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23/08/2007 11:53

O dono decidiu ficar

Um grupo de investidores entrou na BRA pensando em mudar tudo - faltou combinar com Humberto Folegatti

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Folegatti: "Ninguém entende mais de BRA do que eu"

No final de 2006, quando um grupo de sete investidores pagou 180 milhões de reais para comprar uma participação no capital da BRA, terceira maior companhia aérea do país, mostrou-se inevitável a comparação com a história da Gol. Afinal, a empresa da família Constantino também recebeu aporte de um fundo de private equity, o AIG Capital, o que turbinou seu crescimento e culminou com a abertura de capital na bolsa, em 2004. Segundo as avaliações mais otimistas, a BRA poderia traçar um roteiro semelhante. O perfil dos investidores dava razão para isso: entre os novos sócios estavam o Goldman Sachs, maior banco de investimento do mundo, e o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Gente, afinal, que não rasga dinheiro. De acordo com os planos iniciais, o presidente da companhia seria um profissional do mercado, e o dono da BRA, o empresário paulista Humberto Folegatti, deixaria as funções executivas. A BRA seria, então, transformada numa empresa aérea regional, com uso intensivo de aviões zero-quilômetro da Embraer. Assim, fugiria da competição direta com Gol e TAM e atingiria uma participação de 18% do mercado em apenas três anos. Feito tudo isso, levantaria 1 bilhão de reais com sua abertura de capital, prevista para o final de 2009. Tudo, não resta dúvida, muito bonito no papel -- o problema é que o dono resolveu ficar.

Para exasperação dos novos sócios, Folegatti ainda acumula os cargos de presidente do conselho de administração e presidente executivo da BRA. E não mostra nenhuma disposição de largar esses postos. "Não posso simplesmente passar o bastão a um desconhecido", afirma Folegatti. O empresário fundou a companhia com seu irmão Walter, há oito anos. Juntos, eles são donos de 80% das ações. Mesmo com tamanha força, os investidores apostavam no que chamavam de "desfolegattização" da BRA. Segundo eles, o estilo do fundador seria incompatível com o novo rumo dado à empresa. A principal característica desse estilo é a centralização. É Folegatti quem define novos pacotes, rotas ou tarifas para a BRA. É ele, também, que faz a negociação com fornecedores, como Boeing e Embraer. É dele a palavra final para qualquer assunto, até mesmo a contratação de mecânicos. "Esse jeito centralizador faz com que qualquer decisão estratégica leve pelo menos quatro meses para ser tomada", afirma um ex-diretor da empresa. O processo de negociação da venda de parte da companhia a investidores estrangeiros dá uma boa dimensão disso. As conversas estenderam-se por mais de dez meses. Ao todo, foram produzidas mais de 100 versões do contrato final -- um calhamaço com mais de 2 000 páginas. Segundo representantes dos investidores e executivos da BRA, a maior parte desse trabalho se deveu a exigências de Folegatti.

A permanência de Folegatti vem azedando o clima entre os investidores. O mais descontente deles é o americano Paul Tierney, um executivo conhecido por ter coordenado, na década de 90, a reestruturação da então concordatária United Airlines. A desconfiança de Tierney em relação ao dono da BRA é tão grande que partiu dele a exigência da contratação de uma consultoria para implementar mudanças na gestão da companhia. Folegatti acabou optando pela americana Alvarez & Marsal, que comandou a Varig no período de recuperação judicial. Além disso, Tierney tem se queixado abertamente da falta de transparência por parte da direção da empresa. Entre as reclamações mais freqüentes está a falta de acesso a informações financeiras e estratégicas da companhia. Nos últimos seis meses, ele alega ter se encontrado apenas uma vez com o diretor financeiro da BRA. Oficialmente, nenhum dos investidores quis conceder entrevista a EXAME, e Humberto Folegatti nega que haja discórdia entre os sócios.

