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Entrevista | 25/05/2012 09:10

"Não vivo da caridade do governo", declara Joesley Batista

Joesley Batista, dono da processadora de carne JBS, nega o papel do governo na compra da empreiteira Delta e explica o que viu na empresa ameaçada de ruir sob a CPI do Cachoeira

Praticamente passei o dia lá. Ele reuniu diretores, mostrou relatórios e resultados. Tive surpresas positivas. Não vi sofás luxuosos para receber políticos. Vi que a Delta é uma empresa de engenheiros, não de lobistas. Investe nos funcionários. Tem gente lá com 15, 20 anos de casa.

Me apresentaram uma operação enxuta e descentralizada. Voltei de lá com uma boa impressão. Nos encontramos outra vez em São Paulo, naquela mesma semana. Ele almoçou lá em casa. Foi quando começamos a acertar as bases do acordo. 

EXAME - E quais são essas bases?

Joesley Batista - A Delta é controlada por dois fundos, dos quais Fernando é um dos cotistas. Falei para ele: podemos nos tornar o gestor dos fundos e eu, como gestor, passo a eleger os integrantes da empresa. Alguém precisa gerenciar o negócio. Há 200 obras em andamento e 30 000 funcionários trabalhando, mas a empresa ficou acéfala.

O Fernando virou um ser sozinho sobre a Terra. Nenhum banco ou político quer falar com ele. E o Fernando entendeu que era impossível tocar a empresa. Que precisa passar para alguém. Teve uma atitude que poucos empresários têm. Normalmente é difícil convencer o dono a sair quando o problema é ele.

EXAME - Cavendish não consegue gerenciá-la porque ele e a empresa perderam credibilidade num escândalo. Não o preocupa assumir uma empresa nessa condição?

Joesley Batista - Acreditei na explicação do Fernando, de que o problema ocorreu apenas numa regional, com um ex-diretor que tinha relações com um sujeito investigado pela Justiça (referindo-se a Carlos Augusto de Almeida Ramos, o bicheiro Carlinhos Cachoeira). Esse sujeito era validado por um senador.

Se um dos maiores amigos dele era o senador Demóstenes Torres, quem poderia duvidar dele? Goiás, onde tudo ocorreu, é 10% do negócio da Delta. Mas eu não quero ser dono de um problema. Não comprei a empresa. Primeiro, nós vamos passar a Delta a limpo. Até porque não sei o que podemos encontrar lá dentro.

Estou cercado dos melhores profissionais para fazer esse trabalho (no fechamento desta edição, a KPMG tinha dez auditores na empresa e esperava concluir o primeiro relatório em 30 dias). Acho ótimo que o governo e o Ministério Público façam o mesmo.

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