caso do ITA, a participação de empresas no laboratório deverá facilitar os contratos para a ida e a vinda de estrangeiros. Em paralelo ao acordo, a instituição prevê dobrar para 240 o número de alunos aceitos todo ano em seus cursos a partir de 2014. O investimento será de 150 milhões de reais. “Levamos um ano para acertar o escopo e agora devemos esperar quatro meses para a costura jurídica da parceria”, diz Pacheco. 

Exemplos mostram que o país pode se beneficiar também do êxodo de cérebros — à medida que se forma uma rede de aliados nas principais instituições do mundo. É o caso do ambicioso projeto de construção de um centro de pesquisa do grafeno, cristal que promete multiplicar a velocidade de cabos de fibra óptica, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. A tecnologia rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2010 a dois pesquisadores russos radicados na Inglaterra.

O laboratório brasileiro saiu em tempo recorde graças à amizade entre os físicos Antonio Castro Neto e Eunezio de Souza, colegas de graduação da Unicamp. Hoje, Castro Neto é diretor do Centro de Pesquisa em Grafeno da Universidade Nacional de Singapura, um dos pioneiros na pesquisa do material. Souza, professor do Mackenzie, apresentou a proposta ao reitor, que aprovou a obra em dez meses.

O Mackgrafe, como é chamado, consumirá 26 milhões de reais. A inauguração está prevista para maio de 2014. “Será um dos poucos laboratórios do mundo a estudar o material”, diz Castro Neto, que visitará o Brasil duas vezes por ano.

Boa parte dos países empenhados em abrir suas portas busca flexibilizar o visto para profissionais especializados. Por aqui, o processo é um dos mais complexos e demorados do mundo — exige a apresentação de 19 documentos, como o certificado de graduação na área em que vai atuar no Brasil. Se o profissional é formado em engenharia e vem trabalhar no setor financeiro, o pedido é negado.

“O processo pode levar até seis meses”, diz Fabiano Kawai, sócio da consultoria especializada Emdoc. É três vezes mais que no México, por exemplo. A canadense Fanny Béron, de 32 anos, sentiu os efeitos na pele. Engenheira pela Universidade de Montreal, ela concluiu o pós-doutorado na Unicamp em 2012. Em agosto, passou em primeiro lugar num concurso para professor na universidade. Mas, ainda sem o visto, não assumiu o cargo. “Não esperava enfrentar tanta dificuldade”, diz.

Entraves

Não há saída fácil nem para quem gera emprego no país. Os americanos Kimball Thomas e Davis Smith, com MBA em Wharton e Harvard, são exemplo disso. Em 2011, eles criaram em São Pau­lo uma empresa de venda de artigos para bebê pela internet, a Baby.com.br, hoje com 250 funcionários. A companhia já estava em operação quando tiveram de sair do país às pressas. O visto de trabalho pedido quatro meses antes não estava pronto. Na espera, ficaram dois meses fora do país. “Nesse período, diversas decisões ficaram paradas”, diz Smith.

Há regras que parecem criadas apenas para atrapalhar. Se um executivo estrangeiro que já exerce atividade no país muda de cargo na mesma empresa, precisa registrar uma alteração no Ministério do Trabalho, num ritual tão moroso quanto tirar um visto. Pelo menos há gente no governo que já reconhece o problema.

“As regras atuais, criadas no regime militar, são anacrônicas”, diz Ricardo Paes de Barros, secretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Uma nova lei de imigração para reduzir a complexidade da lei tramita no Congresso há três anos — prazo nada animador. É um sinal claro de que o assunto está longe de ser prioritário. Pode ser mais uma daquelas oportunidades perdidas que a competição global não vai perdoar.

Texto atualizado no dia 8 de maio, às 17h32 

Tópicos: Competitividade, Desenvolvimento econômico, Crescimento, Economia brasileira, Talentos