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Michael Klein, da Casas Bahia: para ele, o contrato não reflete o que estava combinado com Abilio Diniz
No dia 4 de dezembro do ano passado, quando anunciou a união entre os dois maiores varejistas de eletrodomésticos do país, a Casas Bahia e o Ponto Frio, o empresário paulista Abilio Diniz parecia entusiasmado, e com razão. Em menos de seis meses, e com apenas dois movimentos, ele havia se tornado líder num setor em que seu Grupo Pão de Açúcar era irrelevante. Primeiro, comprou o contwrole do Ponto Frio em junho. Depois, assinou o acordo com a Casas Bahia. Pelo que foi divulgado na época, a família Klein assumiria 49% da nova empresa. Abilio e o Pão de Açúcar ficariam com 51%. “Isso é um jogo de ganha-ganha-ganha, não só para as empresas mas também para seus controladores”, disse Abilio durante a coletiva. A seu lado na mesa, no entanto, Michael Klein já tinha motivos para pensar de forma diferente. Filho primogênito de Samuel Klein, o imigrante polonês que fundou a Casas Bahia 57 anos atrás, Michael havia sido o principal responsável por negociar a associação com os Diniz. Naquele dia, as ações do Pão de Açúcar na bolsa tiveram valorização de quase 10%. Os investidores, normalmente desconfiados de fusões e aquisições, davam um sinal inequívoco: se o negócio havia sido muito bom para alguém, esse alguém não era Michael Klein.
A transação anunciada em dezembro, que tinha como objetivo juntar os Klein e os Diniz num só time, acabou colocando as duas famílias mais poderosas do varejo brasileiro em campos opostos. Em sigilo, os dois lados passaram a defender interesses distintos logo após o anúncio do negócio. Insatisfeitos com o acordo que eles mesmos assinaram, os Klein tentavam mudar a estrutura da parceria; Abilio lutava para mantê-la o mais perto possível do acordo original. As negociações cozinharam em banho-maria até o dia 12 de abril, quando EXAME.com revelou, com exclusividade, que os Klein queriam rever o contrato original. Nos bastidores, o dia 12 foi marcado também por uma radical mudança de postura dos Klein. Numa reunião na sede da Casas Bahia, em São Caetano do Sul, no ABC paulista, Samuel disse a Abilio que gostaria de desfazer o negócio. Em paralelo, seus advogados enviaram ao Pão de Açúcar uma notificação, documento legal que inicia uma contagem de 30 dias necessária para que uma das partes possa recorrer aos tribunais de arbitragem para a resolução de conflitos. O recado era cristalino — caso Abilio não cedesse, o maior negócio da história do varejo brasileiro poderia se transformar numa batalha jurídica. No dia do fechamento desta edição, as negociações entre os Klein e Abilio Diniz avançavam. Havia, nas palavras de um executivo envolvido, mais de 50% de chance de terminarem de forma amigável. Mas nada garante que a disputa em torno do contrato acabará bem. Os envolvidos já se preparam para enfrentar o outro cenário possível, a ida do caso aos tribunais. Segundo EXAME apurou, os Klein não descartam adotar uma postura ainda mais belicosa. Estudam levar o Pão de Açúcar à Justiça comum, sob alegação de estelionato (o famoso artigo 171 do Código Penal) — as avaliações são preliminares, mas criminalistas já foram consultados. Ou seja, o que já está ruim pode ficar ainda pior.
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