Aguarde...

Sete Perguntas | 29/12/2010 06:00

A ascensão das classes A e B

Para o presidente do grupo Campari, a mobilidade social está fazendo o mercado brasileiro de bebidas se tornar cada vez mais premium

Divulgação

Bob Kunze-Concewitz

Bob Kunze-Concewitz: “Adquirir uma empresa não é como fazer compras no supermercado”

Para o austríaco Bob Kunze-Concewitz, presidente do grupo italiano Campari, sexto maior do mundo em bebidas destiladas, é bobagem apostar nos mercados indiano e chinês, os preferidos de parte da concorrência. Kunze-Concewitz acredita que o crescimento do setor está principalmente no Brasil e na Argentina.

1) EXAME - Que países dão mais segurança ao investidor hoje?

Bob Kunze-Concewitz - A maioria das empresas do setor de bebidas está fugindo dos mercados tradicionais e apostando na Índia e na China. Mas acredito que o futuro está nos Estados Unidos, na Europa — com Rússia e Ucrânia puxando os investimentos — e, principalmente, no Brasil e na Argentina.

2) EXAME - Na Argentina?

Bob Kunze-Concewitz - No segmento de bebidas, a Argentina tem um grande mercado consumidor. O país também é um produtor de excelentes vinhos. Junto com o Brasil, pode servir de polo de exportação para toda a América Latina.

3) EXAME - O que está acontecendo no mercado brasileiro?

Bob Kunze-Concewitz - Não é só o PIB que está aumentando significativamente, há também um fator fora de série: a mobilidade social. Quando digo isso, não me refiro somente à classe C. Falo de quem está entrando nas classes A e B. Um dos efeitos imediatos do aumento da riqueza é o desejo de beber melhor, é o que eu chamo de “premiumização”.

4) EXAME - Como assim?

Bob Kunze-Concewitz - As pessoas começam a ganhar mais dinheiro e passam a querer novas experiências, a frequentar lugares mais requintados. No setor de bebidas, isso é muito claro. O primeiro nível é o conhaque. Depois as pessoas passam para o uísque e a vodca. Quanto mais premium, mais lucrativo fica para os fabricantes.

5) EXAME - Quais os problemas do mercado brasileiro?

Bob Kunze-Concewitz - Há muita pressão dos impostos, que são diferentes em cada estado. São muitas variáveis climáticas e culturais em todo o país. Os países europeus — e mesmo outros da América Latina — são menores e mais homogêneos. É incrível que, dentro de um mesmo país, uma fábrica mande bebidas a lugares a 4 000 quilômetros de distância. É como fazer um transporte entre Milão e o interior da Rússia.

6) EXAME - A crise na Europa preocupa?

Bob Kunze-Concewitz - Os Estados Unidos e a Europa são os países mais lucrativos para nossa indústria. São mercados maduros e consomem nossos produtos mais sofisticados, com as melhores margens do setor. Nesse sentido, a crise aparece como um momento de oportunidade, uma época propícia para comprar concorrentes, ganhar fatias de mercado e crescer num momento de estagnação econômica.

7) EXAME - Pelo jeito, o senhor é a favor da estratégia de crescer por aquisições.

Bob Kunze-Concewitz - A aquisição de empresas e marcas não é como entrar num supermercado e comprar o que quer, com o preço de tabela. É mais como um sebo, em que a oferta é limitadíssima e, muitas vezes, os preços não condizem com a qualidade do produto. Dito isso, às vezes dá para encontrar algo valiosíssimo por uma pechincha. O que costuma atrapalhar é a atuação de outros concorrentes que também estão em busca das mesmas oportunidades.

Comentários  

Editora Abril

Copyright © Editora Abril - Todos os direitos reservados