As razões da briga
Por que os novos sócios estão descontentes com a direção da BRA
Venda de passagens
A comercialização de passagens aéreas da BRA continua concentrada na rede de agências PNX, de propriedade de Folegatti
Comando da empresa
Como Folegatti tem um estilo centralizador, decisões estratégicas levam em média quatro meses para ser tomadas
Falta de transparência
Alguns investidores queixam-se de falta de acesso aos dados financeiros da companhia.Desde o início do ano, houve apenas uma reunião com o responsável pela área
Aumento da frota
A frota da BRA deveria ter sido ampliada neste ano, o que acabou não ocorrendo. Enquanto isso, a empresa mantém um avião parado por falta de manutenção

SEGUNDO EXECUTIVOS PROXIMOS à BRA -- que só aceitaram falar sob condição de anonimato --, no centro da disputa entre os sócios está a ligação de Folegatti com a PNX, rede de agências de viagem que deu origem à BRA. Como dono da holding que controla as 150 lojas, Folegatti recebe uma participação de aproximadamente 2% sobre as passagens da BRA vendidas pela PNX. A operação, segundo o empresário, sempre foi conhecida pelos investidores. No entanto, o plano de negócios apresentado a eles previa uma descentralização na comercialização de bilhetes. A idéia era atuar em duas frentes: facilitar o acesso de outras agências aos tíquetes da BRA e investir nas vendas pela internet. Passado quase um ano da chegada dos novos sócios, a BRA não avançou em nenhuma delas. Segundo Folegatti, a PNX responde por apenas 20% das vendas de passagens da BRA. Os investidores estimam que o valor seja, na realidade, o dobro disso. No caso das vendas pela internet, a situação não é diferente. Entre as grandes companhias aéreas, a BRA é a que conta com o menor índice de vendas pela rede: 18%. Na Gol e na TAM, esse índice chega a 40%.

O estilo Folegatti de gestão acabou gerando polêmica entre os próprios acionistas. Para um grupo de investidores, sua saída deve acontecer imediatamente. Segundo essa corrente, a BRA necessita de uma gestão profissionalizada, que tome decisões mais rapidamente. A outra corrente, da qual o fundo Gávea, de Armínio Fraga, seria partidário, pensa justamente o contrário. Para eles, o sucesso da BRA até aqui é fruto da atuação de Folegatti, e não haveria motivo para tirá-lo da presidência da empresa. Seus argumentos miram a metade cheia do copo: apesar dos solavancos, o plano de negócios vem sendo seguido. A compra dos aviões da Embraer foi finalmente concretizada no dia 21 de agosto, com financiamento do BNDES. E a migração para uma gestão mais profissional teve início em julho, quando foram contratados quatro novos diretores para a companhia.

Apesar do ambiente carregado, os investidores ainda consideram a BRA um ativo promissor. A empresa é vista por analistas como a única companhia aérea capaz de enfrentar o duopólio formado por TAM e Gol. Segundo o último relatório do banco Goldman Sachs, a empresa deve atingir em pouco tempo uma participação de mercado de aproximadamente 5% -- hoje, esse número já é de 4%. Isso se deve, em primeiro lugar, à própria estratégia de negócios adotada pela companhia. Para fugir da competição direta com TAM e Gol, a BRA acabou abrindo mão das rotas mais movimentadas do país, como as que ligam as principais capitais brasileiras. Em vez disso, a empresa centrou esforços na exploração de rotas alternativas, ligando cidades de médio porte normalmente servidas por ônibus. A atual participação de mercado foi obtida em apenas um ano, desde que a BRA se tornou uma companhia aérea regular (a empresa nasceu como operadora de vôos charter). A chegada dos aviões da Embraer deve dar novo fôlego à operação. Hoje, a companhia utiliza Boeings com mais de dez anos de uso. Com jatos menores, novos e mais econômicos, a BRA espera dobrar o número de cidades atendidas até o final de 2009, quando deve ocorrer a abertura de capital da companhia. "O número de cidades atendidas por transporte aéreo no Brasil caiu de 230 em 1997 para 160 em 2005", afirma Mauro Kern, vice-presidente executivo para o mercado de aviação comercial da Embraer. "As grandes companhias abandonaram esse mercado." A BRA quer ser a empresa que mais lucra com esse nicho deixado de lado pelas rivais -- e Humberto Folegatti quer estar lá para comemorar. "É preciso preparar a empresa. E estou fazendo isso", diz ele. "Ninguém entende mais de BRA do que eu."

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