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São Paulo - A primeira entrevista que o italiano mario Draghi deu ao tabloide Bild, de Berlim, como presidente do Banco Central Europeu (BCE), em março, começou com uma pergunta capciosa. Para os alemães, disse o editor do jornal, um bom banqueiro precisa seguir rigorosamente a cartilha do combate à inflação, assegurar sua independência e favorecer a força da moeda.
Logo após essa breve introdução, disparou: “Quão alemão o senhor é?”. Sem pestanejar, Draghi respondeu: “Essas são virtudes germânicas, mas todo banqueiro central da zona do euro deveria tê-las”. A declaração soou como música aos ouvidos de Jens Weidmann, o ortodoxo presidente do Bundesbank, o banco central alemão.
Para que Draghi não se esquecesse do que havia dito, os editores do Bild, cheios de graça, o presentearam com um pickelhaube, capacete tradicional do Exército prussiano no século 19. Essa lua de mel, no entanto, durou pouco. No final de julho, Draghi escandalizou muitos alemães ao dizer que faria “o que fosse preciso” para preservar o euro, frase interpretada como o prenúncio de uma compra massiva de títulos públicos emitidos por países europeus à beira do colapso financeiro.
Para conseguir atrair investidores, os governos de Espanha e Itália têm sido obrigados a oferecer juros perigosamente próximos, ou até superiores, à marca de 7% — nível considerado insustentável, que precedeu os resgates da Grécia e de Portugal. A lógica defendida por Draghi é fazer o BCE comprar esses papéis, o que forçaria as taxas para baixo.
O Bild, sempre com humor, logo traduziu a insatisfação alemã numa manchete: “Chega de dinheiro alemão para Estados falidos, Herr Draghi!”. No texto da reportagem, um recado: “Queremos nosso capacete de volta!”. Weidmann também não deixou Draghi sem resposta. Em uma entrevista publicada no site do Bundesbank, no começo de agosto, Weidmann elevou o tom: “Somos o maior e mais importante dos bancos centrais do euro. Temos mais voz do que os outros”.
A visão conservadora de Weidmann é uma característica tão largamente conhecida que um ex-chefe seu costuma dizer que “ele bebeu política monetária no leite da mãe”. Para Weidmann, as propostas de Draghi estão mais para o financiamento de países — em grande parte, com dinheiro alemão — do que para política monetária.
Na tentativa de reduzir as críticas mais ortodoxas, Draghi, mesmo sem dar detalhes, já sinalizou que qualquer compra de títulos estará condicionada a um pedido formal de resgate dos países. Mais que uma formalidade, essa é uma maneira de assegurar que os governos se disponham a fazer ajustes fiscais. Grosso modo, essa imposição é a principal diferença em relação às compras de títulos realizadas pelo BCE a partir de 2010, que também receberam uma saraivada de críticas da Alemanha.
A discordância entre Draghi e Weidmann, que invariavelmente freia a adoção de medidas consideradas cada vez mais cruciais para a sobrevivência do euro, tem como pano de fundo uma discussão que ultrapassa as fronteiras europeias: qual é, afinal, o limite da atuação dos bancos centrais?
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