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Embora tenha se tornado pública, a disputa entre Casas Bahia e Pão de Açúcar ainda é repleta de mistérios. Os principais se referem à surpreendente conduta dos Klein. Por que eles assinaram um acordo que hoje consideram tão prejudicial? O que justifica o desejo de desfazer o negócio? Para tentar esclarecer essas dúvidas, EXAME ouviu Michael Klein. Foi a primeira e única entrevista concedida por ele sobre o imbróglio com o Pão de Açúcar. Cercado por assessores e advogados, Michael mediu as palavras, mas suas respostas ajudam a entender os motivos da briga com Abilio Diniz. Embora não fale disso abertamente, um de seus principais objetivos parece ser desfazer a percepção de que vendeu sua empresa para o Pão de Açúcar. “Eu não passei a Casas Bahia para a frente”, afirma, ciente de que seus sócios têm um ponto de vista diferente. Segundo ele, os problemas começaram já no primeiro dia, no fato relevante enviado pelo Pão de Açúcar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O documento afirma que a Casas Bahia transferiu à nova empresa uma dívida de 950 milhões de reais — segundo Michael, essa dívida nunca existiu. “No fato relevante, houve o primeiro erro deles”, diz. “Eu não entrei com dívida nenhuma. Não sei de onde eles tiraram aquilo.” A menção à dívida criou a impressão de que a empresa estava à beira de um colapso e que a transação teria sido uma espécie de resgate disfarçado. Procurado, o Pão de Açúcar preferiu não se manifestar oficialmente sobre o assunto.
No centro da controvérsia entre a família Klein e Abilio Diniz está um contrato de 29 páginas assinado no início da manhã de 4 de dezembro. Para os assessores dos Klein, o contrato é lesivo à Casas Bahia. Eles elencam uma série de razões para chegar a essa conclusão. Entre elas está o fato de a união do Ponto Frio com a Casas Bahia ter sido feita com critérios financeiros desiguais para os dois lados. A apuração do valor de mercado do Ponto Frio teria usado o preço de suas ações na bolsa como referência. Já o valor da Casas Bahia, uma empresa fechada, foi calculado tendo como base seu valor contábil (em resumo, a soma de seus ativos). A alegação da equipe dos Klein é que o valor de mercado de uma empresa saudável é quase sempre superior a seu valor contábil, e deve ser calculado tendo como base outros indicadores, como a geração de caixa, e não o valor dos ativos. Segundo as contas da equipe da Casas Bahia, a diferença de critérios representou um prejuízo de cerca de 2 bilhões de reais aos Klein. Ainda de acordo com esses executivos, uma série de termos acertados verbalmente com Abilio Diniz, entre eles uma garantia de que os Klein continuariam mandando na nova empresa — mesmo sem a maioria no conselho de administração, que é controlado pelo Pão de Açúcar —, não apareceu na versão final do documento. “O contrato não reflete tudo o que foi negociado pelos controladores dos dois grupos”, diz Michael Klein.
De todos os aspectos pitorescos da briga, nenhum é tão espantoso quanto a conclusão de que a família Klein padeceu de altos graus de ingenuidade na negociação com Abilio Diniz. Eles são, afinal de contas, os controladores do varejista que estraçalhou cada um de seus rivais nas últimas duas décadas e que acabou, assim, tornando-se uma das empresas mais poderosas do país. Por que os Klein assinaram o contrato se ele era tão prejudicial e não traduzia o que havia sido combinado? Aqui, as versões de cada um dos lados divergem. Um aspecto comum a ambas é o fato de que, originalmente, o negócio não seria anunciado no dia 4 de dezembro, mas foi antecipado devido a um pedido de explicações da Bovespa no início daquele mês (os papéis do Ponto Frio disparavam na bolsa, num forte indício de vazamento). Fora isso, tudo é diferente.
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