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São Paulo - Para aqueles que se prendem apenas às estatísticas, os números da Argentina poderiam ser considerados invejáveis. O país cresceu 9% em 2010 e deve expandir outros 8% neste ano. A dívida do setor público está em queda. O desemprego gira em torno de 7%.
Na superfície, a Argentina vive um dos melhores momentos de sua história econômica recente. Há exatos dez anos, o país declarava calote de sua dívida e se tornava um pária do mercado financeiro global — mais ou menos o que a Grécia virou atualmente. Agora, um desavisado poderia pensar que a Argentina está ascendendo à condição de nova estrela latino-americana.
De acordo com dados do FMI, entre 2005 e 2010 o país foi o que mais cresceu na América Latina, ao lado do Peru, com uma expansão do PIB de, em média, 7,2% (o Brasil cresceu 4,6%, em média).
Números como esses devem garantir um segundo mandato à presidente Cristina Kirchner nas eleições de 23 de outubro. Se eleita, serão 12 anos da dinastia Kirchner na Casa Rosada — quatro anos de Néstor Kirchner (morto em outubro do ano passado) e oito de Cristina.
Quem olhar as entranhas da economia argentina, porém, verá que não faltam evidências de que os vizinhos estão num caminho tortuoso. A maior delas é a volta da inflação e a forma como o governo de Cristina tem lidado com o problema. Nos últimos 12 meses, economistas e consultores argentinos apontam para uma inflação acumulada de 23%.
O número em si é péssimo, mas pior mesmo é a reação do governo. A administração Kirchner tem interferido no Indec, instituto que apura a inflação oficial — que, teoricamente, está em 9,7%. Além disso, o governo tem processado judicialmente e multado consultores que divulgam estimativas superiores.
Ou seja, a falta de transparência domina a apuração de um dos principais indicadores econômicos do país, seguida de intimidação a quem critica o modelo econômico vigente. “A Argentina voltou aos anos 80”, diz o economista Celso Toledo, da consultoria LCA.
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